Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

Folha vs O.I.

Depois da leitura da carta de Otavio Frias Filho, na qual o diretor de Redação da Folha de S.Paulo tenta justificar a demissão de Alberto Dines, fica uma imensa tristeza no leitor e assinante do mais lido jornal brasileiro. É difícil, mesmo para quem não é um profissional do ramo, acreditar que um diretor de Redação, com a imensa responsabilidade do que publica e deixa de publicar em seu jornal, se dirija nesses termos a um companheiro de profissão. Ainda mais quando esse companheiro é antigo colaborador seu e se chama Alberto Dines. O conteúdo da carta foi exemplarmente dissecado por Dines e por todos os missivistas que manifestaram seu apoio ao jornalista.

E ficaria assim, se este missivista não fosse contemplado pelo destino ao tomar contato com o livro de Bernardo Kucinski A síndrome da antena parabólica – Ética no jornalismo brasileiro. Parece oportuno, para que se possa melhor entender o jornalismo da Folha dos nossos dias e de seu diretor de Redação, tomar conhecimento de algumas passagens do citado livro. Kucinski afirma que "a Folha de S.Paulo é hoje o mais lido e o menos amado dos jornais brasileiros".

Até aí, tudo bem. A seguir, diz ele que "a Folha não só reconhece que não é estimada como manipula conscientemente o que pode ser chamado de ódio". Kucinski transcreve Carlos Eduardo Lins da Silva, jornalista da Folha e, segundo ele, um dos ideólogos dessa maneira de fazer jornal, que teria dito: "Como dosar esse amor e ódio, como irritar o leitor e satisfazer o leitor é o segredo do sucesso". O pior é que o pobre e inocente leitor não sabe que, enquanto dorme sonhando com seu jornal de cada dia, existe um gênio do mal manipulando sua consciência.

Kucinski nos informa também que Otavio Frias Filho é "dramaturgo e amante do cinema – muito mais do que amante do jornalismo, que considera uma atividade menor". E aí chegamos ao que fez esse missivista ter náuseas e pensar em abandonar a profissão de leitor. Kucinski diz que "Otavio Frias Filho recorre ao mito do vampiro para definir que a natureza do vínculo de um jornal com seus leitores é como a do vampiro com a sua vítima". E aí passa a palavra ao Otavio: "O vampiro não pode entrar numa casa sem antes ter sido convidado. [...] O marketing jornalístico manipula a atribuição de uma curiosidade ao público e fica à espera de sua resposta, que será um convite ou uma proibição [...] só é possível manipular quem desejou ardentemente ser manipulado".

Como se vê, é esta também a tese dos estupradores quando justificam o que fizeram com suas vítimas. Sim, isto foi dito pelo Frias Filho em 1984. Segundo Kucinski, Mino Carta assim definiu a tática do vampiro utilizada por Frias: "Essa concepção transforma o jornalismo num jogo de dosar o bem e o mal, o que é uma coisa muito de tortura".

Por fim, Kucinski informa que na Folha, mais do que em outro jornal, existe um padrão de relações de trabalho "coerente com as novas ideologias yuppies, que justificam e enaltecem a luta do indivíduo contra seus companheiros de trabalho, erigindo a competição e o sucesso pessoal como valores superiores, no lugar da solidariedade e da identidade de classe".

A gente sabe que o Observatório da Imprensa é cada vez mais lido pelos internautas desse Brasil, principalmente pelos estudantes de Jornalismo, testemunho que o missivista pode, a qualquer momento, comprovar com muita satisfação. Daí nasceu a idéia, depois de ler a carta do Frias Filho e ler o livro do Kucinski, de fazer chegar à redação do nosso jornal essa carta. Antes porém, e pensando ainda nos estudantes de Jornalismo, transcrevo o que Rui Barbosa achava que deveria ser a missão do jornalista: "Cada jornalista é, para o comum do povo, ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado. Bebidas com o primeiro pão do dia, as suas lições penetram até o fundo das consciências inexpertas, onde vão elaborar a moral usual, os sentimentos e os impulsos, de que depende a sorte dos governos e das nações".

É muito triste, vale repetir, saber que um dono de jornal tem como sua meta prioritária a manipulação da consciência do seu leitor. A Folha de S.Paulo já teve um projeto diferente, mas a mania do comércio, como disse Rui Barbosa, vai degenerar no industrialismo, na idolatria da notícia, no culto do escândalo, na exploração dos baixos apetites da curiosidade etc., que estão matando a idéia de um jornal diferente inicialmente elaborada. Se Otavio Frias Filho continuar pensando em dosar, para seus inúmero leitores, amor e ódio, pode estar certo de que ficará sem os dois, ficará só, num imenso vazio, afogado em papéis que só servirão para embrulhar peixe.

