27/05/2003 10/10

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MÍDIA E ATEÍSMO
Ainda fé e ciência

Realmente me surpreendem as acusações do Sr. Sottomaior de que eu teria fugido ao escopo do jornalismo em meu artigo "Um paradoxo ateístico", quando foi justamente o artigo dele ("Jornalismo fundamentalista") que direcionou a discussão para os meandros da fé (ou, no caso dele, da falta dela). Meu primeiro artigo, motivador de toda essa pendenga ("Cristo ainda é manchete") se tratava de uma análise de como a mídia vem abordando a figura de Jesus. Mas parece ter ofendido alguns ateus de plantão (embora esse propósito jamais me tenha passado pela cabeça).

Sottomaior diz ainda ter criticado minha "visão fundamentalista", apontando como ela é "incompatível com a racionalidade e o pensamento crítico". E foi justamente essa idéia popular de incompatibilidade entre fé e ciência que procurei refutar no texto "Um paradoxo ateísta". E ele encerra sua carta dizendo: "Fica claro que o editor da Revista Adventista está interessado somente em evangelizar, não em discutir a imprensa". Bem, discutir a imprensa foi o que fiz em minha primeira matéria. E, como jornalista, jamais usaria um espaço como este para "evangelizar" (e creio que meu texto nem seria publicado no OI se se tratasse de apologia cristã).

Sobre as acusações do Sr. Flávio Pompeu, volto a afirmar que considero dignos os objetivos da ONG Sociedade Terra Redonda, quais sejam: garantir os direitos dos ateístas na sociedade (até porque também aprecio a liberdade religiosa e de expressão); advogar pela total e completa separação entre religião e governo (bandeira sempre defendida pelos adventistas e outras religiões); divulgar e promover o método científico e o pensamento crítico, as realizações e os avanços da ciência (basta conhecer os propósitos da Sociedade Criacionista Brasileira [www.scb.org.br], para ver que esse é justamente um dos motivos pelos quais ela existe). Portanto, acredito que insistir em levar a discussão para o campo religião versus ciência é algo estéril e sem propósito.

Quero apenas tecer mais alguns comentários sobre os ataques à Bíblia. De fato, há nesse livro milenar questões complicadas de se entender à luz da ciência e da filosofia atuais. Mas há textos encontrados nas Escrituras que surpreendem até mesmo o maior dos céticos. E as antecipações científicas são um bom exemplo. Eis algumas:

"Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar..." (Gênesis 15:5). O que há de tão fantástico nesse texto? Hoje, nada. Mas na época em que ele foi escrito por Moisés (no século XV a.C.), estimava-se que houvesse 5.119 estrelas no céu. Até a invenção do primeiro telescópio, é possível que esta declaração bíblica tenha causado muita estranheza.

"Ele [Deus] estende o norte sobre o vazio; suspende a Terra sobre o nada" (Jó 26:7). Agora imagine dizer que a Terra está pairando sobre o nada, no vácuo espacial, para alguém no ano 1520 a.C., ou seja, há mais de 3.500 anos atrás! Naqueles tempos, alguns egípcios achavam que a Terra estava apoiada sobre cinco colunas e outros admitiam que nosso planeta havia sido chocado de um grande "ovo cósmico" que possuía asas e voava. Era a última novidade ensinada no Egito nos dias de Moisés. Todavia, onde está, nos escritos mosaicos, a teoria de que a Terra apoiava-se em cinco colunas ou de que fora chocada de um enorme "ovo voador"?

"Ele é o que está assentado sobre o globo da Terra..." (Isaías 40:22). Esta declaração foi escrita 2.500 anos antes de Colombo, Copérnico e Galileu! Antes mesmo de que os sábios gregos suspeitassem da esfericidade terrestre. Como podia Isaías saber que a Terra é redonda, naquela época?

De igual maneira, o escritor do livro de Jó não tinha como saber a respeito do peso do ar: "Quando regulou o peso do vento, e fixou a medida das águas" (Jó 28:25). O barômetro, instrumento usado para medir a pressão atmosférica, só foi inventado em 1643, pelo físico italiano Evangelista Torricelli (1608-1647). Entretanto, a Bíblia já declarava que o ar tem peso, três mil anos antes de a ciência descobrir esse fato!

A Bíblia também traz muitas importantes noções de sanitarismo: "Todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial" (Levítico 13:46). Por centenas de anos a temida doença da lepra matou milhares de pessoas na Europa. A medicina da época não tinha como minimizar o fato. Como última opção resolveu-se adotar o conceito de contágio apresentado no verso citado acima. Logo que as nações européias observaram que a aplicação da quarentena pública trazia a lepra sob controle, aplicaram o mesmo princípio contra a peste negra. Os resultados foram igualmente espetaculares e milhões de vidas foram salvas.

Doenças intestinais como a disenteria e a febre tifóide continuavam a levar muitas vidas. O costume geral era que o excremento fosse atirado nas ruas sujas, que não eram pavimentadas. As moscas se encarregavam de espalhar as doenças, matando milhões. Muitas vidas teriam sido salvas se as orientações de Deuteronômio 23:12 e 13, que são lições de sanitarismo básico, tivessem sido seguidas: "Também terás um lugar fora do arraial, para onde sairás. Entre os teus utensílios terás uma pá; e quando te assentares lá fora, então com ela cavarás e, virando-te, cobrirás os teus excrementos."

Rudolph Virchow, conhecido como o pai da patologia moderna, disse: "Moisés foi o maior higienista que o mundo já viu. Ensinou, em seus pontos essenciais, quase todos os princípios de higiene praticados hoje." E ele não os aprendeu no Egito.

Outro assunto interessante é a circuncisão. Ela foi orientada por Deus dez gerações após o Dilúvio, quando foi feito um pacto com Abraão: "Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será um sinal de pacto entre Mim e vós. À idade de oito dias todo varão dentre vós será circuncidado..." (Gênesis 17:11 e 22). L. Emmett Holt e Rustin McIntosh afirmam que um bebê recém-nascido tem susceptibilidade a hemorragias entre o 2° e o 5° dia de vida. Hemorragias nesta época, embora normalmente inconseqüentes, são às vezes extensas; podem produzir sérios danos nos órgãos acometidos.

Observou-se que a tendência à hemorragia deve-se ao fato de que o importante elemento coagulador do sangue – a vitamina K – é produzido de forma insuficiente antes do 5° e 7° dia. Um segundo elemento também necessário à coagulação do sangue é a protrombina. No 3° dia de vida de um bebê, a protrombina disponível corresponde apenas a 30% do normal. Qualquer cirurgia realizada em um bebê nesse tempo o predisporia a sérias hemorragias. Já no 8° dia a protrombina eleva-se a um nível bem melhor do que o normal: 110%. Depois, ela desce para 100%. Isso quer dizer que um bebê de oito dias tem mais protrombina do que terá em qualquer outro momento de sua vida.

Abraão não escolheu o 8° dia depois de experiências de tentativas e falhas. Nem Abraão, nem seus companheiros da antiga cidade de Ur, na Caldéia, haviam sido circuncidados. O dia certo, creio, foi escolhido pelo Criador da vitamina K e da protrombina.

Muito poderia ser dito a respeito das recentes descobertas arqueológicas ou mesmo sobre as fantásticas profecias bíblicas, mas o espaço não permite. Faço apenas um convite ao leitor: leia a revista Terra (Editora Peixes), do mês de maio, cuja ótima reportagem de capa traz como título "A ciência encontra a Bíblia". E tire suas conclusões.

Como considero que essa discussão em torno do criacionismo e do evolucionismo já extrapolou as raias do bom cavalheirismo e nada tem que ver com os propósitos deste sítio, gostaria de encerrar minha participação nesse assunto lamentando o fato de que, assim como ocorre com muitos críticos do evolucionismo, os anticriacionistas freqüentemente desconhecem as proposições do criacionismo e propagam inverdades como: os criacionistas não aceitam a seleção natural, ou: os criacionistas são fixistas, e por aí vai (para os interessados em elucidar essas questões, indico os livros Origem [www.cpb.com.br] e Evolução, Um Livro Texto Crítico [www.scb.org.br]). Flávio Pompeu escreveu: "Não consigo compreender o que faria uma pessoa acreditar que realmente o homem surgiu há 6 mil anos, como diz a Bíblia, e que a seleção natural não existe." E eu poderia perguntar, como fez Pascal: "Se o homem não foi criado por Deus, por que só é feliz com Deus?" Mas isso não se trata de ciência, nem de jornalismo. É questão de fé. Graças a Deus!

Em tempo: a pesquisa que mencionei na matéria "Um paradoxo ateísta" foi publicada na revista Perspective Digest, vol. 6, nº 3, 2001. Por um lapso, esqueci de mencionar a fonte.

Michelson Borges

 

Polêmica sem importância

Tendo lido a última carta de Daniel Sottomaior, destaco uma crítica à qual não foi dada a devida ênfase: por que a publicação no Observatório de artigos tão absurdos como os de Michelson Borges e Allan Novaes? Não há neles conteúdo a ensejar uma real polêmica, são meros panfletos proselitistas. Lançam acusações pessoais a seus opositores e repetem um obscurantismo anticientífico que só se encontra nos mais atrasados recantos do fundamentalismo norte-americano. Fingem participar de um debate que não existe na sociedade brasileira.

E a responsabilidade editorial dos meios de comunicação? Por que repetir boatos, histeria social (preconceito contra transgênicos, como apontado pelo Ulisses Capozzoli, alegações falsas de clonagem humana, santas na janela etc.)?

A solução é dar a cada caso a sua real importância, evitando a amplificação artificial de bobagens. E a falsa polêmica de Borges/Novaes não tem importância nenhuma.

Andre Lopes

 

Missão justificada

Lamentável. É o que tenho a dizer sobre o texto do Sr. Michelson Borges ("Um paradoxo ateístico"). É compreensível que o autor se esforce para defender seu ponto de vista de que a inexistência de Deus não é um fato logicamente deduzido a partir dos conhecimentos científicos atuais, especialmente na área da evolução biológica. Mas isso qualquer um que conheça o método científico logo conclui por si próprio, a despeito do que qualquer racionalista mais radical tenha dito ou deixado de dizer. Só não vale deturpar uma ciência consolidada por uma quantidade absurda de evidências, e não apenas por tradição ou compromisso político; como também fica feio distorcer a história e a filosofia da ciência apenas para defender seu argumento principal – que, diga-se de passagem, é senso comum entre a grande maioria dos cientistas que conheço.

Para começo de conversa, gostaria de esclarecer que eu também faço parte da Sociedade da Terra Redonda, dando meus palpites por lá de quando em quando. Um dos objetivos dessa organização não é bem converter não-religiosos ao ateísmo, como afirma o Sr. Michelson, mas promover a divulgação de informações científicas básicas, as mesmas informações que me fizeram perceber os despropósitos das religiões, isso lá pelos meus 12 anos de idade. (...)

A pessoa bem-informada que hoje continua afirmando que a evolução é uma farsa é como o alemão que insiste que Hitler jamais existiu. "Documentos? Fitas? Ora, não são ciência galileana", diria ele. (...)

É claro que a ciência, como instituição humana, não está livre de idiossincrasias e preconceitos dos seus agentes. Contudo, a ciência é única justamente por seu método, que diminui ao máximo o papel da subjetividade na aquisição do conhecimento. Querer desmerecer uma ciência por sua parcela de parcialidade e, ao mesmo tempo, defender uma religião que afirma categoricamente que apenas a "sua" Bíblia é verdadeira é, no mínimo, uma contradição.

Cerca de dois mil anos depois do nascimento de Jesus Cristo – pessoa real ou não, não importa – o mundo mudou tanto, e a humanidade tão pouco, que talvez a religião como a conhecemos já não satisfaça o seu papel básico de muleta psicológica, fonte de alívio e esperança. Tanto que muitas pessoas acabam, de fato, procurando respostas em bruxaria e ETs. O que acontece? Na minha opinião, e independentemente do que digam os criacionistas, a ciência e a filosofia já explicaram de maneira satisfatória as perguntas "de onde viemos?" (das savanas africanas), "para onde vamos?" (para onde determinarmos) e "por que estamos aqui?" (sem nenhum motivo especial). Se a alguém essas respostas parecem muito duras ou insípidas, não faz mal, todos temos direito à autodeterminação e de buscar a verdade por nós mesmos.

A única atitude que considero imoral é distorcer uma ciência ética, honesta e bem estabelecida, afastando-a dos jovens e de qualquer pessoa curiosa e interessada em conhecê-la, como fez o Sr. Michelson em seu texto. Enquanto grupos de pessoas continuarem a receber benefícios fiscais, como tantas igrejas e templos, para divulgar falsidades e atrapalhar a difusão do conhecimento científico, a Sociedade da Terra Redonda tem sua missão justificada, e eu, a minha.

Rodrigo de Loyola Dias, biólogo

Leia também

Um paradoxo ateístico – Michelson Borges

Jornalismo e fundamentalismo – Daniel Sottomaior

Jornalismo e fundamentalismo "redondo" – Allan Novaes

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