Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

Doação de órgãos

Caro Victor Gentilli. li teu artigo e tens razão quanto ao fato de a imprensa não pegar o gancho do JN para cobrar esclarecimentos sobre a morte cerebral. Gostaria, entretanto, de alertá-lo que o Jornal do Brasil, desde o ano passado, vem tratando desse tema. O JB foi o primeiro a fazer entrevista com um médico gaúcho que mora em São Paulo, professor do Departamento de Neurologia Experimental da Escola Paulista de Medicina, Cícero Coimbra, que questionou exatamente a questão da morte cerebral, mostrando que se faz extração de órgãos de pessoas potencialmente vivas.

Como repórter do JB no Rio Grande do Sul, levantei o assunto, reativando-o no início desse ano, quando começou a vigorar a Lei de Transplantes. Foi uma polêmica forte, inclusive contra médicos transplantadores e o ministro da Saúde, assunto que o JB cobriu por mais de 20 dias consecutivos, ouvindo autoridades de todo o país. E o cerne de tudo era o fato de não existir comprovação e fundamentação científica para a chamada morte cerebral. Inclusive, no absurdo dos absurdos, quando a Universidade de Harvard, nos anos 70, criou o novo conceito de morte, o da morte encefálica ou cerebral, não havia nenhuma bibliografia nem estudo científico para comprová-la. Apenas citava livro de um papa que transferia a responsabilidade sobre momento da morte para os médicos. E como dizem que papa é infalível...

O caso do JN comprova mais uma vez que, segundo Cícero Coimbra, os exames atuais, inclusive os determinados pelo Conselho Federal de Medicina, com uma resolução que serviu como regulamentação da Lei dos Transplantes, não comprovam se a pessoa morreu mesmo ou não. Pelo contrário poderiam ser salvas pela técnica da hipotermia (esfriamento do corpo), que Cícero defende como um dos principais cientistas desse método, e como serve de exemplo o ator Gerson Brenner.

José Mitchell

xxx

Sou o advogado que iniciou a denúncia judicial pela prática de homicídio representada por talvez uma das maiores farsas apresentadas no meio médico internacional para viabilizar a indústria transplantista (o trabalho médico-científico, que já é amplamente divulgado no exterior, é de autoria de meu irmão, de quem também sou advogado em São Paulo).

É indústria porque jamais foi terapêutica, eis que quase 100% dos transplantes podem ser evitados por aconselhamento médico preventivo. Mais de 70% dos transplantes no Brasil são renais e evitáveis em sua maioria pelo simples controle da hipertensão, que é o principal fator destrutivo dos rins. Por que não se determina a prevenção? Porque prevenir doenças não dá lucro.

Leia a primeira reportagem do Jornal do Brasil do dia 5 de outubro de 1997 sobre o início deste assunto realizado pelo correspondente gaúcho José Mitchell. Consulte o site da Unifesp, onde estão as únicas análises efetivamente científicas sobre a realidade homicida do "diagnóstico" de morte encefálica.

A recuperação sem seqüelas dos lesionados encefálicos tem hoje uma terapêutica efetiva, da qual Gerson Brenner foi o primeiro beneficiado publicamente no Brasil, mas que defronta-se com a especulação assassina da atividade transplantista.

Não existe possibilidade de transplante de órgão vital sem que o doador ainda esteja vivo, por isso foi criado há 30 anos o dogma da morte encefálica - para eximir os médicos transplantadores de responsabilidades criminais -, quando Barnard retirou um coração em atividade do peito de uma jovem acidentada, sendo que, na época, o conceito de morte era apenas a parada cardiovascular... Alguns meses após, sem qualquer fundamento científico e sequer bibliográfico, concebeu-se uma (senão a maior) farsa homicida da medicina: a morte encefálica.

Ela é mero prognóstico de morte. Nunca foi um diagnóstico. E não ocorre em minutos como aceito sem questionamentos, mas no mínimo em horas. Antes disso o "diagnosticado" é carneado em vida pelos que deveriam buscar salvá-lo, em nome do lucro que suas entranhas rendem e da falácia homicida e impingida do ato de doação de órgãos. O assunto visualizado no artigo é de extrema importância e gravidade. Tornou-se público devido ao fato de ter-lhe sido conferida tradução judicial. E que hoje é litigiosa. Houve vários processos. Entretanto, por motivos óbvios, foi e é muito difícil conseguir espaço na mídia para, pelo menos, debater o assunto.