José Rosa Filho

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Cada indivíduo tem ressentimentos em seu próprio campo, ou o mundo não seria mundo. Vi algumas vezes o programa de Alberto Dines na TV Cultura, interessei-me porque as pessoas contestadoras mudam a trilha do universo. Respondendo ao questionário Quem é você, declarei que não leio mais jornal em papel – pois é verdade, no dia seguinte só serve para limpar vidros, a tinta é ótima. Além disso, os cadernos que não são do interesse de cada um acabam sujando o sofá, principalmente os do Estadão, cuja carga de solvente parece ser dobrada.

Nos meus 60 anos, adquiri o direito de usufruir do que me faz feliz, e os jornais não estão cumprindo esse propósito. As manchetes vermelhas de sangue têm prioridade! Não é apenas o FMI, o vampiro que suga até a última gota de pescoços já exangues. Na área da literatura, cansei de ver espaço aberto a escritores estrangeiros louvados, em geral reeditados, ou com obras recompiladas, páginas inteiras servindo ao capital de fora, pois ninguém abre espaços gratuitamente.

Na mídia falada, o espaço está ocupado por nulidades ambulantes, que ao abrirem a boca despejam sapos e clichês, e as fadas madrinhas transformaram todos em escritores, a palavra deixou de ter o poder da sedução para ter o valor da compra.

Graças a Deus temos HBO 1 e HBO 2, que conseguem amenizar a realidade. Afinal, não é somente a bomba de plutônio o grande perigo, a palavra carrega mais carga explosiva. Desde que jornal tem que vender não acredito em nenhum. Há algum jornal grátis por aí sem ser os on line? Um grande abraço.

Nilza Amaral

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O texto de Otavio Frias Filho tem a sua cara: feio, malfeito, arrogante, pretensioso e cínico. Não é de se estranhar que esse "barãozeco" cometa tantos atos irresponsáveis – como censura à inteligência e, mais que tudo, à verdade –, pois, é sempre bom lembrar, foi ele o autor de uma estúpida "Carta aberta", publicada anos atrás, e com o imenso destaque de que sua vaidade tanto carece, pedindo a renúncia de Collor – isso, claro, todos queríamos, mas fica a pergunta: cabia a um jornal do porte de uma FSP, em vez de reportar fatos, noticiar com objetividade e clareza os acontecimentos, "levantar bandeiras", arvorando-se de paladino da moral e da justiça, para delírio esquizofrênico de "caras-pintadas"? Collor caiu de podre, não por influência das opiniões e peraltices de um mauricinho metido a intelectual, mas não podemos negar que ele atingiu seu objetivo primeiro: lucrar. Com esse texto – ruim, por sinal –, uma horda de adolescentes pseudo-conscientes se sentiu "tocada" e passou a "consumir" (a palavra é bem essa) a FSP.

Recentemente, como bem destacou este OBSERVATÓRIO, o jornal de "Tavinho", "Tavito", "Tatá" ou qualquer outro apelido que adolescentes costumam adotar ou aplicar uns nos outros, cometeu outro ato de absurda irresponsabilidade, apostando em um certo modelo cambial a ser adotado pelo governo...

Quando o falecido e saudoso Paulo Francis foi escorraçado da FSP, depois de uma campanha sórdida urdida por outro "mauricinho" arrogante, Caio Túlio Costa – que contou com o apoio de "Tavinho" – lamentei profundamente, pois, gostando-se ou não de Paulo Francis, concordando ou não com suas opiniões, ninguém pode negar a imensa coragem com que ele emitia suas opiniões. Agora, contrariando o dito de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, a FSP demite Alberto Dines (!!!), de quem sou leitor assíduo por respeitar-lhe a inteligência e a mesma imensa coragem de opinar e/ou denunciar a hipocrisia e a verdadeira imoralidade praticadas pelas mais diversas esferas sociais, políticas e, agora vemos mais claramente do que nunca, de alguns meios de comunicação. Ô gentinha pequena!!!

Estou torcendo para que o Cony, o Janio de Freitas, o Luís Nassif, o José Simão e o Angeli saiam da FSP o mais rapidamente possível, pois, assim que isso acontecer, jamais lerei uma manchete sequer desse pasquim com mania de grandeza.

