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Edição de Marinilda Carvalho
MST vs. FOLHA
Por que o Incra?
Achei muito interessante o texto sobre o MST, a Folha e a ética. A própria ombudsman da Folha tratou desse assunto. Concordo em que faltou informar ao leitor que a viagem foi feita com apoio/patrocínio do Incra. E concordo com ela em que mesmo com a viagem patrocinada pelo Incra seria possível manter-se numa linha eticamente correta. Seria possível, mas é muito difícil.
Uma coisa é um repórter viajar a convite de organizadores de um torneio de tênis e fazer a cobertura com a devida isenção. Da mesma forma, pode-se viajar a convite de uma montadora de automóveis e fazer-se uma avaliação de um novo lançamento. O nível tecnológico dos concorrentes é tão próximo que uma crítica ou outra a algum dos aspectos não compromete a imagem inovadora dos lançamentos.
Mas viajar a convite de um lado no mais acirrado embate político-ideológico existente hoje no Brasil é no mínimo estranho. Especialmente porque, naquela época, o governo começava a anunciar drásticas medidas contra o MST, no que parecia uma represália ao fracasso das comemorações dos 500 anos. No final de abril e inicio de maio, o governo falava em usar a Lei de Segurança Nacional, acusava o MST de colocar em risco a democracia, queria levar a reforma agrária para o âmbito dos estados etc.
O problema da falta de isenção da matéria em questão está na sua origem. Que diabos foi fazer no escritório do Incra o referido repórter, interessado em conhecer assentamentos? Sou jornalista e sei que realmente haveria alguma utilidade em se visitar o órgão, e tem que se começar por algum lugar. E por que o contato não foi com a direção do MST? Não estou defendendo que as matérias sobre sem-terra tenham que ser elaboradas começando-se por contatos com o MST. Quero dizer que assim como começou a ser elaborada a partir do Incra, poderia ter sido elaborada a partir do MST. E, em qualquer das hipóteses, o ponto de partida pode comprometer a isenção da reportagem.
Mas volto à pergunta: por que o repórter começou pelo Incra? A resposta foi dada pela própria Folha, mais precisamente pelo colunista Jânio de Freitas. Vamos aos fatos:
No domingo, 14 de maio, o Estadão publicou reportagem de Edson Luiz e Hugo Marques, intitulada "Pesquisa traça perfil de integrantes do MST", com subtítulo "Levantamento do serviço de inteligência revela que maioria diz ser capitalista".
O texto tinha o seguinte lead:
"BRASÍLIA – Levantamento feito pelo serviço de inteligência do governo federal nos acampamentos do Movimento dos Sem-Terra (MST) revela um perfil inédito dos integrantes do grupo. A pesquisa, obtida com exclusividade pelo Estado, indica que 75% dos acampados defendem a propriedade privada. Metade deles tem entre 25 e 44 anos, 90% não concluíram o 1º grau, 76% são agricultores e 86%, filhos de agricultores, enquanto 60% nunca trabalharam nas cidades."
A grande descoberta de que os sem-terra são a favor da propriedade privada – a luta dos sem-terra é pela distribuição da propriedade privada para um número maior de proprietários – foi feita pelo serviço de inteligência do governo, órgão cuja isenção é admirável. Será que os aspectos positivos do MST teriam sido "obtidos com exclusividade pelo Estado" também?
Mas ocorre que, três dias antes (me parece que foi na quinta-feira, dia 11/5), Janio de Freitas anunciou uma campanha do governo contra o MST, tentando atingir a opinião pública. Claro que a Folha não poderia levar um furo do gênero. Precisava ser contemplada com alguma notícia quente também. Um bom assessor de imprensa sabe que pode ganhar generosos espaços divulgando matérias exclusivas para os diversos jornais. Janio de Freitas cantou a bola. Pena que a própria redação da Folha esqueça de ler seus colunistas. As vezes, eles informam muito mais que as notícias, e também o interesse delas.
Ivonei José Fazzioni, jornalista
MÍDIA NO INTERIOR
Federação cerceia jornalistas
Nós, a imprensa esportiva de Indaiatuba (região de Campinas), ficamos indignados com o súbito autoritarismo por parte da Federação Paulista de Futebol, que passou a impedir o trabalho, dentro de campo, de repórteres e repórteres-fotográficos em jogos da Série B2 do Campeonato Paulista de Futebol Profissional.
Acompanhamos o ano inteiro o Esporte Clube Primavera e o Grêmio Recreativo Osan na Série B2 (equivalente à quinta divisão do futebol paulista). Quando chegam as fases decisivas, começam as exigências descabidas, a saber:
a) Credenciamento dos repórteres à Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp);
b) Credenciamento dos repórteres-fotográficos a uma tal de Arfoc.
