segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Um livro fura a imprensa

O episódio explodiu não faz muito tempo: o ministro Gilmar Mendes, então presidente do Supremo Tribunal Federal, procurou o presidente Lula para reclamar do monitoramento de seus telefones por agentes federais. O noticiário se transformou naquela briga estilo torcida de futebol, a oposição dando como certo que tenha havido o grampo, a situação jurando que a informação era falsa. A Polícia Federal não chegou a um resultado conclusivo. A discussão permanece.

Permanecia: dentro de poucos dias estará nas bancas o livro Assassinato de Reputações – um crime de Estado, um depoimento do delegado Romeu Tuma Jr., que foi secretário nacional da Justiça, ao jornalista Cláudio Tognolli. Tuma Jr. trata especialmente das relações entre ele, seu pai, o senador Romeu Tuma, e o governo petista. E, entre os episódios que narra, está o do grampo telefônico do ministro Gilmar Mendes – dele e, aliás, de todos os demais ministros do Supremo. Os grampos, conta Tuma Jr., foram realizados por delegados da Polícia Federal. Ele cita nominalmente o hoje deputado Protógenes Queiroz, do PCdoB, e o agente Idalberto Dadá Araújo. “Protógenes, Dadá e seus gansos e agentes”, diz Tuma, grampearam o STF todo. E o delegado Paulo Lacerda, que perdeu o cargo de diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Abin, pagou por isso.

Tuma Jr. conta no livro, com nomes e cargos, como ficou sabendo do fato; e descreve o equipamento usado para o grampo. Era uma maleta para gravação digital sem fio, fabricada na França, que assume o controle no lugar da operadora de telefonia. E pode ser manipulada à vontade – inclusive apagando registros de ligações, inclusive fazendo ligações que simulam ter saído de outros telefones.

Tuma Jr., que trabalhou no caso do assassínio de Celso Daniel, prefeito petista de Santo André, fala deste caso. Foi também Tuma Jr. que, violando um acordo entre o governo federal e o empresário russo Bóris Berezovsky, naturalizado britânico, prendeu-o, obrigando gente importante de Brasília a intervir no caso para libertá-lo (na ocasião, Berezovsky desistiu de seguir em frente com a compra da Varig, motivo oficial que o havia trazido ao Brasil e chave de seu relacionamento com o governo do presidente Lula).

Um livro que tem tudo para ser o tema de discussão política nas próximas semanas. O conteúdo é explosivo o suficiente, e envolve amplo número de casos de repercussão. E, curiosamente, nesses tempos de comunicação instantânea, o repórter Cláudio Tognolli realiza a façanha de fazer com que um livro fure a imprensa diária, a TV, o rádio e a internet.

 

A imprensa, segundo Barbosa

E, por falar em explosivo, o presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, abriu fogo contra a imprensa. Não é a primeira vez: em outro caso, insultou o repórter Felipe Recondo, que até hoje não sabe por que foi insultado. Mas é a primeira vez em que faz uma crítica fria, sem rompantes.

Disse o ministro, num congresso da Unesco sobre liberdade de expressão, que falta à imprensa brasileira diversidade política e ideológica, e que os três principais jornais do país são “mais ou menos” de direita no campo das ideias. Criticou a imprensa brasileira também por considerar que emprega poucos negros ou mulatos nas redações, e os mantém praticamente ausentes das posições de controle ou liderança.

Barbosa fez questão de dar suas opiniões em caráter pessoal, não como ministro do Supremo, “mas como um cidadão político, livre e consciente”.

Joaquim Barbosa é eleitor do PT, votou em Lula e Dilma; mas sofreu duras críticas petistas por sua atuação no julgamento do Mensalão. Será curioso verificar como aqueles que o consideraram o perfil ideal para a Presidência da República analisarão suas posições; e aqueles que o consideraram um traidor do Governo que o nomeou adaptarão sua raiva agora que o ministro adotou posições em vários aspectos semelhantes às que defendem.

 

Bota fio, tira fio

O próximo jornal a ser reformado é O Estado do Maranhão, principal veículo impresso do império de comunicações montado pelo senador José Sarney no Maranhão. O Estado do Maranhão, que iniciou o império, foi fundado por José Sarney em 1959, pouco depois de assumir seu primeiro cargo eletivo, o de deputado federal pela UDN maranhense. Seu primeiro título, na época em que Sarney ainda usava os cabelos na cor natural (alguém se lembra de qual era?) e o consideravam reformista, foi Jornal do Dia.

