Edição de Marinilda Carvalho
O destaque desta edição são as cartas sobre a crise da imprensa. Alguns trechos:
** "Numa entrevista coletiva, é comum uma agência mandar três repórteres e eles se revezam apanhando trechos das declarações."
** "A área econômica, com sua visão estritamente técnica e ilegível, gira no Brasil em torno do trinômio câmbio-juros-inflação, daí a presença maciça do Banco Central no noticiário."
** "Há páginas para o leitor se queixar de uma geladeira quebrada, mas não existe espaço para se falar da qualidade do atendimento na área de saúde."
** "Lembro-me de quando só conseguia começar o meu dia depois de ler o jornal, sem isso o dia pareceria incompleto. E o jornal de domingo, então! Quanto tempo, quanta coisa para ler."
** "Nada nos comove mais, nada consegue nos chamar a atenção."
É o leitor em crise.
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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
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CRISE NA MÍDIA
Hipertrofia e foco errado
A partir do downsizing, a anemia tem suas causas e reflexos. Contando com minha experiência na cobertura de assuntos políticos e econômicos em Brasília, arrisco algumas conjecturas:
1) A internet e seu correlato celular colocaram a mídia em real time. Seria uma oportunidade para se aprofundar nas matérias, mas o que ocorreu foi a transformação de tudo no tempo impossível do instantâneo. Vale a última migalha dita no último segundo. Um jornal que é fragmentado se estilhaçou em partículas mínimas. Numa entrevista coletiva, é comum uma agência mandar três repórteres e eles se revezam apanhando trechos das declarações. A velocidade se sobrepõe aos demais valores do jornalismo.
2) A hipertrofia de alguns temas. A área econômica, com sua visão estritamente técnica e ilegível, gira no Brasil em torno do trinômio câmbio-juros-inflação, daí a presença maciça do Banco Central no noticiário. Há certamente algo de neurótico na repetição dos temas. Tal qual um escorpião encalacrado. As editorias de "geral" foram esvaziadas e ganharam espaço os temas econômicos com as sucessivas turbulências financeiras do país. A mídia não está preparada para cobrir a área econômica sem as crises de Brasília.
3) Poucos repórteres em poucos lugares são capazes de encher páginas e páginas de jornal. A realidade se basta nas falas no Congresso, os discursos do presidente da República e os números do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Por isso, é fácil ler um jornal hoje em dia. São poucos assuntos.
4) Criou-se uma cultura de se ver o consumidor, e não o cidadão, como foco dos jornais. Isso tem implicações terríveis. Há páginas para o leitor se queixar de uma geladeira quebrada, mas não existe espaço para se falar da qualidade do atendimento na área de saúde.
Enio Vieira
O hébrio e a arpa
Há poucos dias eu comentava com um amigo que cada vez se leva menos tempo para ler um jornal. Lembro-me de quando só conseguia começar o meu dia depois de ler o jornal, sem isso o dia pareceria incompleto. E o jornal de domingo, então! Quanto tempo, quanta coisa para ler. É chato ler todo dia os "factóides" do presidente e sua equipe, que ainda por cima já vimos na véspera na TV. São matérias praticamente iguais todo dia, exatamente as mesmas frases, só mudando o cenário. Jornais deveriam preencher a função de desenvolver, analisar e discutir os fatos, já que a simples notícia a TV nos dá todas as noites.
Já suspendi a assinatura de qualquer revista semanal, pois, nesses tempos de contenção, não valem o que custam. Deixo para comprar na banca quando, eventualmente, sai alguma coisa do meu interesse. Jornais que antigamente eram respeitáveis preenchem as páginas com colunas e mais colunas de cartas dos leitores (que muitas vezes fazem comentários bem mais pertinentes), ou colunistas que se dedicam exclusivamente à vida íntima e aos contratos obtidos pelos modelos de moda (meia página para a coluna Gente no JB, que hoje, 3 de julho, ainda nos brinda com toda uma primeira página do mesmo caderno sobre o mesmo assunto, que continua na última página). Na página A4 temos mais uma matéria sobre moda ("Festa junina com estilo"), e parece que o mais importante na festa comemorativa do aniversário do Corpo de Bombeiros foi o vestido vermelho de Luma de Oliveira – que mereceu foto na primeira página, e mais comentários na página C3.
Mais valeria ter comprado uma revista de moda.
Quando eu era menina meu pai nos acostumou a ler jornal. É preciso ler, ele dizia, inclusive jornal, para se aprender a escrever. Infelizmente eu não poderia dizer o mesmo a minhas netas, que desaprendem português nos jornais, em que ébrio é escrito com H; uma reporterzinha novata, cobrindo uma missa comemorativa de qualquer coisa, descrevia entusiasmada a beleza da música executada por um conjunto, que incluía "um instrumento pouco conhecido, a arpa" (sic). Além do conhecimento elementar da ortografia, que deveria ser obrigatório para quem se propõe a escrever para o público, falta cultura geral aos recém-saídos das nossas desmoralizadas escolas e faculdades, e são justamente esses recém-formados os contratados, por serem mais baratos.
Paro por aqui. Se for falar de todas as mazelas dos jornais perco meu dia de trabalho e esgoto a paciência de vocês.
Sonia Sant’Anna
Nada mais comove
O artigo "O inferno astral dos jornais" está perfeito, reflete com precisão a preguiça dos leitores em pegarem um jornal, no dias de 2003, para ler. A questão do opinionismo e opinionistas está magistral. Os caras andam falando de suas vidas e aventuras, obrigados que são a escrever diariamente e ganhando muito bem. Dá pena, sinceramente, pois alguns pertencem ao primeiro time do nosso jornalismo. Eu só opinaria numa coisa: o governo Lula (em quem votei pela quarta vez) está tirando o tesão (perdão pelo chulo) de qualquer um, há como que uma epidemia de apatia pensante, uma corrente imaginária entre jornalistas e leitores. Nada nos comove mais, nada consegue nos chamar a atenção. Acho que o Lula ajudou nessa.
José Rosa Filho, Brasília
Inexplicável patente
O inexplicável se torna cada vez mais patente, quando se refere que um dos obstáculos à capitalização das empresas de mídia foi removido em 2002 – a interdição à participação do capital estrangeiro –, em razão do lobby das empresas jornalísticas, curiosamente denunciado em Carta Capital. E é de se recordar que a mídia impressa é a única destinatária da imunidade tributária prevista no artigo 150, VI, c, da Constituição Federal, sendo as outras tributadas mediante ICMS. Assim, pertine a pergunta sobre as causas do empobrecimento da mídia, isto é, da inviabilização econômica da livre veiculação do pensamento, tema que foi objeto de maior aprofundamento por parte da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso A última tentação de Cristo.
Ricardo Camargo
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