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MANHATTAN CONNECTION
Mau jornalismo via satélite
Sou judeu, sionista "de esquerda", egresso do movimento Hashomer Hatzair (o Caio Blinder explica) e do extinto partido Mapam, partidário da paz e da convivência pacífica entre o Estado judaico de Israel e um Estado palestino árabe, e sempre apoiei o movimento "Paz Agora". Sou contra as idéias, a estratégia e os métodos do Likud e, muito particularmente, de Ariel Sharon, a quem nem eu nem qualquer de meus muitos amigos israelenses elegeria jamais para representar a vontade nacional judaica e liderar o Estado de Israel. Acho que é preciso ter a "coragem dos bravos" demonstrada por Rabin, Peres e Barak para romper o círculo vicioso do conflito com posturas novas e criativas, a fim de criar as bases para a convivência que mencionei acima.
Feitas as apresentações, estou credenciado a declarar que seus comentários e "colocações" sobre Israel no programa transmitido em 30 de setembro foram aviltantes, unilaterais, profundamente injustos e, pior que tudo (em se tratando de jornalistas), descomprometidos com a história e os fatos, panfletários e até mesmo provocadores, no mau sentido. De onde vocês tiraram isso? De um folheto do Hamas? Só não digo que do Mein Kampf para não ser precipitadamente injusto como vocês foram.
Não sou desses que vêm anti-sionismo e anti-semitismo em toda crítica a Israel ou a seus líderes; eu mesmo, como judeu e sionista, tenho sido muito crítico. Mas vocês passaram dos limites do direito de opinião, ao, maniqueisticamente, usarem o poder do som e da imagem via satélite para desenhar um quadro que nem os perpetradores dos atentados de 11 de setembro apareceram para propor: a possibilidade de o verdadeiro culpado dessa barbaridade, mesmo indiretamente, ser Israel. Eles, os mandantes dos atentados, não se manifestaram nesse sentido, mas acharam logo quem o fizesse. Que se murmure isso nos desvãos anti-israelenses, anti-sionistas e anti-semitas que grassam em toda parte, é compreensível. Que vocês jornalistas e formadores de opinião sejam instrumentos voluntários de apregoar essa infâmia no ar, através dessa pesquisa do fórum, é revoltante. Revoltante não só pela própria iniciativa de buscar "explicações" para o ódio e o terror puro, mas pelo próprio conteúdo dessa dúvida: seria Israel, com suas atitudes, o culpado, ainda que remoto, pelos atos terroristas?
Já nos acostumamos a ser bodes expiatórios dos males da Humanidade, mas não vou ser, quanto a isso, o panfletário como vocês foram. Mais obrigação que eu para não sê-lo tinham vocês, jornalistas, que se omitiram de pesquisar, verificar os fatos e contextualizá-los, confrontá-los com outras visões, antes de fazer declarações de mérito adjetivo sem verificar o que teriam de substantivo. Por exemplo, dizer que os judeus foram bem recebidos pelos árabes na Palestina é piada. Talvez, sim, os primeiros judeus, ainda minoria vulnerável, como se acostumou ver os judeus em toda parte. Mas assim que se vislumbrou um projeto nacional, sonho de 2.000 anos de diáspora, logo veio o ódio e a rejeição. Em pelo menos duas ocasiões, em 1920 e 1936-7, essa rejeição foi expressa em ataques, assassinatos, um verdadeiro pogrom antijudaico por parte dos árabes. Eles fizeram tudo para NÃO conviver com os judeus a partir de então.
Mas isso é só um detalhe. Vocês se omitiram de conhecer a história do conflito, no qual a atual ocupação de territórios destinados ao Estado palestino é só um capítulo, e que já poderia ter sido superado há muito tempo. Vocês se omitiram de verificar que em toda a história do conflito, que já tem mais de 80 anos, os sionistas SEMPRE se basearam na idéia de que haveria lugar para duas aspirações nacionais autênticas na Palestina: a dos judeus e a dos árabes que lá viviam (palestinos). Os sionistas aceitaram essa idéia em 1922, quando a Inglaterra, que recebera o mandato da Palestina da Liga das Nações (para, precipuamente, favorecer a criação de um Lar Nacional para o povo judeu), dividiu-a em dois, entregando a margem oriental do Jordão aos haxemitas do rei Abdallah, avô de Hussein. E aceitaram em 1937 a partilha da margem ocidental em um estado árabe (palestino) e um judaico, proposta pela comissão Peel. E aceitaram a partilha em 1947, decidida pela ONU. Vocês ignoram ou resolveram ignorar que quem NÃO aceitou a convivência foram os árabes, que, apesar de terem soberania em mais de 15 estados nacionais, e reconhecido seu direito no da Palestina, não admitiam a existência de um único e pequeno estado judaico, no único lugar do mundo em que ele seria possível. Os sionistas não pediram aos árabes da Palestina que abandonassem seu projeto e seus direitos, apenas que os partilhassem com os judeus. Eles recusaram, sua visão de "direitos" excluía os judeus. E 1947 já era depois do Holocausto. E em 1947 as populações árabe e judaica na Palestina se equivaliam em número. Os árabes não aceitaram Israel e moveram-lhe guerra. A partir do armistício moveram-lhe terror permanente. Nenhum estado palestino foi criado nos territórios da Samaria e Gaza nos quase 19 anos em que Israel não os ocupou, pois isso seria em prejuízo da verdadeira causa árabe, que não contemplava só o estabelecimento de um estado palestino, mas também a aniquilação de Israel como Estado judaico, e a extinção ou expulsão de todos os seus habitantes que tivessem chegado depois de 1917. Isso não é ilação, é programa oficial, escrito e impresso, e assinado (inclusive por Arafat).