Ambos, Sarney e o jornal, subiram na vida. Sarney chegou à Presidência da República e foi várias vezes presidente do Senado; o jornal trocou de nome, tornou-se o mais importante do estado e hoje faz parte de um conglomerado que inclui a TV Mirante, afiliada da Rede Globo de Televisão.

A reforma de O Estado do Maranhão será totalmente apresentada no fim do ano, diz Ribamar Corrêa, seu diretor de Redação. “O Estado”, diz Ribamar Corrêa, “vai se renovar mais uma vez, de uma maneira extremamente ampla, como sempre foram as reformas que fazemos aqui”. O anúncio da reforma foi feito em reportagem de quatro minutos na TV Mirante.

 

Gente, jamais

Há muitos anos, nos tempos em que Esperidião Amin tinha cabelos e Álvaro Dias não os tinha, o grande jornalista Ricardo Sérgio Mendes dizia que sua maior preocupação era completar 60 anos e, com isso, perder o nome. “Se eu for atingido por um caminhão, os jornais dirão: ‘Sexagenário atropelado’”.

Ricardo, ainda bem, jamais foi atropelado. Mas hoje em dia ninguém precisa completar alguma idade específica para deixar de ter nome e identidade. “Menor assaltado”, “idosa ganha na loteria”, “universitário é mordido por cachorro de motorista”, “estudante se recusa a fazer teste do bafômetro”.

Um belo exemplo aconteceu há poucos dias: Publicitário atropela duas universitárias. Por que não “motorista atropela duas mulheres”? Por que tratar as pessoas exclusivamente por sua atividade? Imagine se fosse o caso de falar de Jorginho Guinle, que cansou de proclamar que nunca trabalhou nenhum dia na vida: “Conquistador de artistas de Hollywood compra carro novo”. Esquisito.

A supervalorização da atividade talvez seja fruto do respeito pela produção, pela economia. As pessoas valem pelo que produzem, ponto final. O repórter pode até ter essa visão da vida, embora com isso suas matérias fiquem mais pobres; mas não deveria deixá-la transparecer com tanta clareza. Gente é mais importante que o trabalho que eventualmente realize.

 

Fazendo borbulha

Um repórter fotográfico de primeiro time lembra os tempos em que teve o privilégio de trabalhar com Paulo Patarra (eta, família talentosa! O Paulo era ótimo, e sua esposa Judite, jornalista brilhante, escreveu Iara, a biografia definitiva de Iara Iavelberg, militante da luta armada e mulher de outro militante famoso, Carlos Lamarca). O repórter se iniciava no jornalismo, depois de cursar engenharia eletrônica, lá pelos idos de 1974. E muito aprendeu com Patarra. Aprendeu, por exemplo, a tomar cuidado com repórteres que, levados pela moda do momento, acabam ajudando a fabricar mitos. Isso sempre aconteceu muito em política, em economia, em cultura. De repente, Eike Batista era o Midas, aquele brasileiro que, com o apoio inestimável do dinheiro público, iria se transformar no homem mais rico do mundo (como se esse cálculo, numa época em que boa parte das fortunas está na Bolsa, onde as ações flutuam a cada instante, pudesse ser feito com grande facilidade). Aliás, imaginemos que Eike Batista se transformasse no homem mais rico do mundo. Em que isso mudaria a sua vida, caro colega, ou a dos demais brasileiros desprovidos de um Mercedes McLaren na sala de visitas?

Bem, as fronteiras vão-se expandindo. E de repente até no esporte surge a criação de mitos. Veja este título, que coisa notável: “Time de Eike Batista vence Cruzeiro e conquista a Superliga pela 1ª vez”.

Como se diria lá no interior, que tem a ver a cueca com as calças?

 

Vale a pena

Às vezes o caro colega se sente desanimado?

Pois é: um livro curto, bem escrito, vai fazer-lhe bem. Não, esqueça a autoajuda: o livro conta uma história real e nada tenta ensinar ao leitor. Quem quiser que tire suas próprias conclusões. É comovente; e interessante.