Acusei em diversas interpelações judiciais, demonstrando com fundamentos científicos os protocolos diagnósticos eleitos na Resolução CFM 1480/97, que regulamentou a morte encefálica no Brasil recentemente, como homicidas. E praticantes de homicídio quem os utilizava.

Ninguém enfrentou o assunto.

Celso Galli Coimbra

Show de horror

Pelo modo como terminou, o Fantástico deste domingo (22/11) bem que podia ser confundido com um filme de terror. Um daqueles de Ed Wood, celebrizados hoje como trash movies e mais popularmente conhecidos como filmes de "terrir".

A entrevista do "Maníaco do Parque" ao Fantástico rendeu intermináveis minutos do sensacionalismo mais barato, desde a edição de imagens ao texto confuso e dirigido para um só caminho: convencer os telespectadores de que o tal motoboy é um demônio. A sala em penumbra, uma luz dirigida formando uma tarja nos olhos do criminoso, as perguntas em tom de ameaça, os cortes rápidos, a interposição de "informações" de fontes e naturezas radicalmente díspares (médium, astrólogo, médicos, familiares e amiguinhos de infância), efeitos de quinta como o do sangue escorrendo da caveira de um boi (seriam os Contos da Cripta versão bovina?) e a repetição insistente de coisas como "e depois? Quem foi a próxima?", tudo deixou no ar, para quem agüentou ir até o fim, a impressão de que um assunto tão sério merecia um tratamento de igual teor.

Um amigo meu disse que chegou a sentir pena do assassino. Não cheguei a tanto, mas é preciso reconhecer que, se o objetivo da Globo, além de fazer sensacionalismo barato para angariar audiência, era demonizar Francisco de Assis (que nome mais impróprio para um sociopata, não?), a emissora errou feio o alvo, e o tiro saiu pela culatra. Era tal o estado de confusão mental do entrevistado que, se lhe fosse instado confessar o assassinato de Kennedy, Lincoln e Lady Di, ele certamente não hesitaria um minuto. Marcelo Rezende, o Peter Lorre da Globo, parecia naquele cenário mais um torturador do Dops do que um jornalista, tentando obter as tais "confissões inéditas".

Afinal, o destaque da matéria foram as supostas "cento e três" vítimas que Francisco teria feito, número cabalístico resultado das consultas certeiras de uma médium com o além, aliadas a uma fórmula matemática cometida pelo repórter. Coisa simples: 70 (de um delírio do criminoso) + 30 (de uma visão do mesmo a partir de um suposto número três rabiscado no teto da cadeia) + 3 (o mesmo três do teto). Escrito de outra forma: uma pitada de veneno de cobra + uma porção de olho de sapo + teia de aranha + rabo de lagartixa + três asas de morcego. Como se pode ver, jornalismo puro.

É claro que Marcelo Rezende, com tantos anos de jornalismo (muitas vezes, diga-se, do bom), jamais acreditou na lorota que pôs no ar. Francisco de Assis está hoje na casa dos 30. Segundo os especialistas, o mais provável é que tivesse começado seus crimes ao completar a maioridade. São cerca de dez anos. Será que alguém é capaz de crer que 102 pessoas, com características específicas (mulheres, jovens, morenas), poderiam simplesmente desaparecer num período de dez anos (são dez por ano, quase uma por mês), mortas por uma única pessoa, de forma violenta e num mesmo lugar da cidade de São Paulo, sem que alguém se desse conta, sem que a polícia pudesse detê-lo? É fantástico!

Não se sabe ainda muita coisa sobre o caso em questão: o que fez com que Francisco cometesse os crimes? O que fez com que as moças caíssem com tanta facilidade naquelas ciladas? Quantas pessoas há, soltas nas ruas, como Francisco? E presas? E no resto do mundo? Elas estão sendo estudadas? O que está sendo feito para detê-las? E para prevenir suas ações? O problema tem mais componentes genéticos ou adquiridos? São perguntas que, longe dos detalhes escabrosos que impressionam, atraem (como atrai a natureza humana quase tudo o que é doentio e mau), mas nada acrescentam à identificação, reflexão e solução do problema, poderiam ser feitas em benefício de toda a sociedade.

