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LER E OUVIR
É a pobreza, o preço...
Por que é difícil ler e, até mesmo, ouvir, no Brasil? Estamos num país em que mais de 50 milhões de pessoas vivem abaixo do patamar designado como pobreza. Por mais que queiramos relutar, esse fator, o social, é preponderante, diante do pouco interesse do brasileiro em ler. O livro citado pelo artigo é caro. Generalizando-se, um salário mínimo, que é trocado pelo trabalho da maior parte dos brasileiros, permitiria a compra de apenas uma dezena de títulos.
A relação estimulada entre o livro e os cedês também pode ser contestada. O brasileiro tem hábito de comprar mais bens para ouvir do que para ler. Por certo. São os cedês encontrados mais facilmente em forma pirata. O custo é reduzido, assim como a qualidade. Contudo, pode-se ouvir o artista preferido. Não há, entretanto, dúvida de que este ato é ilícito e inconcebível, diante da necessidade de os comerciantes quitarem seus tributos com a nação. Porém, ou se compra pirata ou jamais se ouvirá música em cedê, ou se lerá um bom livro – sou réu confesso por ter comprado o romance O Xangô de Baker Street, do humorista Jô Soares (nas lojas por R$ 24; nas ruas, por R$ 16).
Marcio Souza
Na pergunta a resposta
Peço licença para, respeitosamente, fazer algumas observações em razão do texto "Por que Caetano Veloso é tão citado?", do Sr. Deonísio da Silva. Em primeiro lugar, a desproporção entre livros e discos vendidos não é um dado hábil a demonstrar que o Brasil é um país que não lê. Se a comparação valesse, os EUA encabeçariam a lista de países que não lêem, seguidos por Inglaterra e Alemanha. O motivo da não-leitura não tem qualquer relação ou nexo causal com a venda de discos.
Além disso, receber um disco de ouro ou platina não implica uma vantagem pecuniária imediata. Significa, ao contrário, que o disco vendeu e a indústria já teve lucros extraordinários. Daí por que, uma vez estabelecida a marca numérica, a homenagem é feita pela gravadora ao intérprete. Equivaleria a um editora dar o "livro de ouro" a um livro mais vendido. Claro que os prêmios literários têm a ver com a qualidade, e não com o volume de vendas. Mas para isso há prêmios equivalentes na música (Oscar, Grammy, Sharp etc.).
Tampouco consigo imaginar algum nexo entre o prestígio da cidade do Rio de Janeiro, a atitude do ex-governador Garotinho, a declaração do ministro Marco Aurélio e eventual responsabilidade de Caetano Veloso (e demais baianos que gostam do Rio de Janeiro). Mais uma vez, o texto uniu dados díspares e tentou retirar uma conclusão da conjugação deles. Além disso, a declaração do ministro Marco Aurélio produziu os efeitos específicos e próprios para o contexto e em face do público a quem estava dirigida (o próprio texto prova isso). Para obter efeito equivalente, mas observados os parâmetros sugeridos pelo texto, exigir-se-ia que o ministro Marco Aurélio pretendesse não ser compreendido ou fizesse a manifestação com nota de rodapé. Caso o ministro assim se comportasse ao exercer a presidência do STF, talvez causasse espécie. Porém, numa palestra em que discutia problemas referentes à liberdade de imprensa, nada mais próprio.
Por fim, não esqueçamos que Caetano Veloso também é autor de belos livros. Uns vendem mais, outros menos – como todos os demais produtos postos no mercado. Trago duas rápidas conclusões. Em primeiro lugar, o título do texto "Por que Caetano" prova demais. A pergunta traz consigo a resposta. Em segundo, parece-me que o texto "Por que Caetano" alberga uma espécie de "censura intelectual", ao exigir "somente literatos alemães em declarações públicas de autoridades, por favor – ou o original em latim."
Com todo o respeito, o cerne das questões consignadas no texto não está nesse plano. Mas fico por aqui, pois, como bem diz Gilberto Gil, "quem dá luz a cego é bengala branca e Santa Luzia". Cordialmente,
Egon Bockmann Moreira
Deonísio da Silva responde
Já tinha respondido a alguns leitores, quando chegaram mais cartas, que me foram repassadas por Luiz Egypto, editor do OI. Sem tempo de responder, quero, entretanto, dizer que os leitores que escrevem dão-nos bálsamos ou porradas, e todos, sem masoquismo ou falsa vaidade, conforme o caso, são sempre bem-vindos.
Os leitores lêem, tem todo o direito de concordar ou discrepar. E nós, o dever de ler o que eles acham para tomá-los em consideração sempre, nem que seja para deles discordar, seja nos elogios, seja nas críticas adversas. Este é o mundo maravilhoso da democracia na Galáxia Gutenberg! Sem contar que às vezes o estilo dos leitores é melhor do que o do escritor! Afinal, "o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente/ E os que lêem o que escreve/ na dor lida sentem bem/ não as duas que ele teve/ mas só a que eles não têm".
Concluí com uma citação porque se vocês não aproveitarem nada da minha resposta, fiquem com o poema do Fernando Pessoa. Ele não é o autor de "navegar é preciso/viver não é preciso", mas em compensação é autor de coisas muito mais belas, que cantores e compositores cultos como Cetano Veloso certamente já leram. (D. da S.)
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