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CASO SONINHA
Aos leões com César e a mulher

Digamos que eu possa dar o benefício do crédito a Paulo José Cunha quando diz que o apresentador de TV possa servir como modelo. É triste, mas num país – como dizia Marques Rebelo – em que o sujeito se considera intelectual simplesmente por ser alfabetizado, vamos lá... Digamos que eu concorde – em tese – em que a mulher de César não possa fumar maconha. V. Sa. trabalha com a juventude (crianças, adolescentes, jovens), assim como a mulher de César?

Mas, vamos por partes. Creio que Paulo José seja jornalista. Parece-me portanto que seu dever é estar bem-informado, pois sua função (assim como a da Soninha era a educativa numa TV educativa) é publicar a boa informação: você não assistiu ao Observatório da Imprensa? Não ouviu o jurista presente afirmar que o "ato de fumar maconha" não constitui ilícito? Em miúdos, para os maus entendedores: não é crime. Crime é vender maconha, traficar, portar para venda! Isso já foi dito centenas de milhares de vezes, e os jornalistas não conseguem compreender!

É tão difícil assim? É má vontade? Crime é comprar e vender CD pirata! Crime é usar software pirata! Todo o foco da demissão, entretanto, foi em cima disso: a apresentadora que trabalha com a juventude assumiu que comete um crime (fumar maconha; não comprar/vender CD pirata; não utilizar software pirata). Você não percebeu isso no comunicado da TV Cultura? Você não leu o comunicado? Mais ainda, o bafafá foi maior por causa da demissão sumária, o justiçamento ao estilo talibã, ao estilo AI-5 (Cunha Lima não pode ter deixado de aprender a lição dos mestres).

Na verdade, a celeuma em torno do caso fugiu do foco que todos queriam discutir. A repercussão foi muito mais forte por todos terem uma idéia equivocada do comportamento da TV Cultura. Cunha Lima sempre foi conservador e capacho do governo do estado. Ninguém aqui em São Paulo desconhece esse fato. Além disso, o ano que vem é ano eleitoral, se Alckmin perde muita gente dança na TV Pública.

Para lembrar uma parte da história da TV Cultura: ela demitiu, nos finais da década de 60, o psicanalista Paulo Gaudêncio, num justiçamento muito parecido com o da Soninha. Mudou simplesmente o objeto do ilícito: naquela época era falar livremente sobre sexo. Os programas mais "livres" da grade da TV Cultura (tipo Provocações, Musikaos, Roda-Viva e alguns poucos mais) são a exceção à regra, e se mantêm na grade porque, nos dois últimos anos, a deterioração da grade de programação da TV Cultura só fez aumentar: aumentaram as reprises, aumentaram as retransmissões, aumentaram os telejornais meramente informativos, aumentaram as demissões, aumentaram as diminuições nos programas.

Nessa história toda, ninguém lembrou de chamar especialistas em trabalho com jovens para opinar. Mais que isso, ninguém se lembrou de chamar os jovens (sem se importar se usuário ou não de drogas). Como sempre, tomou-se o jovem como imbecil (como V. Sa. faz em seu artigo do Observatório), cretino, vazio e pronto pra tomar a primeira porcaria que se lhe bota à frente. Os pais (V. Sa. é pai?) têm tão pouca confiança na educação que deram aos seus filhos? Os educadores têm tão pouca confiança na educação que ministram a seus alunos? Se a apresentadora engravida, a menina que assiste ao programa engravida também! Se o apresentador joga o carro em cima do poste para se matar, o rapaz que o toma por ídolo, modelo ou seja lá o que seja joga também seu carro contra o poste para seguir o modelo à risca.

Engraçado é o seguinte: quando se diz que a violência que a TV exibe influencia o comportamento do jovem (é a tese, por exemplo, da ONG fundada por Martha Suplicy) todos estrilam em uníssono. Magina! O jovem sabe muito bem diferenciar ficção de realidade, novela de vida, TV e realidade. Jô Soares quase espancou Martha Suplicy em seu programa quando esta defendeu a classificação rigorosa de programas na TV e a obrigatoriedade da presença de certa quantidade de programas educativos em todas as emissoras. Disse ele que não há provas de que a TV influencie no comportamento das pessoas. Ora, por que se proibiram, então, os comerciais de cigarro? Existem provas de que a maconha seja mais perniciosa para o organismo humano e social do que o álcool? Eu sou alcoólatra e posso testemunhar que o álcool me causou muito mais danos do que a maconha. Afeta a inteligência? Minha inteligência nunca foi afetada. Afeta a memória? Minha memória nunca foi afetada (posso dizer sem pestanejar o nome de todos os candidatos em que votei desde a primeira vez que votei, 1984).