Nos EUA, país que abriga 70% dos chamados serial killers conhecidos do planeta, é comum esse tipo de tratamento dos criminosos pela mídia, a um tal ponto que os mais famosos psicopatas de lá (os piores, aqueles que cometem os crimes mais hediondos) são transformados em astros pop. Foi assim com Charles Manson, assassino torpe da atriz Sharon Tate, grávida, que hoje empresta o rosto a estampas de camisas e o nome a uma banda de gosto duvidosíssimo, ambas consumidas pela juventude debilóide americana. Foi assim também com o chamado "canibal de Milwaukee", que segundo consta teria ficado milionário ao ceder sua história a Hollywood.

Não se pode ficar surpreso com esses dados. Há muito a sociedade americana dá mostras de sua natureza demencial, que sua mídia corrobora e estimula. E vice-versa. Também não é de surpreender que a Globo tenha resolvido, de olho nos índices do Ibope, seguir por essa senda. O que surpreende é que se assista tão passivamente àquele show de mau gosto, que além de tudo tem o dom de transformar um psicopata em ídolo pop. Num país miserável e tão injusto, é no mínimo temeroso demonstrar que o único meio para um jovem chegar à fama (tão cobrada pelo nosso sistema) é praticando aquele tipo de horrores.

Se a sociedade brasileira vai deixar que adotemos aqui mais esse aspecto do way of life americano, bem que podia fechar o pacote e adotar logo, para aqueles como Francisco, a pena de morte, aquela suma esperteza americana que elimina os objetos de estudo do mal, empurrando o problema com a barriga. E se a Globo vai assumir de vez esse seu lado Ratinho, é bom que pelo menos o faça de forma competente, contratando pessoal à altura. Alguém sabe se o Gil Gomes está disponível?

Gilberto Marotta

xxx

O jornalista Marcelo Rezende dessa vez exagerou. Em sua entrevista com o maníaco do parque, ultrapassou os limites de sua profissão e transgrediu alguns preceitos éticos. Baseado em depoimentos de uma vidente e um astrólogo, tentou arrancar uma confissão do motoboy (de que ele teria matado mais de 100 pessoas) e insinuou que o motivo dos crimes é sua homossexualidade reprimida.

Tal qual um inquisidor, o repórter do Fantástico se baseou em fatos sem nenhum fundamento para exercer tortura psicológica sobre uma pessoa doente. Acuado, o maníaco nem chegou a admitir estas versões. Mas um "talvez, pode ser, não me lembro" foi o suficiente para o Fantástico confirmar na chamada o número dito pela vidente.

Marcelo, em momentos, pareceu ser o próprio tarado, tal a avidez por detalhes de como o maníaco matava suas vítimas. A direção do programa convocou um figurão do núcleo artístico da emissora para dirigir a matéria. Ficou parecida com Os mais procurados da América, ou Serial Killers, ou coisa que o valha. Mas rendeu bons números de audiência...

Gostaria de saber cadê o Clilton, ou Cliuton, aquele promotor que está processando o Ratinho. E os defensores dos direitos humanos. A Globo pode, né?

Nicola Pamplona

Show de erros

Decididamente, o jornalismo televisivo pirou de vez. Dia desses, o Jornal da Globo sapecou uma ótima reportagem a respeito de propostas que um grande sindicato paulista bolou para diminuir o desemprego. Propostas de uma criatividade admirável, vez que estimulam os milhões de proprietários dessas carcaças automotivas jurássicas e assassinas a aposentá-las sem mais delongas (coisa que deveria ser objeto de lei rigorosíssima, mas tudo bem, é Brasil).

Para tanto, bastaria que dessem de entrada, além das suas respectivas máquinas mortíferas, a módica quantia de R$ 1.000 na compra de um carro popular estalando de novo, com o saldo restante financiado a juros camaradas.