Marcelo Carota, jornalista "(apesar de tudo...)"

Nota do O.I.: Procurado pelo O. I., Caio Túlio optou por nada comentar. O diretor da Folha, também procurado, não se manifestou.

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Como jornalista e ex-aluno de Alberto Dines, não me surpreendeu o episódio da Folha de S.Paulo. Nunca tive opinião otimista frente à nossa realidade. Não me seduz o brilho e a lantejoula de nossa mídia – embora o trabalho do jornalista seja fundamental para a democracia. Mas, como trabalhar de cabeça erguida com esses salários pífios, pelos quais nos matamos para manter?

O jornalista é um sonhador – quer mudar o mundo. No dia em que perdemos isto, é melhor desistir... Obrigado, Dines, por seu trabalho de talento, honestidade e respeito pelo leitor. Fiz o curso de Jornalismo Esportivo na Unicamp, onde tive a sorte de tê-lo como professor. Parabéns por sua postura no caso Folha.

Sou seu telespectador na TV. Não concordo totalmente com as críticas ao Ratinho e com a absolvição do jornalismo da Globo. O programa do Ratinho não é o programa dos meus sonhos, mas a enganação global – novela, jornal, que nem tem mais hora para começar, novela – é massacrante.

Tento seguir seu exemplo de respeitar e informar o leitor da melhor maneira possível (e mais honesta). De um formador de opinião que não desistiu de lutar,

Nelson Niero

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"A Folha é um jornal feito em São Paulo com irradiação nacional, que se propõe a realizar um jornalismo crítico, apartidário e pluralista." Quem leu o Novo Manual da Redação" (a minha é a edição de 1992) espantou-se com o ocorrido com mestre Alberto Dines. Episódio injusto, complementado de forma absurdamente desrespeitosa pela "missiva" de Frias Filho.

Mas quem se deu ao trabalho de uma leitura mais atenta, na página 13 encontra a essência do pensamento Folha, que de resto é a essência do pensamento de toda a Imprensa-Empresa. No quarto parágrafo, está escrito: "A Folha considera notícias e idéias como mercadorias a serem tratadas com rigor técnico".

"Mercadorias" seguem as regras do mercado, e nele a empresa se orienta pelo lucro, ao qual se submetem todos os nobres e caros preceitos anunciados no Projeto Folha. Inclusive o respeito a profissionais do quilate de Alberto Dines.

Aliás, como em qualquer empresa, em tempo de ajustes neoliberais, mão-de-obra (este é o conceito de qualquer profissional aos olhos da empresa) é o produto mais descartável, principalmente quando contesta a empresa.

Pode parecer que não vejo saída para esta relação. Mas não é assim. Creio que, nos marcos atuais, dois aspectos são fundamentais: 1. O aumento do "grau de cidadania", e da conseqüente fiscalização externa da mídia pelas organizações independentes da própria sociedade; 2. O fortalecimento de "observatórios" como este, tendo profissionais qualificados, como Alberto Dines e seus pares.

Aqui, destaco o Instituto Gutenberg [www.igutenberg.com.br] como outro bom exemplo, e lembro o quanto é fundamental que o Observatório da Imprensa coloque em andamento, o mais rapidamente possível, a Rede Nacional de Observatórios da Imprensa, com base nas escolas de Comunicação.

Esta proposta contribuirá para aumentar o grau de cidadania em nossa sociedade, ao mesmo tempo em que levará o desafio da qualidade a nossas escolas.

Solidariedade com a dignidade profissional e compromisso com a fiscalização da mídia.

Luiz Nova, professor do Curso de Comunicação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

CPI do Judiciário

Sou advogado há muitos anos e, sinceramente, a corrupção tão apregoada pelo Sr. ACM (cujo histórico a imprensa deveria levantar, para mostrar à nação por que ele não pode se auto-intitular paladino da moralidade) talvez até exista em Segunda Instância, mas em Primeira Instância a incidência é tão ínfima que chega a inexistir. Não tenho procuração para defender a classe dos juízes, e nem eles precisam disso, mas tivessem os senhores deputados e senadores apenas 10% da honestidade desses abnegados e hoje, tranqüilamente, estaríamos no Primeiro Mundo.

Estou me referindo à honestidade dos juízes. Não estou falando da família forense (escreventes, escrivães e oficiais de justiça).

Não sou contra a CPI do Judiciário, até porque acho que vai servir apenas para confirmar nada existir que o desabone.