O jornalista tem a obrigação de estar credenciado a essas entidades para trabalhar?
Nós só queremos trabalhar!
Fiquei meia hora discutindo jornalismo, por telefone, com um funcionário da Aceesp, que insistia em que nós pagássemos uma taxa de R$ 60 para obter a famigerada credencial, além da exigência do diploma e do MTb. por parte dos profissionais. Por que tanto poder dessa entidade? Será que uma porcentagem vai para a FPF? Isso é legal?
Estou à vontade para tratar do assunto porque sou jornalista formado e com o maldito MTb., o que não é garantia de competência a nenhum jornalista. A quem não conhece a realidade do jornalismo do interior, informo: a maioria não é formada. Nem por isso é necessariamente incompetente. É o estágio na prática que, em tese, precisa voltar.
Não dá para aceitar depois de quase um ano a FPF venha exigir credenciamento de jornalistas e, pior, impor filiações a entidades de classe absolutamente discutíveis. Mesmo se antes fôssemos informados a respeito, discutiríamos. Minha sugestão é que o Observatório da Imprensa levante essa bola.
Não posso aceitar o cerceamento do trabalho da imprensa e credenciamento a um campeonato que sem cobertura jornalística praticamente não existe.
Exigimos nossos direitos e mais respeito.
Falo em nome de parte da imprensa de Indaiatuba (jornal Tribuna de Indaiá
<www.tribunaindaia.com.br>, do qual sou editor; Rádio Jornal; e TV Sol), porque os outros jornais da cidade não se manifestaram.
Jorge Ribeiro Neto
O DIA
Exemplo de antijornalismo
Tendo em vista a importância deste veículo na discussão sobre o jornalismo, tomo a liberdade de enviar uma mensagem remetida à redação do jornal O Dia. Trata-se de uma crítica a matéria divulgada por este jornal, na qual se liga um jogo, o RPG, a assassinatos ocorridos em Teresópolis. A matéria é um exemplo de antijornalismo, pelos motivos que aponto na mensagem anexada. Ainda que esteja se tratando de um jogo, não creio que se possa esquecer os princípios que fazem um bom jornalismo.
Lays Moreira
A mensagem de Lays ao Dia
"Para: <online@odianet.com.br>
Enviada em: domingo, 12 de novembro de 2000 16:00
Assunto: reportagem de O Dia (12/11/2000)
Caros senhores, gostaria de chamar a atenção para a matéria anexada abaixo, retirada do jornal O Dia, publicada hoje (12/11/2000). Esta matéria faz referência ao assassinato de duas meninas de Teresópolis em supostos rituais satânicos, relacionando o ocorrido ao Role Playing Game (RPG). Como jogadora de RPG e pedagoga, ao ler a reportagem fiquei estarrecida pela forma como foi elaborada. O jornal, pela voz da repórter, faz uma série de juízos de valor sem embasamento, tendo como fonte principal a madrasta de uma das meninas assassinadas. Além disso, coloca na capa da publicação a chamada Brincadeira macabra ladeada por uma figura de preto segurando uma vela. O jornal incorre em diversos erros por mim considerados grosseiros na elaboração de uma reportagem que se pretenda séria.
1) A repórter emite juízos de valor logo no início da matéria, cunhando hábitos dos jovens de "esquisitices"; junta uma série de comportamentos adotados (o RPG entre eles) e logo depois os vincula a cultos satânicos.
2) A repórter utiliza apenas uma única fonte para embasar suas afirmações – a mãe de uma das vítimas. Empresta a suas suspeitas (a de que o RPG esteja sendo usado para cooptar jovens para o tráfico de drogas) um espaço de um parágrafo inteiro, para depois afirmar laconicamente: "Mas não há provas". Ora, neste meio tempo, a reportagem já induziu o leitor a realizar seu julgamento, para depois e apenas depois revelar um fato importante: a de que não existem provas que relacionem o RPG a cultos satânicos e muito menos a assassinatos.
3) O mesmo erro foi cometido ao se tratar da única pessoa presa até o momento. Senhores, qual a relevância do fato de que o jovem detido é pai de três filhas de três namoros diferentes, ou que "tem um temperamento difícil", senão o de novamente induzir o leitor a um julgamento moral que confirme a culpa do rapaz? Vale lembrar que novamente a principal acusadora é a mãe da vítima e que o próprio delegado afirma que não existem evidências que incriminem o rapaz no que se refere às acusações de satanismo e assassinato. Entretanto, novamente esta informação se perde no meio de acusações infundadas.
