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Edição de Marinilda Carvalho
Amigos, causou choque e espanto a liminar concedida por uma juíza substituta de São Paulo suspendendo a obrigatoriedade do diploma no exercício da profissão de jornalista. Das 24 cartas desta edição, 9 tratam do assunto – sem contar os artigos enviados por leitores, que constam do Dossiê Diploma, no Diretório Acadêmico.
Mesmo antigos defensores da não-exigência do diploma ficaram abismados com a decisão, por ter sido tomada, sem dúvida, no fórum errado, pela pessoa errada.
A diversidade de reações contida nas cartas e nos artigos – indignação, perplexidade, apoio irrestrito, apoio limitado, análise fria ou apaixonada – certamente ajudará o leitor a formar sua própria opinião.
Um dado novo em relação à greve nas universidades federais: as três cartas desta edição condenam a greve e as universidades.
Um abraço, boa leitura.
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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
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DOSSIÊ DIPLOMA
Todo mundo se acha jornalista
Não surpreende que um dia isso acontecesse. Toda e qualquer pessoa tem a mania de achar que sabe tudo de jornalismo. Assim, para que diploma, por que uma faculdade para preparar alguém para ser jornalista? Qualquer entrevistado que não tenha gostado do que você escreveu na matéria se acha no direito de querer ensinar como "a reportagem deveria ter saído". "Você tem que dizer isso assim, aquilo assado", tentam ensinar outros, na hora da entrevista. "Acho que você deveria abrir com isso", dizem alguns. "Isso não é o mais importante" (para os interesses dele, óbvio!). Sem contar as conversas de boteco: quando ficam sabendo que você é jornalista, vêm com mil e uma pautas. "Você tem que fazer uma matéria disso!", é a frase mais ouvida.
No entanto, não lembro de ter ouvido algum colega, mesmo os mais "sabidos", comentar que ensinou a um dentista como fazer uma obturação, ou a um engenheiro o quanto de ferro seria necessário naquela estrutura. Mas na nossa profissão qualquer um mete o bedelho. Se alguém pegar uma petição e tentar corrigir os erros de ortografia, concordância e outros, vai morrer. De rir ou de chorar, mas vai. No entanto, a mesma besta que escreveu todas aquelas besteiras se acha no direito de te ensinar a escrever.
Essa história da obrigatoriedade do diploma ferir a liberdade de expressão é uma balela. O que se exige é um diploma para as funções jornalísticas. Se você é um economista, um político, médico, advogado ou o que quer que seja, poderá ser um colaborador. Quase todos (senão todos) os jornais têm espaço para essas pessoas exporem "sua opinião". Basta ter o que dizer.
Marcelo
de Oliveira Santos, jornalista,
Florianópolis
Risco de retrocesso
A matéria da Folha de 31/10, sobre decisão de juíza paulista suspendendo a obrigatoriedade de diploma específico para jornalistas, assustou-me. Embora já tenha defendido tal obrigatoriedade, mudei minha posição. Sigo convicto na tese de que as faculdades de Comunicação Social são o melhor instrumento para a formação do jornalista, mas não o único caminho.
Entretanto, o clima de "liberou geral" que exala da decisão judicial parece-me mais atender aos interesses dos donos dos meios de comunicação do que às justificativas de garantia à liberdade de expressão.
Moro em Poços de Caldas, cidade do sul de Minas Gerais, com 140 mil habitantes. Aqui, a obrigatoriedade do diploma nunca valeu e, enquanto viviam aqueles "velhos" jornalistas pré-diploma legal, tivemos um jornalismo atuante e conseqüente. Aposentados ou mortos, estes "velhos" foram substituídos por uma mão-de-obra totalmente desqualificada, a maioria nem mesmo é diplomada no segundo grau. O empobrecimento da imprensa local foi terrível, atrelando-se umbilicalmente a fontes financiadoras, quer públicas ou privadas.
Da minha geração (tenho 38 anos), conheço três conterrâneos jornalistas diplomados. Todos optamos por carreiras profissionais longe de Poços. À distância, assistimos a um espetáculo demolidor: a morte de dois diários históricos; o nascimento de um sem número de "de-vez-em-quandários" e de uma TV - ofertada pela dupla Sarney/ACM - totalmente controlada pelo grupo político então dominante.