Vocês omitiram, e nem se interessaram em saber, que a "libertação da Palestina" é conceito muito anterior à ocupação, em 1967. Já aparecia na Carta Palestina de 1964, e se referia á eliminação do estado judaico. Sugiro que vocês a leiam na íntegra. Ela só foi engavetada (mas não rasgada) por insistente exigência israelense e como condição para os acordos de Oslo, em 1993. Vocês omitiram todas as vítimas israelenses, civis inocentes, do terror organizado e realizado pelo prêmio Nobel da Paz, Arafat, durante mais de 30 anos, antes e depois da ocupação. Vocês omitiram que Israel ocupou a Cisjordânia não num ataque sobre os palestinos, mas numa guerra contra a Jordânia, depois de inúmeros apelos para que Hussein não entrasse na guerra, então contra a aliança sírio-egípcia. Vocês, jornalistas que são, nunca souberam que o próprio Hussein declarou mais tarde que esse "fora o maior erro de sua vida". Vocês omitiram que Israel ofereceu ainda em 1967 a troca de todos os territórios que ocupara por um acordo de paz e convivência, e que a resposta árabe em Cartum foi três nãos: não à paz, não a conversações, não ao reconhecimento de Israel. Vocês omitiram que quando uma nação árabe, em 1979, aceitou a idéia de uma paz contratual, recebeu de volta todos os territórios, num acordo assinado com um líder da direita israelense, Menachem Begin. Vocês não mencionam que esse princípio foi ratificado por Rabin, Peres e Barak, e que o que estava na mesa em Camp David em outubro de 2000, aceito por Barak, era a desocupação de praticamente todos os territórios (95%) e o estabelecimento do estado palestino, a partilha da representação nacional em Jerusalém, que seria a capital dos dois estados, a cooperação econômica, a convivência pacífica. Vocês nem quiseram saber por que Arafat recuou dessa proposta e começou a Intifada, tentando redesenhar a situação como a de opressores empedernidos contra uma população mui justamente revoltada. Sabendo ele que, como Israel não teria como reagir a pedras, tiros e coquetéis molotov usando organizações terroristas ou de defesa clandestinas, de que não dispõe, teria de reagir com seus soldados, caracterizando ainda mais a "opressão". Não que eu defenda que exércitos possam oprimir civis em luta por seus direitos (ninguém pode defender isso), mas essa imagem não expressa com exatidão os fatos neste caso específico. E a terrível morte de civis e de crianças, o quadro da luta do gigante opressor contra o heróico resistente, essa imagem (que omite os atentados contra civis inocentes perpetrados por Hamas, Hizbollah e Jihad, que Arafat não pode ou não quer conter, e toda a pregação de ódio e intolerância contra Israel), explorada e divulgada, gerou os estereótipos que inspiram os menos avisados ou os a priori mal intencionados.
Vocês caíram na armadilha de ver a ocupação fora do contexto histórico e político, como ocupação pura e simples, agressiva e opressora, e a revolta palestina como luta pela liberdade, sem ver que ela vem da tentativa de obtê-la SEM o compromisso de uma paz contratual que já estava na mesa para ser assinada, sem mortes, sem provocações, sem mais sofrimentos. Vocês não procuraram ver as angústias e sofrimentos também do outro lado, as dezenas de anos de isolamento, de cerco e de ameaças a Israel e sua população, anos nos quais a única alternativa foi ser forte e se arriscar a ser chamado de opressor. Vocês não leram Rabin, Peres ou Barak, e preferiram se congelar em Sharon. Vocês ignoraram tudo isso para fazer uma pesquisa de opinião cujo objetivo é demonizar Israel e angelizar os palestinos, ajudando a montar um quadro em que se vê como tirania de Israel, e não autodefesa, a sua recusa de entregar, sem compromissos de paz, a quem sempre declarou sua intenção de exterminá-lo, territórios que colocam canhões e foguetes a 16 km das áreas mais populosas do país. Se isso é jornalismo, foi o pior desempenho jornalístico que já presenciei.
Para terminar: não são poucos os que, explicitamente ou nas entrelinhas, simpatizam e se iludem com a idéia de que a melhor solução para o mundo, para evitar atos terroristas, tensões, sustos, medo, é eliminar os fatores que os terroristas alegam ser a causa de sua causa, e isso inclui, entre outras coisas, acabar com Israel, e, até mesmo, quem sabe, os judeus. Nenhuma paranóia nisso, vocês sabem que é verdade. Excelente munição eles terão em textos e pesquisas como as que vocês apresentaram em seu programa. Não é fácil ser lúcido e analítico em situações tão estereotipadas como a que atualmente vivem israelenses e palestinos. Mas só essa lucidez gerará posições, opiniões, e pressões adequadas e justas, pois o drama tem dois lados, e os dois povos merecem consideração maior que a de serem vistos como anjos ou demônios. E isso é o mínimo que se espera de uma imprensa competente e responsável.
Paulo Geiger, editor
DIÁRIO POPULAR
Apátridas
A propósito do artigo "Morte sem necrológio, nascimento sem batismo" [ver remissão abaixo], é uma pena que organizações sem pátria tomem tais atitudes, sem respeitar sequer os valores ou as fontes de informação de uma nação (paulistana). Temos muito é que lamentar pelos pensamentos, puramente mercantis, desses que se intitulam a maior imprensa do Brasil. Balela...
Tadeu Brunelli, 23 anos, fotógrafo, estudante de Direito e sobretudo paulistano
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