O fato é que a rudimentar democracia brasileira é sempre podada pela censura consentida. E continuamos não querendo discutir como adultos a reforma agrária, o imposto sobre a riqueza, a reavaliação das concessões de transmissão de TV, a legalização do aborto, a legalização (ou não) de drogas leves etc. etc. etc. E continuamos fingindo que rumamos para o Primeiro Mundo, que o Primeiro Mundo se interessa por nós.

O caso Soninha serviu para quem tem olhos ver algumas coisas: o despreparo (principalmente intelectual) da maior parte dos jornalistas brasileiros, a subserviência de uma parte não pequena dos mesmos jornalistas, a leviandade da imprensa, a cara-de-pau do poder público, a falta de eficiência de nossos governantes, a dificuldade de se implantar a democracia numa república de imbecis e cordeiros. Ora, aos leões com McLuhan, César e sua esposa!

Nei Diaz, poeta, professor, doutorando em Teoria Literária pela FFLCH-USP

 

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A mulher de César não fuma maconha – Paulo José Cunha

 

 

Drogas, vício e hipocrisia

Imagine uma pessoa de 27 anos que já fumou (ou... fuma?) maconha: a primeira vez, aos 19 anos – oito anos, em outras palavras. É possível contar nos dedos (talvez de uma mão) quantas vezes isso ocorreu. E daí? O sujeito é viciado? Dependente? Criminoso? Ele nunca usou nenhuma outra droga – antes: não usa nenhuma nem nunca usou nenhuma outra droga proibida por lei. Em compensação, bebe desde os 16; desde os 18, fuma, e está hoje no meio maço – 10 cigarros – por dia. Portanto, em um dia fuma muito mais o cigarro de nicotina+alcatrão+monóxido de carbono do que maconha em toda a vida.

E o curioso é que, após ler inúmeras publicações, saber de exaustivas pesquisas científicas e entreter-se com incansáveis tentativas frustradas de debate sobre o tema, cansou-se de ouvir dizer que o poder destrutivo da cannabis enrolada numa sedinha é significativamente menor do que os Souza Cruz e Philip Morris vendidos em padarias, lanchonetes, bares e bancas. E mais: ele contesta com todo o coração a parolagem de que "maconha é trampolim para outras drogas", porque maconha não pode ser "trampolim", "primeiro degrau" nem "primeiro passo" se antes há o álcool e o cigarro.

E por conseqüência ele sinceramente não sabe se o correto é legalizar o uso de maconha ou criminalizar o uso de álcool e cigarro, além de "otras cositas" que também provocam dependência mas que, em geral, começamos a consumir desde a infância. Como os "sucrilhos" do Lobão. Enfim, ele só têm certeza de que já é hora de abandonarmos a hipocrisia.

Caro Dines, você leu a reportagem tão debatida da Época? Não creio que você encontraria alguma culpa em Soninha se a lesse! Creio que debater o tema sem fazer apologia da droga, ter coragem em assumir publicamente sua condição de usuária sabendo dos riscos e dos prejuízos do consumo é uma atitude, mostra o quão preparada – e indicada – ela é para comandar um programa voltado ao público jovem.

Variações do mesmo tema: jamais vi atacarem alguém que aparecesse em público fumando ou bebendo. Por quê? Simplesmente porque não é "contra a lei"? Porque impostos são recolhidos da produção e da circulação de tais mercadorias? E também jamais vi alguém discutir os boatos do pó branco "rolando solto" madrugadas adentro nas redações dos grandes jornais. Repetindo: por que não aproveitar mais uma chance de debate para abandonarmos a hipocrisia?

Sergio Luiz do Prado

Nota do OI: O programa OI na TV ressaltou exatamente que o texto da matéria não continha o sensacionalismo da capa e do outdoor.


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