Semelhante milagre financista seria factível graças a benefícios fiscais concedidos às montadoras, o que reduziria o preço final dos carangos em 30%. Maravilha. Louve-se, além da engenharia financeira, também a engenharia sanitária. Mais explicitamente, uma pá de cal na epidemia dos acidentes de trânsito, catalogada há muito pelos médicos especialistas como um gravíssimo problema de Saúde Pública. Mas eis que surge na telinha a figura do presidente de um tal sindicato nacional de oficinas mecânicas que, com a gravidade própria de um acadêmico da USP, ameaçou que tal proposta aumentaria o flagelo do desemprego em proporções ciclópicas.

É mole? Quer dizer então que as velharias ambulantes, depois de matarem, esfolarem e aleijarem, mantêm-se à tona imbuídas do nobre propósito de aumentar o emprego? Tudo bem: remendam-se freios e amortecedores com esparadrapo, reciclam-se motores fundidos com restos de latinhas de cerveja, tapeiam-se guardas e vistorias e danem-se pernas, pulmões, fígados, pernas, braços e cabeças, crianças, velhos e adultos? O ministro José Serra que se cuide. Se manter carros caindo aos pedaços nas ruas é sinônimo de política de emprego, já já o pessoal que falsifica remédios vai pedir a sua degola, na conta de um desalmado destruidor de postos de trabalho.

E olhe que quem editou semelhante desatino foi ninguém menos que Lílian Vite Fibe, aquela que atingiu o estrelato a partir de um notívago programinha de economês.

José Antonio Palhano

xxx

Caro Dines, gostaria, antes de qualquer coisa, de congratulá-lo e ao seu programa. É um dos únicos a que ainda assisto na TV, seja tradicional ou cabo. Tem uma excelente equipe, incluindo sua "condutora" e os demais entrevistados. Tenho observado com interesse vocês "pegarem no pé" do Ratinho e Cia. e , com interesse ainda maior, a reação de espectadores a isso. Alguns ficam bravos pelo fato de vocês "se esquecerem" de pegar no pé também da Globo (Faustão etc.). De fato, acho que todos têm razão. É preciso marcar cerrado aberrações do tipo da do Ratinho, porém, quando o assunto se esgotar ou começar a tornar-se repetitivo, que tal mudar um pouco o foco?

Explico: para variar um pouco, poder-se-ia analisar não as aberrações da TV, mas as sutilezas. Para dar partida, tenho uma sugestão. Parei de assistir ao Jornal Nacional, não só porque tomou vários minutos de meu horário nobre para contar de um porquinho que fugiu da morte na Inglaterra, mas por causa de um episódio que aconteceu aqui em GYN no semestre passado: Resumidamente, o jornal local noticiou que um indiozinho teria tido sua matrícula negada em uma escola daqui por ser índio. Apesar de ter dado este enfoque, mostrou uma entrevista com a diretora, que argumentava que não tinha nada a ver com o fato de a criança ser índia, mas, sim, porque o semestre já havia começado há tempos, e, ainda por cima, várias outras crianças também não haviam sido matriculadas, mesmo requerendo no tempo certo, por absoluta falta de vagas para todas. Também mostraram entrevistas com pais de outras crianças, dizendo que, se iam abrir exceção para o pequeno índio, teriam que fazê-lo também para outros e assim por diante.

Ou seja, apesar de o enfoque (chamada de matéria) do telejornal local ter sido totalmente tendencioso (para o indiozinho), mostrou os dois lados. Pois bem, qual não foi minha surpresa, quando no Jornal Nacional foi repetida a matéria, só que com muitos pontos de exclamação a mais (a favor do indiozinho e sua esperta mãe, que soube explorar bem a condição).

A diferença é que eliminaram por completo o outro lado, as versões da diretora etc. Ora, um telespectador do Rio, de SP, de Recife, Porto Alegre etc. ficou com a impressão que o Jornal Nacional quis: o pobre índio e sua esperta mãe foram vítimas de discriminação. A conseqüência disso é que o pobre menino foi enfiado goela abaixo da escola e a diretora teve enorme dor de cabeça para explicar aos outros pais.

Conclusão: toda vez que os telejornais falam sobre coisas que domino (medicina) ou das quais tenho informação detalhada, falam besteiras e/ou editam o pensamento das pessoas. Por essas e outras não os assisto mais.