4) Se não existem provas de seitas satânicas e de sua ligação com o crime, qual a razão de se publicar o depoimento de um jovem satanista que por acaso é jogador de RPG? Ratificar o argumento de que todo jogador de RPG é satanista e portanto sujeito a cometer atos hediondos?
5) A jornalista cita nominalmente o RPG e faz ligações entre ele e os fatos ocorridos. Entretanto, novamente não tem nenhuma fonte que comprove suas afirmações, a não ser uma – novamente a mãe da vítima, que convenhamos, não é uma fonte de alta credibilidade. Além disso, sua explanação sobre o jogo é rala e leva novamente a um juízo de valor negativo. Logo abaixo ela afirma: "Há quem considere o jogo educativo." Seria agora a vez de a jornalista demonstrar um mínimo de isenção e dar a voz às pessoas que embasariam tal afirmação. Entretanto, ela novamente dá voz à sua fonte favorita e parte para acusações ao jogo.
Senhores, isso não é, de forma alguma, o que eu chamo de jornalismo isento. O que vejo nesta matéria é um amontoado de julgamentos morais por parte da repórter arranjados de modo a levar o leitor a compartilhar a opinião de quem escreve. Para que a matéria fosse um pouco mais isenta, deveriam ser ouvidos educadores (já que, segundo a própria jornalista, "há quem considere o jogo educativo")e pessoas ligadas a este passatempo para ar ao leitor a possibilidade de realizar seu próprio julgamento. Entretanto esta oportunidade não foi dada a ninguém, e se aventada, apareceu mais uma vez colocada de modo a embasar a opinião da jornalista.
Senhores, sou pedagoga formada e jogadora de RPG há 5 anos. Estou profundamente chocada com a superficialidade e tendenciosidade da matéria citada; com toda a certeza a repórter prestou um grande desserviço àqueles que têm no RPG um passatempo, submetendo-o a uma série tão grande de preconceitos e julgamentos ocultos sob a forma de fato jornalístico. Lays Moreira, Campinas, SP"
A matéria de Rozane Monteiro
"TERROR
A marca do mal na Serra
Federal vai investigar se meninas de Teresópolis foram mortas em rituais satânicos. Acuados, jovens de hábitos considerados estranhos se dizem perseguidos
Rozane Monteiro <rozanemonteiro@odianet.com.br>
Até outubro, Teresópolis sempre conviveu com as esquisitices de seus jovens. Uns adoram andar vestidos de preto. Outros vão ao cemitério para usar drogas, beber e namorar ou, simplesmente, "zoar". Outros tantos fazem a mesma coisa num casarão abandonado. Quatro mil deles curtem um tal jogo Role Playing Game, o RPG. Mas há um mês, depois que duas adolescentes foram mortas por asfixia, Teresópolis se lembrou desses meninos e entrou em pânico. Lembrou-se também de algo que sempre se soube, mas nunca se viu: há quem adore o Diabo em rituais macabros. A ligação de uma coisa a outra chegou a Brasília e, esta semana, agentes da Polícia Federal vão subir a serra para investigar se as estudantes foram mortas em rituais satânicos – os corpos deverão ser exumados e os agentes também querem saber se sites de adoração ao Demônio têm ligação com os crimes.
A história foi parar em Brasília por conta do empenho de Sônia Ramos, 42, madrasta de Fernanda Venâncio Ramos, 17, uma das meninas mortas – a outra foi Iara Santos da Silva, 14. Sônia está convencida de que há ligação entre as mortes e rituais satânicos e que o RPG pode estar sendo usado para cooptar jovens para drogas e satanismo. Mais de 100 jovens ouvidos pelo Juizado da Infância e da Juventude da cidade confirmam a existência de uma seita. Mas não há provas.
Os meninos de Teresópolis também estão assustados. Eles já não se reúnem no velho coreto da Praça Baltazar da Silveira, no Centro, para jogar RPG – a polícia sempre aparece para desfazer as reuniões – e quase todos garantem que não adoram o Diabo. Os que adoram, como Pedro (nome fictício), 18, dizem que rituais com sacrifício é coisa de "amador".
No primeiro contato com estranhos, os adolescentes juram que nunca jogaram RPG ou ouviram falar do casarão das Pimenteiras, abandonado há mais de 15 anos. Mais relaxados, alguns admitem que já foram ao casarão, mas garantem que foi "há um tempão". Claro que também não fazem idéia de quem escreveu em um dos cômodos "Satã é o rei".