Mas como ficou a denúncia sobre a existência de contas bancárias em paraíso fiscal envolvendo o presidente e outros integrantes do PSDB? Todos esqueceram? E os anões? E a compra de voto na emenda da reeleição? O que aconteceu com quem comprou e com quem vendeu? O que aconteceu com o ministro "grampeado" cometendo ilícitos na venda das teles? Onde está o processo? Onde está o personagem envolvido? Será que já está ocupando novo cargo público? Será que já virou consultor de multinacional?

Não sei. E não sei por que a imprensa, totalmente omissa, fica apenas procurando atender aos interesses de Fernando (não o outro, mas esse) e Associados, lançando "cortinas de fumaça" para os brasileiros tipo CPI do Judiciário.

Não tenho o menor escrúpulo em dizer: nossos juízes, principalmente os de Primeira Instância, ainda estão livres de qualquer suspeita, o que não se pode dizer dos demais poderes da República. É apenas uma opinião pessoal.

José Aguinaldo Ivo Salinas

Não vimos e não gostamos???

Como se pode comentar sobre a televisão sem assisti-la? Há algumas semanas, a colunista de TV do Caderno 2 (Leila Reis) criticou a falta de notícias, nos telejornais, de temas relacionados à cidadania. E apresentava o novo SPTV, do apresentador Chico Pinheiro, como inovador, por dar, justamente, espaço a estas questões. No texto, a colunista não fazia menção ao jornalismo da Cultura. Por e-mail "lembrei" a ela o trabalho que a Rede Cultura vem desenvolvendo há anos na cobertura, exatamente, de questões ligadas ao cidadão (segue cópia do correio eletrônico).

Não obtive resposta e, para minha surpresa, na coluna do fim de semana 10-11/4 a repetição do erro. Desta vez, Leila Reis abordava a péssima qualidade da cobertura, na televisão, sobre a guerra na Iugoslávia. A colunista dizia não ter visto na televisão reportagens aprofundando o assunto e explicando em detalhes ao telespectador as razões do conflito. Não viu? Só se não assistiu, mais uma vez, aos telejornais da Cultura. Um ao meio-dia, de uma hora de duração, chamado 60 minutos (e que está na ar há oito anos). O outro é o Jornal da Cultura, que vai ao ar sempre as 10h da noite. Os dois entram em rede em mais de 10 estados da União e, por parabólica e cabo, em todo o território nacional.

Como então generalizar o comentário sem assistir a nenhum dos noticiosos da Rede Cultura? O pior é que a observação se repetiu na coluna do jornalista Marcel Plasse, na edição deste domingo do caderno Telejornal, também do Estadão, dedicado, exclusivamente, aos assuntos ligados à televisão brasileira.

Espantoso. O fato é que na discussão atual sobre a ética e a qualidade da televisão brasileira, o jornal O Estado de S.Paulo não pode ignorar o que é feito na TV Cultura. A população, por exemplo, não ignora. Na recente crise pela qual passou a emissora, os paulistanos se mobilizaram, espontaneamente, em defesa do que eles (em pesquisas de opinião – apresentadas pelo próprio Estadão) consideram a melhor televisão do país.

Consideram porque assistem.

Everton Constant, editor-chefe do 60 Minutos

Texto do e-mail, sem resposta, enviado à colunista Leila Reis:

"Por que o 60 minutos foi excluído? Foi o pensamento inevitável, depois da leitura da sua coluna no Caderno 2, do Estadão de sábado. Já há muito fico incomodado em não ver nas colunas e nos cadernos especializados referências às matérias e aos telejornais da Cultura. Não que procure elogios, ou só elogios, mas também críticas. Os dois são sempre elementos para a avaliação do trabalho que desempenhamos. O pior é não ser mencionado. Como se não existisse. Além de ser o editor-chefe do 60 Minutos também sou professor de Telejornalismo da Cásper Libero. Dedico boa parte do meu tempo pesquisando a história do jornalismo na TV. E não é difícil encontrar modelos de bem-sucedidas experiências e do vanguardismo do jornalismo da Cultura neste 30 anos de existência. Gostaria de me deter nas mais recentes, e que não têm ocupado nenhum espaço no noticiário da mídia impressa.

O exemplo mais evidente é a questão da cobertura de temas ligados à cidadania. Atualmente, é fácil encontrar nos jornais referências e elogios a iniciativa, atribuída muitas vezes como inédita na TV, da cobertura de temas ligados à cidadania no novo SPTV. Você chega a dizer que seria muito bom até que outras emissoras copiem a iniciativa global.

