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LAGE vs. BAGNO
Um equívoco de leitura

Li um texto de Nilson Lage criticando, se estou certo, pelo menos uma tese e o tom do texto de Marcos Bagno publicado recentemente neste Observatório. Algumas passagens do texto de Lage poderiam ser consideradas do mesmo quilate das que ele critica em Bagno. Mas não quero entrar nesta questão.

Queria comentar um equívoco da leitura de Lage. Segundo ele, para Bagno ser coerente deveria escrever em português não padrão. Este tópico tem sido lugar de repetidas incompreensões das teses de toda a sociolingüística, quando ousa falar de ensino de língua. Jamais – jamais, insisto – alguém encontrará escrito em qualquer texto (exceto nos de leitores que não entenderam, e as razões para isso podem ser variadas – para mim, de fato, são misteriosas) que a escola deve abandonar o ensino do padrão. Encontrar-se-á, isso sim, a tese de que o ensino do padrão será até mais eficaz se não houver preconceito contra as formas não padrões. Ou que é mais fácil aprender o padrão sem passar pelas gramáticas, como se faz em muitos países.

Mas isso até poderia ser discutido. O que não é legítimo – talvez não seja nem ético – é fazer um lingüista dizer que ele é contra o padrão, salvo se tiver dito ou escrito isso. O texto de Bagno aqui publicado não defende este ponto de vista em momento algum. É só reler. Sim, porque não basta escrever corretamente...

Por um estranho movimento, a posição de defesa do não padrão é entendida como ataque ao padrão. É como se a notícia de um estupro tornasse o repórter defensor da violência. Como se a descrição de um câncer por um médico pudesse ser interpretada como um conselho para desenvolver um. Como se a descrição de uma bomba significasse "joguem".

É evidente que Lage tem o direito de criticar todas as teses de Bagno. Aliás, ele tem defendido várias. Em número suficiente para não ser necessário atribuir-lhe uma que nunca defendeu para criticá-lo.

Lage diz que Bagno é invejoso e bobo (entre outras coisas). Não o conheço o suficiente para saber se é invejoso. Bobo ele certamente não é. Por exemplo, jamais trataria as teses de gente como Austin, Strawson, Peirce, Grice, Sperber – Frege é mais complicado – como científicas.

Sírio Possenti, lingüista

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Nilson Lage responde

O que posso dizer com relação à intervenção de Sírio Possenti é que sou forçado a lidar com número enorme de estudantes a quem não se ensinou, nos estudos básicos, o mínimo da língua nacional, em nome de uma área de estudos científicos - de fato, os considero científicos - que nada tem com isso. Abomina-me que se desdenhe de velhos mestres. Irrita-me o discurso feito em nome de suposto culto da maioria iletrada, como se ser iletrado fosse algo desejável ou aceitável no mundo contemporâneo. Quanto à questão técnica, não cabe discuti-la nesse contexto. A gramática que se ensina é um conjunto de convenções, algumas referidas ao passado da língua (como as mesóclises ou a segunda pessoa do plural), no entanto ainda convenientes para o acesso do estudante a discursos mais antigos (como o Hino Nacional ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, por exemplo); outras à prática contemporânea, o que nos permite, entre outras coisas, denunciar as estruturas em que se disfarçam manobras do poder (os jargões da economia, as leis "flexibilizadas", os devedores "caloteiros", as classes "afluentes" - locuções ao mesmo tempo referenciais, informativas mas, sobretudo, fortemente argumentais). Mas Possenti é amigo de Bagno. Logo, não se pode criticar Bagno que Possenti parte, com sua espada, para o duelo. Na academia, um por todos, todos por um! N.L.

 

INCLUSÃO DIGITAL
Trincheiras contra Redmond

Ótimo texto. Muito bom saber que não só os desenvolvedores que se entrincheiram em conhecimentos técnicos para evitar o uso de softwares da gigante de Redmond sabem o que se passa no mundo lá fora. Há mais de 9 anos que não leio a Veja devido à postura tendenciosa de seus textos. Obrigado pelo serviço à sociedade de informação.

Leonardo T. de Carvalho

Mais objetividade

Excelente! Parabéns! Só sugiro um pouco mais de objetividade.

Henrique Landim

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