Finalmente, explicam que hoje, de tanto medo, o "grupo de preto" – os góticos – veste camisetas coloridas. Alguns vão ao cemitério. Muitos vão ao bar gótico Psichodellic Clubbers, de Rodrigo Feo, 29, onde ouvem rock e falam da vida numa cidade que não tem um único cinema.
Depoimento: ‘Sou livre. Sigo meus instintos’
Pedro (nome fictício) *
‘Pô, o cara (Deus) diz: "Não matarás". É só ver na Bíblia aquele montão de gente que ele matou. Aí, o malandrinho (Jesus Cristo) manda dar a outra face se alguém bater na gente. Isso é muito hipócrita. Eu sigo meus instintos e me permito me conhecer. Se alguém me der um tapa na cara, eu revido. Eu sou livre. Satanismo é isso. Não fico preso a um monte de princípios – não faz isso, não faz aquilo, não cobiçarás não sei o quê. Eu posso fazer o que eu quiser. É isso. Simples assim. Você vê, é muito fácil ser católico. O cara passa a semana toda fazendo besteira. Aí, chega lá na missa e pede perdão. O próprio malandrinho, que dizem que pregava a paz, naquela vez saiu chicoteando os caras que estavam vendendo coisas numa igreja. Não faz sentido. Isso aí que estão falando, de sacrifício de animais, de ir para o cemitério, para o casarão, de matar gente é coisa de amador. Satanismo não é isso. Esses moleques ficam fazendo essas besteiras e dá nisso.’
Pedro, 18 anos, é de classe média alta, faz sucesso com as meninas, tem cultura acima da média para sua idade e diz que o Diabo é seu ‘patrocinador’
Único preso é acusado de dar maconha a jovens fujões
O único preso até agora é Jameson Pereira Barbosa, 19 anos, Grande Mestre de RPG. Enquanto a cidade ainda estava abatida pelos crimes, três outros jovens sumiram. Eles bem que deixaram bilhetes para avisar que estavam fugindo. Não adiantou. Suas famílias estavam em pânico. Nove dias depois, foram encontrados em São Paulo. De volta a Teresópolis, disseram à polícia que Jameson tinha lhes dado maconha na noite anterior à fuga. O rapaz – que é solteiro, tem três filhos com três ex-namoradas e quer ser neurocirurgião – responde por tráfico e pode pegar pena de até 25 anos. "A polícia está equivocada", diz, na cela da 110ª DP (Teresópolis).
Jameson hoje é conhecido como Vampiro e, segundo a madrasta de uma das meninas mortas, Sônia Ramos, foi citado por alguns dos mais de 100 adolescentes que prestaram depoimento no Juizado da Infância e da Juventude de Teresópolis, onde ela trabalha como voluntária. Ele seria o rapaz visto bebendo sangue humano e comendo cadáveres no cemitério. Ele nega e não há provas. Jameson só admite que adora RPG e ler sobre seitas.
Sua família até admite que ele tem um temperamento difícil – pouco antes de ser preso, foi autuado por agredir a irmã, de 16 anos. Mas todos duvidam que pertença a alguma seita.
O delegado-titular da 110ª DP, Jorge Serra, não tem indícios que liguem Jameson aos crimes.
RPG, o jogo da polêmica
O Role Playing Game (Jogo de Interpretação, numa tradução literal) nasceu nos EUA em 1974. Basicamente, trata-se de um jogo em que os participantes assumem personagens e vivem aventuras narradas pelo Grande Mestre – Jameson, que está preso em Teresópolis, é um Grande Mestre e lidera um grupo que joga o Vampire (Vampiro). É o narrador quem vai descrever onde a ação se passa e atribuir poderes e missões aos personagens. O RPG pode ser jogado em mesa, mas há a live action (ação ao vivo), quando os jogadores se fantasiam para encarnar, mesmo, seus personagens. Também é possível jogar RPG pela Internet.
Há quem considere o jogo educativo. Sônia Ramos não concorda. Um de seus argumentos é um antigo livro de regras do RPG que ela encontrou em casa há anos. O livro – Gurps, Módulo Básico RPG – era do filho mais velho, hoje com 21 anos, que ela proibiu de jogar. "Existem várias maneiras de sufocar uma pessoa. (...) Todos estes métodos exigem que a vítima esteja amarrada ou (...) indefesa", ensina o livro, que tem a ilustração de uma pessoa sendo estrangulada pelas costas, exatamente como Iara e Fernanda."
Nota do O.I.: Até o fechamento desta edição, o Observatório ainda não havia tido resposta da jornalista Rozane Monteiro, a quem enviamos a correspondência acima.
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