Ora, já há muitos anos boa parte das matérias produzidas pelo jornalismo da Cultura é pautada e norteada por essa preocupação. Com abordagens até mais profundas e elaboradas do que as reportagens veiculadas no SPTV. No próprio 60 minutos existe, há mais de 3 anos, um quadro que vai ao ar todas as sextas-feiras, chamado Repórter Cidadania. Um espaço dedicado a retratar o exercício da cidadania e formas de como o cidadão pode e deve agir na luta pelos seus direitos. As reportagens, ainda no 60, há tempos já contam com o apoio de entrevistas, ao vivo, no estúdio. São representantes da sociedade civil organizada, professores universitários e especialistas. Convidados sempre para esclarecer e discutir temas factuais e muitas vezes para analisar as matérias exibidas no ar. Dependendo do assunto o entrevistado acompanha toda a edição, participando no ar do telejornal, e explicando e comentando as notícias. Não é cópia do que se faz na Globo.

Se alguém foi copiado fomos nós, e de forma torta. Porque na Globo a opção é, na maioria das vezes, a de levar personalidades do mundo do entretenimento, que dão audiência mas que pouco, ou nada, conseguem contribuir para uma discussão séria. E nunca houve uma referência a nada disto na mídia. Será que é porque a nossa audiência é considerada baixa? Bom, o Pasquale, aquele professor de português, ficou famoso com esquetes que entravam, diariamente, depois do 60 minutos. Só que o reconhecimento dele, ironicamente, veio primeiro do mundo publicitário, e não daqueles que cobrem televisão.

Desculpe se me estendi muito no texto. Não era essa a intenção. Muito menos de polemizar ou criticar seu trabalho ou de nossos colegas de profissão. Na realidade, este é apenas um grande desabafo de um profissional que já passou pela Globo, pela Manchete e pelo SBT e há quase 8 anos está à frente do noticioso da hora do almoço da TV Cultura. Abraços, Everton Constant"

Nota do O.I.: Procurada, Leila Reis não respondeu à nossa mensagem.

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Acompanho a programação da Cultura em Brasília graças à TV por assinatura. Sei que a Cultura está tentando criar uma fonte de renda abrindo espaços comerciais, para não ficar apenas na dependência do governo. Até aí, tudo bem. Li nos jornais há pouco tempo as regras para essa abertura ao mercado, que me pareciam muito bem intencionadas. A mudança de formato do programa Vitrine foi uma decepção para mim, parece que estão tentando imitar a MTV. Estão correndo atrás de um público imbecilizado? Tentando conquistar audiência? A Cultura construiu seu nome e conquistou prêmios respeitando a inteligência do telespectador, que não se rende à estupidez generalizada, por que isso agora?

Mas o pior de tudo foi uma extensa reportagem sobre a TV Record. É óbvio que não vi, desliguei a TV antes disso. Para mim, é evidente, óbvio e cristalino que o programa foi financiado com verbas do bispo Edir Macedo, dono da TV Record. É inédito na TV brasileira, uma emissora fazendo reportagem sobre a programação de outra. Isso não aconteceu à toa.

Gostaria que Alberto Dines abordasse essa questão... ou será que a TV Cultura se tornaria uma nova Folha de S.Paulo na vida dele?

Marcelo Tas, apresentador e diretor do Vitrine, responde: Prezados, estranhamos o conteúdo das críticas ao programa Vitrine feitas pelo telespectador Alexandre Marino, de Brasília. O Vitrine está no ar há mais de dez anos pela TV Cultura de São Paulo. É precursor dessa tendência que se espalha na TV brasileira hoje de análise e cobertura das várias mídias.

Nestes 10 anos de vida, o Vitrine cobriu e analisou literalmente todos os canais abertor das redes de TV brasileiras. E vários dos novos canais a cabo. Portanto, o argumento dele de que "é inédito na TV brasileira uma emissora fazendo reportagem sobre a programação de outra" cai por terra. Só para refrescar a memória do Alexandre, na reestréia de nosso programa, em 3 de março, o tema da matéria central era a TV Manchete. E nem por isso fomos acusados de receber qualquer soma por isso. Até mesmo porque aquela emissora até hoje não paga nem mesmos os seus próprios funcionários.

Além disso, também nos soou estranho o fato de o Alexandre duvidar da isenção de nossa apuração jornalística se, segundo ele próprio, "preferiu desligar a TV (...) é óbvio que não vi". Como se pode fazer uma crítica séria a algo que não se analisou em sua totalidade? Isso sim é parcialidade...

