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Valor, primeiras avaliações
Não cabe a um Observatório como o nosso discutir qualidade jornalística, oferecer galardões ou despejar piches. O lançamento do novo diário de economia e negócios, no entanto, merece reparos. Porque quando o projeto foi anunciado mereceu deste Observador candentes comentários [veja remissão abaixo].
Os parceiros Globo e Folha foram cautelosos no lançamento. Advertidos de que a junção do formidável poder de fogo de seus veículos poderia caracterizar concorrência desleal, fizeram um lançamento discreto (considerando-se o potencial de que dispõem).
Não precisaram gastar munição. No interregno de sete meses entre o anúncio e o lançamento, a concorrência comportou-se de forma álgida. Ou, se quiserem, abúlica. A Gazeta Mercantil, principal alvo do projeto, mal se mexeu. E quando mexeu foi para pior. O caderno de Economia do Estado de S.Paulo (objetivo nº 2 da empresa Valor Econômico S.A.) manteve-se na estratosfera – não era com ele. O veterano Jornal do Commercio (Rio), dos Diários Associados, ensaiou um movimento preventivo e ficou na tentativa. O Jornal do Brasil, que tem a seu crédito o fato de ter desenvolvido nos anos 60 a primeira editoria de Economia, hoje está olhando em outra direção. Paradoxalmente, a única reação afirmativa foi a do Diário Popular (São Paulo) que nada tem a ver com o peixe mas que, por isso mesmo, tem condições de melhor aproveitar a onda. Convocou Roberto Müller Filho (o jornalista que nos anos 70 completou a transformação da Gazeta Mercantil) para preparar um jornal de economia dirigido ao pequeno empresário.
Esta inapetência generalizada para uma disputa vigorosa que só beneficiaria o público leitor é mais uma prova do estado da mídia brasileira: o jogo está feito, cada um está roendo o seu osso enquanto os dois grandes olham para o futuro e fazem o seu Tordesilhas. Valor é um projeto jornalístico mas embaixo dele está embutido um Tratado de Tordesilhas que dividiu o mercado brasileiro de jornais em dois.
Quando este Observatório batizou a surpreendente parceria entre dois arquiinimigos de Globolha pensava apenas numa designação para o futuro veículo. O recurso óbvio era o da contração dos dois títulos. A coisa pegou nos meios jornalísticos e publicitários enquanto os parceiros não anunciavam o nome definitivo. Agora precisam tomar cuidado com um dos poucos vetores da sociedade brasileira – a galhofa – capaz de transformar alcunhas em estigmas.
O nome Valor merece comentários à parte: é típico de revista (há uma homônima em Portugal, lançada em 1991). Confirmando a entonação revisteira do título, nos meios especializados, antes do lançamento, mencionava-se a Valor e, não, o Valor. Os imbatíveis parceiros vão ter problemas nesta área porque adotaram uma fórmula que pode ser boa para os respectivos jornais populares (Extra e Agora) mas ainda não foi aprovada num jornal de qualidade.
A edição nº 2 (3/5/00) revela a estrutura definitiva do veículo: quatro cadernos (12+12+16+12 páginas) com cores nas capas e internas nos cadernos menores e apenas nas capas do caderno maior maior. Como é impresso nas mesmas rotativas de O Globo (Rio) e Folha (São Paulo), fica demonstrado que a doida cadernização que fragmentou os grandes jornais brasileiros e tornou descartáveis grande parte deles pode ser evitada. Basta querer. E comprar o maquinário apropriado para jornais coesos e orgânicos. (No mesmo dia, a Gazeta Mercantil estava com sete cadernos, alguns autênticos cadernículos.) Neste sentido, o valor de Valor é inestimável: comprova que o jornalão tem que se assumir como jornalão com toda a sua dimensão, estatura e dignidade.
O projeto visual é de autoria de um consórcio de escritórios de design da Inglaterra. Não é da nossa competência avalizar ou desqualificar o trabalho. Mas, pombas, sem querer adotar o discurso nacionalista, temos dezenas de designers capazes de fazer a mesmíssima coisa. Por um custo infinitamente menor. Nos anos 70, Cláudio Abramo (além de grande jornalista também um talentoso artista plástico) chamava a atenção deste Observador para o caráter clean e claro do Guardian e do Independent (que posteriormente poluíram-se bastante). Exatamente o que fizeram os valorosos visualizadores de Valor.
Extremamente reveladora a repercussão do lançamento do novo jornal na imprensa diária. Na quarta-feira, 3/5, os jornais parceiros, precisamente sincronizados, deram chamadas de primeira página do mesmo tamanho e no mesmíssimo lugar (canto inferior direito). A matéria foi jogada para as páginas internas dos cadernos de economia. Usaram de idêntica lógica: se badalarem demasiadamente o novo jornal nos seus cadernos de economia acabam por dar um tiro nos respectivos pés.
Já a concorrência, homogeneizada pela negligência e/ou despeito, comportou-se em sentido contrário: o Jornal do Brasil minimizou o lançamento noticiando-o num texto legenda nos confins do caderno de economia. A Gazeta Mercantil ignorou completamente um evento importante na vida econômica brasileira. O Estadão fez quase isso: deu ótimo tratamento ao texto do discurso do presidente da República e ao do governador de São Paulo e, no meio, entre vírgulas, enfiou a informação de que os pronunciamentos deram-se no lançamento de Valor. Isenção é isto.
O artigo de Delfim Netto na página 2 da edição nº 1 de Valor teve um sentido altamente simbólico. Pode ser sintetizado numa pergunta: gastaram 50 milhões de dólares para isso?
Título principal da capa da edição nº 2 de Valor: "Armínio diz que juro pode cair". O terceiro assunto na ordem de importância foram as greves e invasões. Tanto em O Globo como na Folha o assunto dominante foram as invasões pelo MST de prédios públicos em todo o país. Então o que importa mais na conjuntura politico-econômica – a hipótese de caírem os juros ou a brutal realidade da baderna? