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ESPÍRITO CRUZADISTA
Sobram ratos e fuinhas

Agora que eu ando percebendo mais claramente: vem cá, qual a moral que a imprensa brasileira tem para criticar programas e apresentadores ditos "populares" e bispos das igrejas neopentecostais? Como se a mídia nacional (com raríssimas e bravas exceções) tivesse algum respeito pela apuração da verdade, pelo compromisso com o aumento da consciência crítica da nação. Pensei nisso quando li uma entrevista do apresentador Ratinho para a Playboy. Nela, a entrevistadora passou o tempo todo jogando "pegadinhas" para Carlos Massa, que, ao contrário de sua imagem popularizada, soube desvencilhar-se de todas elas. Espetava-o com questões sobre o mau gosto de suas atrações, o sensacionalismo de algumas matérias, o assistencialismo exagerado de seus quadros.

Mas, vem cá, a Playboy? Pois a revista, atualmente, está transformada numa publicação "ginecológica", na definição de seu ex-editor Juca Kfouri. Uma revista que vive a mostrar as exuberâncias e arrogâncias dos novos-ricos do país. Qual a moral desta publicação? O que garante que a leitura de seu conteúdo possa tornar alguém mais sábio ou mais crítico que o telespectador fiel a Carlos Massa?

Outra revista da Editora Abril que repetidas vezes agrediu os apresentadores "populares" foi a Veja. Pois basta que leiam algumas das opiniões contidas nos últimos Observatórios para que se perceba o grau de indigência daquele "jornalismo". Uma revista que trata todo assunto, ou entrevistado, colocando-se num pedestal (ou planalto...?) de superioridade intelectual e moral? Uma revista que perdeu absolutamente os limites da arrogância e do partidarismo?

Outro dos alvos da mídia tem sido o crescimento das igrejas neopentecostais, como se daí fosse vir a serpente capaz de oferecer o retoque final ao caos nacional. Ainda mais em tempos em que a palavra em voga é "fundamentalismo", não são poucos os jornalistas que aproximam contextos tão díspares quanto os evangélicos e os talibãs.

Um exemplo (dos menos agressivos, aliás) disso é a última coluna de Carlos Nader, na revista Trip do mês de outubro. Nela, o articulista derrama toda a sua preocupação sobre o futuro de um país tão entregue ao "elixir" atenuante do real oferecido pelas neopentecostais. Mas de novo me vem à mente a questão da falta de juízo crítico (do jornalista) e moral (da revista) para tanta veemência. Logo a Trip, que faz uma campanha cerrada contra o fumo, mas estampa em suas páginas o supra-sumo dos padrões de beleza, que vêm à tona em função de uma gama imensa de interesses comerciais? Uma revista precisa sobreviver, certo.

Mas por que o moralismo, o espírito cruzadista contra um pequeno canto do problema, se todo o resto a publicação deixa a descoberto, quando não incentiva? Como é fácil fazer esse tipo de crítica, ainda mais quando se abre um espaço tão grande para o tucano José Serra, ministro da Saúde e, tchã-tchã-tchã-tchã: pré-candidato à Presidência da República...

Indo além, e tomando outro ícone da mídia nacional: basta que se assista a um "capítulo" do Jornal Nacional para que se perceba a inconsistência de suas pautas e de seu formato: há alguns dias, por exemplo, o JN apresentou uma imagem de paquistaneses pró-talibã fumando ópio nas ruas. A imagem foi apresentada como bombástica, preocupante, capaz de deixar clara a crapulice deste povo "estranho". Isso tudo também dentro de um espírito cruzadista tipo "sou USA e não abro"! Mas quem é o povo que mais consome drogas no mundo, quem é o exército que foi para o Vietnã e trouxe de lá uma geração inteira viciada em drogas? Por que não se fala nisso, por que não são feitas conexões minimamente críticas, por que não se aprofunda um pouco, um pouquinho só, a notícia?

Além do JN, a Globo ainda nos presenteia toda santa sexta-feira com um documentário sobre bichinhos exóticos. Quem permaneceu em casa por mais de cinco fins de semana pode se considerar um expert em fauna e flora nacional. Pautas do principal programa "jornalístico" da emissora. Isso durante a crise no Senado, os atentados ao WTC e por aí vai... Ou seja, não é para falar, não é para fazer pensar, não é nem para tocar nos assuntos mais quentes.

Aqui no Sul, a mídia também tem dado demonstrações de antijornalismo que andam horrorizando até aqueles que sempre foram fiéis a seus veículos. Vive-se, dentro do Rio Grande do Sul, num clima de permanentes "furos" jornalísticos que "comprometem" o governo de Olívio Dutra, do Partido dos Trabalhadores. Há, inclusive, uma CPI da Segurança Pública que, entre outras coisas, está investigando a construção da sede do PT em Porto Alegre. Além disso, a partir de denúncias quanto à procedência das verbas para a campanha de Dutra em 1998, o PT propôs a criação de outra CPI, para apurar a origem das verbas de todas as campanhas. O pedido de CPI não foi assinado por nenhum parlamentar da oposição. A imprensa não toca no assunto, ignora este "detalhe", e, por incrível que pareça, minha televisão não fica vermelha quando os jornalistas da RBS (afiliada da Globo) destacam o caráter apolítico de tal investigação.

Os exemplos são tantos que até me foge o fio da meada. No entanto, quero retomar minha indagação: essa imprensa tem moral para criticar algo? Que respeito eu posso ter por profissionais que aviltam a dignidade de sua própria profissão? Entre uns e outros, acho que esse nosso povo vai melhor com os ratos assumidos que com essas fuinhas que grassam nas redações nacionais.

Rodrigo de Aguiar Gomes, Porto Alegre



PAIXÃO E PRECONCEITO
Rather, eterno repórter

Concordo inteiramente, caro Dines. Meu único reparo é contra chamar Rather de senil. Como brasileira-americana que acompanha as mídias americanas diariamente há 20 anos, vejo Rather como um eterno repórter que trabalha como âncora. Sua marca como repórter foi a sensibilidade à flor da pele. Vale lembras as ocasiões em que essa sensibilidade o ajudou a ser extremamente agressivo em suas entrevistas. Lembra-se do episódio com Bush pai, há vários anos?

Eliana de Athayde Bryant



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