O livro conta a vida de Gina Freund, hoje com 95 anos. Gina, pelo crime de ser judia, foi levada pelos nazistas ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde mataram seu marido e sua filha de três anos. Com a derrota da Alemanha nazista, Gina veio para o Brasil. Aqui casou-se de novo, teve filhos, reconstruiu a vida. Tinha 82 anos quando o marido morreu. Que fez Gina? Foi aprender a dançar tango; e decidiu fazer seu livro de memórias, ditando-o a Valéria Martins, autora do bom texto final.

Dizem os livros sagrados que o povo judeu, tendo a persegui-lo o poderoso exército do faraó do Egito e à frente o mar, dividiu-se sobre o que fazer. Alguns sugeriram a rendição e a volta ao Egito; outros, o suicídio, jogando-se ao mar. Houve quem defendesse a luta contra as forças incomparavelmente superiores do faraó, sabendo que todos iriam morrer, mas combatendo. Moisés consultou o Senhor a respeito do que fazer. A resposta que obteve: “Diga a Israel que marche”.

Gina Freund, submetida a grandes sofrimentos, marchou. E continua marchando. Um tango para sobreviver, Editora KBR, já nas livrarias.

 

Como…

Do portal noticioso de um grande jornal:

** “Grupo neonazista atacava facas em nordestinos”.

Justo neonazistas iriam atacar facas, de que gostam tanto? Provavelmente o que se quis dizer é que “tacavam” (atiravam) facas em nordestinos.

 

…é…

De um anúncio de remédio milagroso (que, pelo jeito, só não ensina a escrever):

** “Emagrimento que espanta os médicos”

A julgar pelo restante do texto do anúncio, deve ser “emagrecimento”.

 

…mesmo?

Um texto completo, que não deixa erro sem registro:

** “(…) A CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) completa 70 anos (…). Se por lado apenas 20% do seu texto é aplicada, por outro ela criou princípios utilizados até hoje pela Justiça Trabalhista”.

CLT é Consolidação das Leis do Trabalho. “Se por lado” certamente é “se por um lado”; e 20% de seu texto é aplicado, não aplicada. O resto da notícia vai na mesma toada: entre outras maravilhas, “metade” concorda com verbo no plural.

 

A não notícia

O exemplo também é magnífico: as coisas aconteceram, ou talvez tenham acontecido, ou não. Mas quem é que sabe, embora sem saber?

** “Os três suspeitos (…) confessaram que teriam se livrado da mochila de Dzhokhar Tsarnaev.” Confessaram ou não? Como podem ter confessado que teriam feito? Põem em dúvida sua própria afirmação?

** “Dias Kadyrbayev, 19, e Azamat Tazhayakov, 19, afirmaram aos investigadores que eles teriam pegado a mochila e o computador de Tsarnaev em seu dormitório (…).” Pegaram, como afirmaram, ou “teriam” pegado?

Afinal, que é que aconteceu, ou sabe-se lá, que é que teria acontecido?

 

E eu com isso?

Agora entramos em terreno firme: aquilo que aconteceu aconteceu de verdade. Pode até não parecer importante, mas que foi verdadeiro, foi.

** “Camila Pitanga é flagrada andando de metrô em São Paulo”

** “Nigella Lawson circula em rua de comércio de luxo em SP”

** “Deborah Secco beija novo namorado”

** “Filha de Michael Jackson é fotografada durante passeio”

** “Daniela Mercury e mulher deixam ‘cadeado do amor’ em Moscou”

** “Rapper americano recebe sexo oral durante show”

** “De biquíni fio-dental, Dani Sperle chama atenção em praia do Rio”

** “Vanessa Hudgens é fotografada durante passeio em Los Angeles”

** “Bebê de Dentinho se encanta com desenho animado”

** “Joe Jonas passeia com a namorada pelas ruas de Nova York”

** “Mayana Neiva curte música enquanto pedala”

** “Will Smith e filho lançam filme”

 

O grande título

Vamos lá: basta ler algumas vezes para entender direito o que é que o redator quis dizer.

** “Corpo de mãe que não via o filho há 14 anos é velado em presídio no RN”

É simples: como não havia escolta para levar o prisioneiro para o velório da mãe, o corpo foi levado para o presídio. E por que a mãe não via o filho há 14 anos? Aí está um bom tema para especulações.

E temos um título notável:

** “Pastor, pai de Katy Perry diz que cantora é ‘filha do diabo’”

Deve ser um homem incrível, o pai de Katy Perry: é muito difícil conhecer-se a si mesmo.

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Carlos Brickmann é jornalista e diretor da Brickmann&Associados Comunicação