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PENSAMENTO ÚNICO
O conflito da CNN
No The Guardian (Inglaterra), mais uma "medida de guerra" da CNN: todos os repórteres terão de deixar claro no fim das matérias que os EUA só estão matando civis no Afeganistão porque é inevitável a guerra. Por fim, relembrar que morreram civis em NY. Segundo o chairman da CNN, isso é uma questão de contextualizar o conflito... Ver em <www.guardian.co.uk/Archive/Article/0,4273,4289582,00.html>.
Patrícia
Kalil
You surely dislike the US
Prezada Marinilda Carvalho: sou um cubano-brasileiro-americano. Morei em Brasil cinco anos e amo seu pais tanto quanto o meu de nascimento. Também amo os USA, por muitas razões, incluindo que têm sido extremamente generosos comigo. E quanto a sua pergunta, claro que pode, Marinilda. Pode "dislikear" os US, tudo o que você quiser. Também se expressar livremente, vestir-se à vontade, ir à cama com quem entender, ouvir musica (qualquer uma), acessar internet, assistir à CNN e à al-Jazira (no caso que entenda árabe).
Você pode "dislikear", sim. Mas se hoje você pode fazer todas essas coisas se deve em boa medida a esse país que você "dislikea" tanto. É claro que este país não é perfeito, que terríveis injustiças têm-se cometido ao largo de sua historia, mas qual grande país tem sido mais justo, ou se prefere, menos injusto?
Eu não tenho medo do poderio dos USA, embora não me importasse que alguma outra democracia fosse mais forte. Você pode achar terrível este sistema, terríveis os jornalistas e o sistema judiciário, e claro que não é perfeito nem totalmente imparcial, mas seguramente você também não gosta de regimes opressivos como os que imperam no Oriente Médio, onde as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe (como na Arábia Saudita, onde não podem dirigir) ou mesmo como animais (como no Afeganistão). Se você não faz fila no consulado, bem, é sua vontade (se bem que é livre para fazê-lo, ok?), mas conhece alguém fazendo fila para algum pais do Oriente Médio?
Não sei quais são seus sentimentos e não quero ser desrespeitoso. Mas o caminho para debater com uma jornalista estrela é o mesmo que ela caminhou: muito, muito estudo. Muito, muito trabalho. E as universidades deste pais têm centenas de milhares de estudantes estrangeiros, porque, minha cara, este sim é um país livre e por isso, forte. E essa é a relação causa-efeito que tanta gente cega neste mundo não vê. Vindo de Cuba, um país que era o terceiro na America Latina em Produto Interno Bruto per capita, 40 anos depois é só "superado" em pobreza pelo Haiti. De todas as formas, eu gostaria de preveni-la por esse sentimento que nos leva a "dislikear" qualquer um que tenha algo que a gente não tem. Altera a percepção e faz dano tanto ao sujeito como ao objeto do sentimento. Respeitosamente,
Eduardo
Ramos, Miami, EUA
Marinilda Carvalho responde
Prezado Eduardo, de fato, posso fazer tudo isso, livremente. Não consigo esquecer, entretanto, que poderia tê-lo feito até antes, se os democráticos EUA não tivessem instaurado e mantido por mais de 30 anos o regime militar brasileiro. Não, não estou na fila de qualquer consulado, nem mesmo da Europa, cuja democracia admiro muito mais. Vou ficar por aqui mesmo, dando minha pequena parcela de contribuição para que meu próprio país encontre seu caminho democrático. Que não passa por Miami nem pelo Oriente Médio. Só para ilustração, reproduzo abaixo trecho da autobiografia do general fuzileiro americano Smedle Butlers, publicada em 1931.
"Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo. Servi em todas as hierarquias, de tenente a general de divisão. Neste período fui pistoleiro de primeira classe para os grandes negócios, para Wall Street e os banqueiros. Assegurei o México para os interesses do petróleo dos Estados Unidos em 1914. Ajudei a converter Haiti e Cuba em lugares decentes para os rapazes do National City Bank. Ajudei a limpar a Nicarágua para os irmãos banqueiros Brown, entre 1909 e 1912. Deixei a República Dominicana madura para receber os interesses açucareiros americanos em 1916. Ajudei a abrandar Honduras para as companhias de frutas dos Estados Unidos. Acho que podia dar a Al Capone alguns conselhos, porque seu poder não ultrapassou três bairros. E nós operávamos em três continentes."
Não custa lembrar que entre 1800 e 1934, quando os EUA apenas preparavam o terreno para virar superpotência, a história dos marines americanos registra 180 casos de intervenção em outros países. E, todos sabem, o pior estava por vir, como demonstram os 67 anos subseqüentes. Por essas e outras, caro Eduardo, não gosto mesmo de sua nova pátria. Detalhe: nem por isso aprovo qualquer forma de terrorismo. Um abraço, volte sempre. M. C.
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Excuse
me… may we dislike the US? –
M. C., Caderno do Leitor

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