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REDE GLOBO E ELEIÇÕES
Interpretações enlouquecidas
Ou bem eu não sei ler ou Nílson Lage teve acesso a um artigo que o Observatório da Imprensa publicou em edição secreta. O que ele escreve sobre a excelente análise de Gilson Caroni Filho nada tem a ver com o artigo. Ou há problemas de leitura ou, perdoem-nos a insinuação, interesses inconfessos em defender a TV Globo. Como diria minha mãe, o jornalista nunca sabe o dia de amanhã...
Célia Monteiro, arquiteta
Câmera alta e superioridade
Pitaco de noviço na área de comunicação. Essa mise-en-scène global, com aquela câmera perambulando pra lá e pra cá, tal qual um pássaro embriagado, funcionou como um distrator em relação ao que mais interessaria de fato: a discussão dos projetos dos candidatos. Serra, mais alto que Lula, parece ter sido favorecido com as angulações da câmera, que o tomou quase sempre em takes com câmera alta. E o objetivo da câmera alta é esse, mostrar superioridade. Achei também curiosa a forma como eles dispuseram os presidenciáveis, um em cada canto do cenário. Me veio de imediato a idéia de um ringue, mas à luta de boxe, se foi essa a intenção, faltou emoção. A Globo pasteuriza tudo. Êta emissorazinha.
Paulo Lima
Manipulação fere democracia
A imprensa, enquanto quarto poder, como é chamada, define uma inconstitucionalidade. Por que? Porque, reza a nossa Carta Magna, todo o poder emana do povo. Assim, a televisão, ao manipular os eleitores de uma única e legítima representação popular, está ferindo a democracia. Já anteriormente, a Rede Globo, num último debate entre Lula e Collor, pariu do nada uma filha do primeiro, escandalizando o eleitorado e levando-o à derrota. No debate de Lula com Serra, não chegou a tanto. Mas, penso eu, não deixou de expor um preconceito quanto ao líder trabalhista para estimular o seu índice de rejeição, quem sabe visando um empate sul-americano...
Serra quer duplicar os seus votos, dando margem a se pensar que cresça nas urnas, em função de sua altura na arena, uma desenvoltura de "gentleman", que circulava em torno dela falando com voz macia e cativante... O ator mais que perfeito de uma peça escrita para ele pelo sistema vigente. A neutralidade democrática da emissora, da qual se desconfia com razão pelos citados antecedentes, só é perdoada pela presença do povo no local, o que deve destoar da cópia em que se baseia das mesmas contendas como nos EUA.
Felizmente, ao se despedir, Luiz Inácio lembrou que os seus votos – incluindo toda uma esquerda orgânica, que não se deixará levar por pantomimas – vão além dos que Serra quis obter com o auxílio da imprensa. Aludia, por certo, aos companheiros de esquerda do PPS e do PSB principalmente, que agora não têm mais nenhuma desculpa para lhe negar seu voto, ao mesmo tempo útil e idealista.
Fernando Dias Campos Neto
Censura precedeu o PT
Muito interessante a matéria do Sr. Nilson Lage, mas o episódio de ontem no Correio Braziliense deixa claro que a premissa está furada. Transcrevo: "Se dependesse de analistas como esse, o eventual governo Lula incluiria censura total de informações, já que qualquer coisa que se diga, ainda que verdadeira e relevante, pode ser interpretada, no contexto, como algo contra o líder supremo, dotado de virtudes tão sobre-humanas que nem sequer faz xixi; não aprecia vinhos finos; não cultiva amizades que desagradem à direita americana ou conversa com pessoas abominadas pela corte." O episódio lamentável de retorno à censura prévia foi sacado mais cedo do que se imaginava e, ao contrário do suposto, por iniciativa do candidato oficial ao governo do DF e aliado de Serra.
Vale lembrar que foi considerado plausível pelo egrégio Tribunal a hipótese de quebra da proibição de divulgação do conteúdo das fitas do incrível caso de envolvimento do senhor governador Joaquim Roriz com a máfia da grilagem estabelecida confortavelmente no quadrilátero do DF. Se a Justiça ordenou a não-publicação desse conteúdo, é sabido por todos que a desobediência a essa determinação justificará a prisão dos responsáveis. Portanto, quem quiser ir para a cadeia publique. Se a editoria do jornal citado decidisse pela publicação, seria penalizada de pronto. Não há portanto argumento para a autorização de invasão com direito de arrombamento baseada em hipótese. O que ocorre é muito simples: o ônus para a campanha de reeleição seria avassalador. Então, não me diga que o PT poderá inaugurar a censura total de informações. Ela já foi inaugurada pelo TSE de FHC.
Ralph Gehre
Facciosismo cego
Lendo o artigo de Nilson Lage, achei excelente a análise, inclusive porque fiz uma crítica ao artigo do Caroni, publicada na seção de leitores, motivado pela minha visão totalmente contrária à dele e que mantive durante toda a campanha eleitoral, de que a Rede Globo mesmo que sem intenção e propósito direto acabou contribuindo para criar a "onda Lula" – desde quando, já em abril/02, dizia, especialmente no Jornal da Globo, via Franklin Martins, que Lula já estava no segundo turno, e restaria apenas saber quem iria acompanhá-lo, o que se repetiria durante meses em quase todos os dias.
É claro que as críticas à cobertura têm sempre o viés dos que são a favor e contra as respectivas análises, a maioria apaixonados, e o profissional fica lá ensanduichado, sendo impossível satisfazer aos dois lados. Mas a Globo não economizou críticas e denúncias a tudo que de problema há ou havia no governo FHC, o que acabou direta ou indiretamente repercutindo negativamente na candidatura José Serra.
Não estou querendo emitir opinião de que houve intenção de assim fazê-lo por parte da Vênus Platinada, a quem respeito porque tem excelentes qualidades, mais do que defeitos. E é preciso respeitar a cobertura dos jornalistas que lá trabalham, inclusive merecidamente, porque foi sim competente e houve um visível esforço de todos para que assim acontecesse. A minha crítica ao artigo foi motivada pela visão e análise "ideologizada" da cobertura da Globo, quando na verdade qualificar o veículo como de "direita" ou "esquerda", numa campanha eleitoral em que o próprio candidato que se autoproclamou de esquerda fez acordos à direita os mais absurdos para possibilitar ser "viável eleitoralmente", é no mínimo um equívoco motivado pela cegueira do facciosismo partidário.
Então, agora lendo o artigo de Lage, finalmente posso afirmar que não sou o único neste portal que pensa da mesma forma. Agora, o curioso é que quando há uma opinião contrária e uma crítica somos qualificados como "partidários do reverendo Moon", do tal do Olavo de Carvalho, que nossas idéias nascem em banheiros etc. Aliás, por falar em banheiro, é oportuno lembrar que canções do João Gilberto nasceram em banheiros, onde o grande mestre da bossa nova encontrava a melhor acústica; o renomado Fernando Sabino de O encontro marcado escreveu que o banheiro é local de meditação, repouso, relax, refúgio etc. e, ainda como exemplo mais significante, foi lá numa banheira dentro do banheiro que Vinicius de Moraes escreveu poesias memoráveis.
Edward Wilson Martins
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