Flavio R. L. Paranhos, médico, Goiânia

Show dos lordes

Hoje, 25 de novembro, Augusto Pinochet Ugarte completa 83 anos. Mas não tem motivos para festejar. Em 16 de outubro, a polícia inglesa prende Pinochet, atendendo um pedido de extradição onde ele era acusado de matar cidadãos espanhóis. Logo depois, o juiz Baltasar Garzón amplia o mandado de prisão, abrangendo acusações de genocídio, tortura e terrorismo de estado, com 94 vítimas de diversas nacionalidades.

Em 28 de outubro, a Alta Corte de Londres decide que Pinochet goza de imunidade, pois era chefe de Estado no momento dos alegados crimes. A situação se complica, pois o procurador da Coroa apela para a Câmara dos Lordes.

Daí em diante, todo mundo vai tirar a sua casquinha. Vicente Bergara Tarquias, cidadão chileno, denuncia Pinochet na Itália por crime de homicídio, tortura e seqüestro. O primeiro-ministro da Suécia, Goran Persson, declara que Pinochet deve ser julgado pelos seus alegados crimes. Em Paris, o Procurador de Justiça abre inquérito contra Pinochet, e expede outro mandado de prisão, seguido de pedido de extradição pelo desaparecimento de três franceses no Chile.

Um juiz belga aceita várias ações propostas por seis belgas nascidos no Chile. Um grupo de chilenos faz passeata no Congresso, exigindo que o parlamento norueguês se manifeste contra Pinochet. A Comissão Internacional de Juristas declara que Pinochet não tem imunidade por crimes contra a humanidade. A Suíça também apresenta pedido de extradição, pelo desaparecimento de um estudante suíço-chileno em 1977. Juízes italianos abrem inquérito acusando Pinochet de cumplicidade no desaparecimento de três italianos. Um juiz em Dusseldorf inicia processo criminal contra Pinochet. A Anistia Internacional interveio no processo, contra Pinochet.

Um amicus curia, solicitado pelos juízes, emitiu parecer contrário, no sentido de que os crimes contra a humanidade não prescrevem e não comportam imunidade. Citou como precedente o julgamento de Nuremberg. Além disso, os crimes de que Pinochet é acusado se referem também a atentados praticados fora do Chile (contra um senador espanhol em Madri em 1976).

Um silêncio eloqüente e ruidoso foi mantido pelos Estados Unidos. O porta-voz do Departamento de Estado disse que se trata de uma questão judicial entre o Chile, a Espanha e a Inglaterra, e que os Estados Unidos não tinham posição a respeito. Grupos de defensores de direitos humanos acusam os Estados Unidos de terem financiado os opositores e conspiradores contra Allende através da CIA. Não é segredo que os Estados Unidos apoiaram Pinochet durante sua ditadura. Alguns funcionários do governo Clinton afirmam que os Estados Unidos forneceram documentação aos juízes espanhóis. Mas grande parte dos documentos estavam borrados com uma tarja negra, escondendo detalhes "sensíveis".

Os lordes juristas deram provimento ao apelo contra Pinochet. A lei inglesa da imunidade soberana não se aplica no caso de crimes contra a humanidade, objeto de tratados internacionais, que subsumem a legislação interna. E agora? O ministro da Justiça da Inglaterra pode libertar Pinochet, o que é improvável, ou remeter à justiça comum a questão do mérito da extradição (a imunidade é uma preliminar relativa a pressuposto jurídico) o que leva tempo.

Pinochet vai esperar e dificilmente sobreviverá aos processos. Chiovenda dizia que ser processado já é uma condenação. E se Pinochet perder na Inglaterra e for extraditado para a Espanha, vamos ter panos para mangas, pois os demais países estão na fila e o processo espanhol é longo. Quem lucra são os advogados.