Mas, a obrigatoriedade do diploma e o anseio de alguns jovens começavam a mudar este quadro. Quatro jornais conseguiram se manter no mercado diário e passaram a contratar jornalistas profissionais, assim como a TV e as rádios. Ou seja, o caminho que não trilhei - de voltar à casa - começou a ser feito.
Isto incentivou aqueles sem diploma a buscar uma qualificação, um curso superior, mesmo não sendo de jornalismo.
Agora, a decisão da juíza paulista pode inverter este caminho de crescimento. Se a obrigatoriedade é filha do arbítrio, sua simples exclusão não significa avanço, mas risco. Nós, jornalistas, não construímos prédios, não curamos doenças, não absolvemos réus. Mas nossas matérias têm o poder de destruir reputações, de ceifar vidas e de condenar inocentes. Ou já nos esquecemos da Escola Base?
Com diploma ou sem, a profissão de jornalista não pode ser decidida por uma caneta, uma só caligrafia. Assim, sem temor, afirmo: esta decisão judicial não é avanço de liberdade pública, mas risco de retrocesso.
Alex
Prado, jornalista formado
pela Universidade Federal Fluminense em 1988
Que profissão escolher?
Sou curandeiro e, agora, graças à juíza da 16ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, poderei me tornar um doutor e até prescrever receitas. Doido de quem me levar a sério e aceitar consultar comigo. Como não tenho competências para prestar um vestibular e passar, e nem mesmo pagar uma faculdade particular, a decisão da meritíssima juíza veio a calhar. Decisões como a do tribunal de extinguir a exigência do diploma para a função de jornalista acontecem diariamente. Será que os profissionais da área têm culpa no cartório?
Na minha opinião, sim. A classe, além de ser muito desunida, tem vários charlatões que são chamados de jornalistas e se consideram como tal. O diploma já não é respeitado há muito tempo, até mesmo pelos profissionais que passaram pela universidade.
Na verdade, sou jornalista, e diante da situação da categoria, a juíza não foi tão má assim. Se existem vários profissionais que se dizem jornalistas sem diploma, para que dizer utopicamente que para exercer a profissão de jornalista é necessário diploma? Nos dias de hoje, vemos vários veículos contratando profissionais de áreas distintas para assumir função de jornalista. Um exemplo é a Folha de S. Paulo: contrata biólogos para escrever para a editoria de Ciência. O desrespeito é geral, dos veículos de comunicação aos jornalistas mal preparados. A briga pela organização já deveria ter acontecido há muito tempo. Tentar recuperar o leite derramado seria sinal de pura incompetência.
Sou jornalista e adoro o que faço, mas é triste saber que estou numa profissão tão corrompida. Terei que fazer outro curso se quiser dizer a alguém que sou formado? Acho que não. Com base na decisão da meritíssima, é só escolher uma área e começar a trabalhar. Talvez eu queira ser juiz, quem sabe? Se for para desempenhar a função como ela, acho que serei um bom juiz. Fico pasmo em saber que há pessoas ganhando altos salários, como é o caso da Carla Rister, que se atêm a polêmicas que não trazem benefícios. É uma luta em vão. Por que ela não extingue também a exigência do diploma de direito? Acho que devemos fazer essa pergunta a ela. Acho que sei qual é a frustração da doutorinha. Será que ela foi mal tratada por algum jornalista? Ou sonha em escrever para algum veículo de comunicação e nunca foi convidada?
Antes de a profissão virar bagunça é melhor escolher uma profissão mais organizada, fazer um curso de fim de semana e começar a trabalhar.
Fabrício
Francis
Estou preocupadíssimo
Meu nome é Daniel. Faço jornalismo aqui no Rio de Janeiro e estou preocupadíssimo com a revogação da lei que condiciona o exercício do jornalismo à posse do diploma. Se o diploma não é mais necessário, para que estou fazendo faculdade? O que será dos universitários de Comunicação Social? Quem vai nos defender?
Daniel
Penna Firme Guimarães
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