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POLÍTICA DE COTAS
Pedreiros e astronautas
[A propósito da carta de Ana Lagôa] Um aluno negro para cada 100 alunos já é o que temos nas universidades públicas, pelo menos aqui em São Paulo. E mesmo nos cursos mais concorridos. Sonho com o dia em que os negros sejam mais de 50, mas que todos eles tenham competido de igual para igual com os demais. O problema é que a mídia, de maneira geral, parte do princípio de que a universidade nota A é capaz de transformar pedreiros em astronautas, e a verdade é que só se concentra excelência nestes locais por causa da seleção prévia. Mesmo com o desenvolvimento de pesquisa de ponta, o ensino seria deplorável se os alunos não fossem rigorosamente selecionados, pois é raro, numa universidade nota A, o professor que se esforça para melhorar sua didática e luta para motivar seus alunos.
Ao contrário, este professor nota A se encontra nas universidades nota C, ou D, onde a permanência do aluno pagante é essencial para o sustento da instituição. (O próprio manual da Fuvest afirma que, para ser aprovado no vestibular das universidades públicas, é essencial que o aluno seja autodidata). Mesmo os defensores da política de cotas assumem que a proposta é paliativa e imediatista, e de forma alguma resolve o problema. Por isso em minha carta anterior disse "chega de paliativos": Zona Azul, Rodízio de Veículos, Bolsa-Escola, Auxílio-Alimentação... nada disso resolve, são só tapa-buracos.
Carlos Massayuki Kikuti
Quem preparou, cara pálida?
Entendo o ponto de vista de Carlos Massayuki Kikuti. Mas permanecerei radical até o fim dos meus poucos dias neste planeta. Não acredito que a política de cotas seja remédio, nem paliativo. Ela é a inoculação do vírus discrepante na sociedade e na sua academia igualmente hipócrita. Todas as razões do mundo serão invocadas para que cada um fique no seu lugar. Não force a passagem. Educação neste país é moeda política. Assim como esgotos sanitários, postes de luz e asfalto. Todos sabemos qual é a solução. Mas, se ela for aplicada, a moeda-política desaparecerá.
A educação ideal funciona aqui como um pedacinho de queijo amarrado num barbante. Os ratinhos, digo, os pobres correm atrás do queijo, e quando estão chegando lá puxamos o barbantinho, e assim passaram-se, no Brasil, 500 anos. Há dinheiro de sobra para acabar com os problemas da educação. Muita gente tem até a tal da vontade política, mas sucumbe diante do poderio da máquina que gerencia a coisa pública neste país e em outros do mesmo modelo.
A questão é que esta democracia ocidental cristã, neste momento cruelmente colocada em questão, é branca e consumidora, e seu projeto de inclusão social não é para valer. É um discurso. É marketing. Reverberações tardias, ecos históricos do grito que levou o populacho de Paris à Bastilha. Adaptação pós-moderna da baioneta que fez o mesmo populacho se recolher "ao seu lugar de classe" na nova sociedade burguesa que nascia sobre os escombros do Antigo Regime. A escola prometida nunca chegou a existir. É uma esboço mal traçado, que fabrica a desigualdade na linha de produção em série.
As cotas servem para escancarar isso tudo e mais o racismo visceral dos nossos brancos e mestiços que aspiram ser brancos. Afinal todos agora precisam desesperadamente reconhecer que não podem aceitar esses alunos "mal preparados". Eu insisto: mal preparados por quem, cara pálida?
Ana Lagôa
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O buraco é mais embaixo – Antonio Fernando Beraldo
Chance, não esmola – Carlos Massayuki Kikuti, no Caderno do Leitor
O buraco é branco – Ana Lagoa, no Caderno do Leitor (rolar a página)
ENSINO & CONHECIMENTO
Educassão e os guru
Escelente, Antonio Beraldo, seu atigo! Cumbinou umor e critica ássida! Perfeito! Quando eu mi deparo cum um atigo sobre educassão do Gilberto Dimenstein me fasso varias pregunta:
** Gilberto Dimenstein já foi professô em iscola (omenagem a minha musa Carla Peres) pubrica?
** Gilberto Dimenstein já foi professô em iscola pubrica em que tem que si da aula manhan, tarde e noite, saindo às 6 da manhan e voltando só as 11 da noite, com trabaio e prova pra corrigi?
** Gilberto Dimenstein já foi professô em iscola pubrica em que ele teve que rodá com mimiografo as prova dele?
** Gilberto Dimenstein já foi professô em iscola pubrica em que o carro dele foi riscado e teve os quatro pineus furado?
** Gilberto Dimenstein já foi professô da rede pubrica e pegou seu contra-xeque e pensou: "Onde é qui mo cadastro no fome zero?"
** Gilberto Dimenstein já foi professô em iscola pubrica em que o aluno o xinga a vontade, bagunssa a vontade e ainda passa di ano sem sabê lê ou iscrevê?
** Gilberto Dimenstein é um ispecialista em educassão do tipo Stephen Kanitz, que volta e meia oferesse solussões revolussionarias para o ensino superior pubrico, tipo cobrar mensalidades dos aluno das federal ou estude de grassa agora e pague depois?
** Gilberto Dimenstein é um otimista nato daqueles do tipo "vamo qui dá" ou eu é qui sou peçimista, sego e preguiçozo?
Mais, meu caro Antonio Beraldo, fartou a língua istrangeira. Pra que, né? Afinal, a "lingua ingleza é mais utilizada nos paises como Estados Unidos, Los Angeles, Paris, França, Argentina etc.; para se comunicar com a lingua inglesa devemos ter um aspecto melho, devemos passa por meio de aviso de formação e ligação; fica, assim, claro que 100% dos brasileiros já sabe falar ingleis. Mais tem tambem muitos brasileiros que ainda não sabe falar ingleis". [relatos colhidos de redações de alunos de 8ª série de um Colégio Estadual de Salvador.]
Poisé, vamo esquesser a educassão crassica, a língua portuguesa, pois oje "beijo na boca é onda do passado, a onda agora é namorar pelado" é o que vale, sobre as benção da Egüinha Pocotó.
Fernando Campos, Salvador
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Maravilhas da educação no século 21 – Antonio Fernando Beraldo
Antonio Fernando Beraldo responde
Nestes tempos de FHC III temos que tomar mais cuidado ainda com os rumos da Educação. O novo ministro do MEC tem um passado respeitável, é um sujeito muito preparado e conhece bem o meio acadêmico, além de ter uma equipe bastante experiente – mas que, aparentemente, não consegue se entender. E estão falando demais e fazendo de menos. Cada idéia que aparece, convoca-se a mídia e aquilo que é rascunho do resumo do anteprojeto da proposta vira "novas medidas vêm aí". Tem hora que dá um frio na espinha (ou no espinho) quando alguém surge com delírios igual ao do Dimenstein (e outros), que quer pintar o telhado da casa enquanto a cozinha está pegando fogo. Estejemos de ôio neles. Abraços. (A.F.B.)
Deixados ao léu
Impossível não concordar com os argumentos de Mário Vitor Santos. A avaliação é a única forma de se estabelecer parâmetros. Esta discussão deveria ser estendida a todos os níveis da educação. Os cursos fundamental e médio, base de tudo o que se pretende em educação, foram deixados ao léu. Estão formando analfabetos. Quem vai pagar por este crime é o país, cada vez mais idiotizado.
Sidney Borges
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Triunfo para os tubarões – Mario Vitor Santos, no Caderno do Leitor
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