Carlos Araújo

Show de Truman

Quando saí de O show da vida, tive a sensação de ter escapado daquele mundo global. A consciência de que vivemos em um ciclo de energias querendo nos controlar, que nos manda estudar o mais cedo possível, onde ensinam baboseiras para passar o tempo, mas ficamos sem tempo para o progresso interior, sem tempo para o auto-conhecimento, sem tempo para ler o que quisermos, somente o que dá tempo, na escola, no curso técnico, na universidade, para produzir, ter dinheiro. Para quê? Para comprar. Para sustentar o sistema, comer o que nos dizem que é bom, os enlatados, os empacotados, os semi-prontos, as roupas bonitas de novela, as cocas da vida, os carros

Ah, os carros... serei feliz no dia em que abandonarmos estes veículos imbecis, assassinos e atrasados. Há cem anos, já andavam sobre quatro rodas, pneu de borracha que levava quatro pessoas e era movido a combustível líquido.

Em outras áreas, tudo progrediu, mas essa praga poluidora ainda persiste. Emprega muita gente e consome petróleo, aço, ferro, gera imposto, rodovias, postos, e assim essa cadeia que sustenta este falido sistema de vida, não só político, mas social, alterando a vida de milhões de seres vivos que não têm nada a ver com a nossa.

Este filme é uma porta de entrada especial ao discernimento. Está em nossas mãos essa mudança de mentalidade. Precisamos alterar os arquétipos de vida. Abraços,

Guilherme Korte

xxx

Estava lendo os artigos do penúltimo Observatório sobre "Show da vida" e fiquei matutando algumas coisas... eu sei que já foi mudado o tema do O. I., mas tá aí. Caso interesse... O que é mídia? Boa pergunta. Quem faz parte disso já deve ter notado como a simples afirmação de trabalhar na imprensa muda as instâncias de relacionamento entre as pessoas. É só falar "trabalho na Folha, no Jornal do Brasil, na Globo" que instantaneamente convertemo-nos em signos, deixando de ser aquele que compra pão na padaria ou que amarra o cadarço do sapato ou que corta as unhas. Uma aura de mistificação nos envolve, aos olhos do "homem comum" (the true man - se é que isso existe), mesmo que nós saibamos que isso não passa mesmo de névoa.

Truman a mim fala desse fenômeno de "extraordinarização do comum", a que assistimos cada vez mais avassaladoramente - talvez até contribuindo para isso. Houve um tempo em que os astros do cinema eram similares aos deuses. Não digo que tenham descido do altar - mas que o altar tem aumentado. No Ratinho, maridos e mulheres estapeiam-se por frivolidades e milhões de pessoas metem a colher. Na net, cada vez mais gente coloca sua privacidade no ar (conforme matéria na Revista da Folha desses dias}. A CityTV, rede canadense, é produzida na rua, usando em grande parte de seu tempo "pessoas comuns" (em São Paulo, a experiência tem sido retomada pelo Canal 21). O presidente dos EUA é ameaçado de impeachment quando sua intimidade vem a público (o foco da discussão não é se ele sentou no cargo para sentar Monica no colo; é se ele mentiu ou não sobre já ter feito isso: discutem-se aqui noções de verdadeiro e de falso).

A confusão entre público e privado mora na mesma região cinzenta em que confluem os limites de ficção e realidade. Ao tornar "fatos comuns" matéria de espetáculo, ao colocar-se entre o olho nu e o objeto real a lente da câmera, ao, por assim dizer, "democratizar" ou singularizar o espaço público, ocorre um fenômeno perverso. Da utopia de tolerância do outro, do conhecimento de suas diferenças como forma de iluminação de si mesmo, passa-se ao pesadelo em que o outro é igual ao um.

Anuladas as diferenças, nós todos, que somos iguais por dessemelhantes, nos tornamos iguais por nulos. A câmera, que a princípio afastaria as duas imagens, funde-as. Torna o espaço do privado e do público uma massa só.

Donde surgem as ditaduras da imagem: a cultura massificada escolhe o que deve ser visto e elimina as diferenças. "Intimidade", dizia Aldous Huxley a propósito do casamento, "gera indiferença". Esse observador do nosso tempo (de seu posto lá do começo do século), assim como George Orwell e Philip K. Dick (que escreveu, pelos 40, a história original de Truman) já intuía que a melhor maneira de explorar o semelhante é fazer com que ele acredite ser ele o explorador. Qual seria o propósito do hipotético Truman show? Mostrar, a milhões de pessoas comuns, a vida comum de um homem comum, cercado de fatos e situações corriqueiras, dramas medianos. Provar como, apesar de toda a ficcionalização em volta dele, ele continua a ser um homem de verdade, assim como todos os seus telespectadores. A crise aqui é política: Truman é o espelho em que se refletem bilhões de rostos iguais. "Se ele é feliz", acreditará o telespectador, "então eu também posso ser".