Só para finalizar os motivos do nosso estranhamento, é lamentável que nosso telespectador confunda a iniciativa da TV Cultura de buscar apoios e patrocínios com falta de ética jornalística. Se houvesse lógica neste raciocínio, o nosso Alexandre deve pensar que o Observatório da Imprensa é patrocinado pelo Sr. Roberto Marinho, já que com alguma freqüência traz reportagens e entrevistas com profissionais da Rede Globo. Certo? Como sabemos que isso não é verdade, mais uma vez temos de desconsiderar a lógica do nosso estimado telespectador.

Agradecemos o espaço do esclarecimento e a audiência crítica do Alexandre. M. T.

Máfia dos fiscais

Toda a imprensa sempre soube da existência destas máfias de fiscais, apenas não interessava noticiar, pois alguém de fora dos esquemas poderia ganhar as eleições. Maluf, com o que há de mais corrupto no país, faz parte e apóia o governo FHC (tão defendido por Alberto Dines). Quando Maluf tentou divulgar o dossiê Caymán, rompeu um acordo implícito da coligação FHC (você não fala de mim que eu não falo de você), e a retaliação veio como investigação da máfia dos fiscais. Este tipo de investigação só é possível quando os corruptos brigam entre si, e um acusa o outro. Gente honesta normalmente não possui meios e provas que os corruptos, por conluio, têm.

Assim, ficamos na dependência de eles se desentenderem para sabermos das verdades. Estas máfias não são mais graves (e são sem dúvida muito mais baratas para o erário) do que a compra de votos pelos tucanos para a reeleição, nem mais graves que Proer, Sivam, contas secretas, "limite da irresponsabilidade" nas privatizações dirigidas, lucros com informações privilegiadas na desvalorização do real e muitos outros escândalos federais, que os donos de jornais e jornalistas chapa branca não se interessam em denunciar.

Infelizmente, este é o país que a elite financeira e cultural criou.

Infelizmente, este é o país que herdamos de nossos pais, que pouco fizeram para melhorá-lo.

E, ainda infelizmente, é esta sujeira que só aumenta que deixaremos aos nossos filhos.

Estamos dominados pela imprensa mentirosa e corrupta que trabalha para pessoas da mesma laia que ocupam os cargos de poder no Brasil. E nós covardemente não conseguimos dar um basta a esta sacanagem!

Orlando Fogaça Filho

Beth Klock responde: Este não é o país que herdei de meus pais coisíssima nenhuma! Não é um país corrupto que eu vou deixar de herança aos meus filhos. O Sr. generaliza novamente quando diz que a imprensa é corrupta e mentirosa, colocando no mesmo balaio os que, de fato, têm o rabo preso com o poder e os que deram a vida lutando contra a ditadura. O Sr. diz também que "gente honesta, normalmente não possui os meios e as provas que os corruptos, por conluio, têm". Engano seu, Sr. Orlando. Gente honesta – e na maioria das vezes humilde – é que dispõe de provas que os corruptos, muito espertos, acreditam manipular. Se o Sr. se desse ao trabalho de acompanhar na Câmara a CPI da máfia dos fiscais...

Mas a bobagem maior (desculpe-me a franqueza, mas é que a sua afirmação é realmente inacreditável!) é o Sr. dizer que esta CPI é uma resposta do FHC ao Maluf, por tê-lo ameaçado com o dossiê Caymán! O Sr. acredita então que o presidente da República "plantou" uma mocinha na Rua Augusta, tentando regularizar um imóvel para nele fazer funcionar uma academia de ginástica, deu-lhe a orientação para que procurasse um fiscal e lhe oferecesse dinheiro, sem que ele pedisse, e forjasse um flagrante para que, pouco a pouco, todos os outros "plantados" (camelôs, comerciantes, industriais etc. ...) pelo governo federal fossem aparecendo, relatando suas histórias forjadas, com o único intuito de "neutralizar" a ameaça do tal dossiê Caymán? E que é só porque FHC e Maluf se desentenderam é que a lama (que para o Sr. deve ser mais uma mentira, uma falsidade) veio à tona?

O Sr. se diz dominado pela imprensa mentirosa. Que jornais o Sr. lê? Porque é realmente espantoso! E o Sr. ainda se confessa um covarde, que não consegue dar um basta a esta sacanagem! A que sacanagem o Sr. se refere? À da imprensa, que só publica mentiras? Pois então eu tenho uma sugestão a dar ao senhor. De hoje em diante, faça greve: não leia mais nenhum jornal ou revista, não ouça rádio, não assista à TV e desconecte o seu computador. Quem sabe assim o senhor, ao menos o senhor, não estará a salvo disso tudo? B. K.

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Gostaria de fazer alguns comentários sobre o artigo Máfia dos fiscais 2. Na época da divulgação do esquema de corrupção de camelôs feita pela Folha da Tarde, já havia indícios suficientes para iniciar uma investigação por parte da polícia, do Ministério Público ou da própria Câmara. O que hoje é apresentado de forma contundente pelo Jornal Nacional e pelo SPTV já era de domínio público há pelo menos 6 anos. Mas um detalhe na minha opinião foi crucial para dar início a estas investigações, além das que já foram citadas no artigo: a crise da Prefeitura.

Todos, repito, todos estes vereadores corruptos foram reeleitos justamente porque praticavam este tipo de política: o uso das regionais como forma de poder. Ninguém aqui em São Paulo foi enganado, ninguém que procure acompanhar o dia-a-dia do seu bairro pode desconhecer este tipo de atuação dos vereadores. No governo Maluf, o "mel" que escorria das regionais era farto, era a época dos precatórios, sobrava dinheiro na Prefeitura.

De repente, a fonte secou. Ruas sujas, bueiros entupidos, gramados sem corte e tudo o mais. Subitamente, uma "onda" moralizante tomou conta da cidade. Sem poder arrumar um emprego com o vereador, sem poder parar o carro no estacionamento da regional, sem poder armar sua barraca no meio da praça, sem poder ludibriar a fiscalização mediante pagamento de uma "bola", a população enfurecida se voltou contra aqueles mágicos das regionais. É como se o Mr. "M" (Maluf) não conseguisse mais iludir ninguém.

Sabe qual o desfecho disto tudo? Novas leis esdrúxulas serão propostas e novos fiscais de fiscais serão contratados, nada mudará. Enquanto a imprensa transmitir a idéia de que a população precisa ser fiscalizada, nada mudará. Como diz aquele ditado em latim, devidamente traduzido: "Quem vai fiscalizar aqueles que nos fiscalizam?". Um abraço,

José Roberto

Aos sem-nome, o piso

Sou jornalista formado há cinco anos, especializado em agronegócios, e já vivi muitas situações no jornalismo, apesar da pouca experiência. Fui dono de pequenos jornais no interior de São Paulo e passei por algumas assessorias de imprensa (políticas e empresariais). Tive breve experiência numa rádio de São Paulo (CBN) cobrindo férias. Em todos os postos me deparei com a seguinte contradição: por que a imprensa paga salários astronômicos à minoria conhecida do grande público e apenas o soldo básico aos "sem-nome"?

Sem os "sem-nome" o jornal não seria impresso, a programação da rádio não iria ao ar e o telejornalismo não brilharia tanto. Há, sem dúvida, ícones importantes que merecem realmente seus salários. Mas por que se esquecem do exército de operários do jornalismo? Bóris Casoy fez contrato com a TV Record de R$ 100 mil, segundo a imprensa, enquanto dúzias na casa ganham o piso mínimo. Certamente há outras dúzias lá fora brigando para ganhar este básico, talvez até pelo status.

A imprensa brasileira segue os passos da americana inflacionando alguns salários. Na CBN, há uns dois anos, pude ver bons profissionais, com anos de formação, contando o salário no fim do mês. Outros vendiam (na redação e com o consentimento da direção) bombons caseiros de chocolate para complementar a renda. A crítica não vai aos bombons, que eram bons, mas ao salário miserável pago pela CBN, uma das maiores redes de rádio deste país, das Organizações Globo. Sei que o nível dos equipamentos melhorou. A tecnologia não pára de crescer nas redações.

E os "sem-nome" continuam ganhando o que mal dá para o sustento. Outro exemplo é a Manchete, que pagava bons salários a apresentadores, enquanto milhares nem recebiam. A Folha de S. Paulo contrata jornalistas em caráter de experiência que ficam permanentemente em experiência, sem registro. Isso acontece na entrada do ano 2000. Nas assessorias de imprensa é o mesmo: o registro é feito ou pelo piso salarial ou não é feito. Quando começamos na profissão temos que nos sujeitar a migalhas, caso contrário não arrumamos emprego. Estágio sem pagamento ocorre mesmo em grandes jornais, rádios ou TVs. Quem precisa do dinheiro simplesmente acaba mudando de área ou passando fome.