Bem, se falamos de política e representação, estamos falando de religião. O nome da personagem Christof pode ser meio óbvio, mas tem lá seu porquê (e Truman é um filme absolutamente óbvio, assim como Forrest Gump, pois os americanos só sabem falar de si desse jeito). A crença no poder da mídia é algo que me entristece. É como se só houvesse realidade mesmo se esta for representada.

Voltando ao início do texto, quando eu falei "trabalho em X órgão jornalístico" para minha vizinha, eu deixei de ser o maluco que escuta som alto para alguma coisa que nem sei (e olha que ela nem sabe que eu sou um obscuro redator publicitário). Este poder é usado e abusado pela gente da mídia, que também, infelizmente, acredita que a mídia é a única instância de realidade possível (os jornalistas desta lista nunca observaram isso nos coleguinhas?).

Tem um outro complicador. No filme, Truman só descobre a "verdade" porque Christof deixa. É uma crítica terrível: pressupõe onipotência ao diretor do show (que, aliás, tem seus chefes - quem serão?). Quantas vezes não fomos ludibriados pela imprensa? Quantas vezes não fomos levados a acreditar em fatos que, depois a própria imprensa veio nos ajudar, descobrimos ser falsos? Na Época desta semana e na FSP de segunda há um trecho muito interessante no diálogo entre FHC e Barros (que nome apropriado...): "Os jornais estão falando bem do leilão, né, presidente?" "É, até demais...". Será que os jornais desconheciam a real natureza por trás desse leilão? Por que será que só agora, passada a reeleição, têm coragem de investigar o que realmente se passou? Seremos sempre salvos pela imprensa? Transferiremos nossa crença messiânica do espaço político para o espaço mediático? E pra que ficar sempre procurando um altar?

Em Truman, os espectadores refletem-se nos coadjuvantes do boboca do Jim Carrey. A vida de Truman é maior que suas vidas. Não acredito nisso. Nego-me a ser coadjuvante, como nego a qualquer um que se coloque assim. De alguma maneira que não sei ainda - não será via mídia -, cada um deve buscar ser estrela principal de sua vida sem necessitar de público. A mídia pode ser poderosa. Mas não é tudo. Não chega a ser nem um pentelhésimo de tudo.

Voltando ao filme, que, enquanto filme, não é lá essas coisas, embora desperte tantas, hum, "questões" interessantes (que via de regra já se encontravam no texto de Dick), queria lembrar duas imagens, que, para mim, são as mais marcantes.

O momento revelador em que Truman toca a superfície pintada do cenário (Ikeda lembrou-se do toque no monolito em 2001 - não por acaso, de Huxley, e esse sim um grande filme). E a outra imagem é a da porta que levará Truman de volta à realidade. É uma porta escura. Todo grande filme contém uma imagem que, tão forte, nem imprimiu-se no celulóide. Assim como todo grande livro e toda grande música expressam-se profundamente por seus silêncios. A porta de Truman não mostra nada. Porque a profunda realidade, sim, é indecifrável, misteriosa, oculta. E com ela nos encontramos todos os dias. Longe da mídia. Longe dos nomes. Do outro lado das coisas do homem.

Ronaldo Bressane

Nota do O.I.: Caro seu Ronaldo, 2001 é baseado no conto The Sentinel, de Arthur C. Clarke. Os dois até escreveram o roteiro a quatro mãos...

 

LEIA TAMBEM

Doação de Órgãos




Continuação;o do Caderno do Leitor

Use o e-mail para nos mandar sua contribuição


Para garantir a publicação de sua correspondência, use correio eletrônico. Críticas e denúncias contra veículos de comunicação citados nominalmente serão submetidas aos mesmos, para que tenham oportunidade de resposta simultânea à publicação da crítica ou denúncia.

Clique aqui para enviar sua mensagem




Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você