Gostaria de sugerir este tema para debate no O.I. na TV. Onde estão nossos sindicatos? Cadê nossos representantes? Quem são eles, e o que estão fazendo para diminuir o abuso? Existe uma associação que defende as assessorias de imprensa. Eles fiscalizam? Ou basta que a empresa contribua para que fique "tudo bem"? Apesar do crescente número de publicações abrindo novas frentes de trabalho, é preciso investir mais na imprensa e no jornalista. Até agora apenas a TV Globo tem fama de boa pagadora aos recém-contratados. E os outros?

Apesar de ser um sem-nome, trabalho para várias publicações, e procurei me especializar para obter ganho melhor. Mesmo assim, não paro de estudar (faço extensão de Economia na USP). Só assim podemos valorizar nosso passe. Solidarizo com Dines no episódio Folha.

Arnaldo de Sousa, 31 anos, São Paulo

 

Caros amigos

Enviei esta carta à revista Caros Amigos. "Caros Amigos, primeiramente gostaria de parabenizá-los por dois anos de bom trabalho. É bom ver uma iniciativa saudável como essa, a Oficina de Informações e a nova revista Palavra aparecendo e, no caso das duas primeiras, permanecendo no cenário. No entanto, tenho algumas dúvidas que acredito possam ser esclarecidas por vocês mais próximos à revista. Como vocês devem saber, o jornalista Alberto Dines foi demitido da Folha no começo do mês de março. Justificada cobertura foi feita nas edições subseqüentes do Observatório da Imprensa, órgão que tem Dines como editor, mas é um esforço do Laboratório de Jornalismo da Unicamp. Obviamente, e como era de se esperar, nada saiu em nenhum jornal ou revista que, ao contrário do que pensou Otavio Frias Filho, em irada carta endereçada ao jornalista e publicada no OBSERVATÓRIO, não quiseram a presença de Dines como colunista, nem como pauta.

Pois bem. Após ter lido o artigo que, segundo a Folha, motivou a decisão final sobre o desligamento de Dines (a idéia já se arrastava), no qual o jornalista criticava o fato de revistas e jornais aumentarem seus preços pelo papel que só será usado dentro de três meses, entre outras coisas, observei com alguma estranheza o aumento do preço de capa de Caros Amigos. Mas paguei tranqüilo. Primeiro por ser um veículo em que acredito. Segundo porque acho um preço justificável, mais ainda num projeto que está em crescimento e tem poucos anunciantes. ‘Provavelmente eles imprimem em gráfica dos jornalões’, pensei. Mas é com uma surpresa atordoante que abro a edição seguinte, a de dois anos de Caros Amigos, procuro algo sobre o acontecido na capa, no Editorial (ótimo, aliás), no índice... para nada. Na coluna de Spensy Pimentel há crítica de jornalismo, Bautista Vidal critica a mesma Folha. Na brilhante matéria de José Arbex Jr. sobre as malícias do jornalismo, cobre-se muito terreno e se estabelece o mesmo clima presente no Le Monde Diplomatique... e no OBSERVATÓRIO. Mas não se fala em Dines.

Talvez, pelo que o jornalismo nos ensina de básico, devesse prevalecer o critério da proximidade. Dines é brasileiro, e foi demitido há 45 dias. O bastante para a lembrança, e folgado o bastante para o fechamento. Numa rápida pesquisa pelo OBSERVATÓRIO, achei algumas menções à nossa Caros Amigos. Felizmente, não todas elogiosas: havia uma pessoa extremamente enlouquecida com o fato de não ter sua carta publicada na revista. Era um apoplético com pontos de vista confusos. Mas, sem dúvida, merecia talvez até mais espaço que os elogios que costumeiramente lemos em cartas vindas de todo o Brasil, por ser a voz do dissenso, coisa que Caros Amigos quer, idealmente, ser. A carta não obteve resposta do OBSERVATÓRIO, mas obteve justo espaço. Havia, nesta minha pesquisa eletrônica no site – que pode obviamente ser falha – um texto de Dines, em que ele toca num assunto desagradável: a "colagem", feita por Caros Amigos, de um maravilhoso texto de García Márquez, sem menção de quem editou, traduziu e publicou (no caso, o OBSERVATÓRIO, que pleiteava seu crédito). Isso foi no primeiro número. Parece-me que se instalou um clima de antipatia recíproca desde então. OBSERVATÓRIO e Caros Amigos partilham ideais comuns, e a distância entre os dois não pode ser maior que a existente entre ambos e a grande imprensa." Abraços,

Douglas Duarte

 

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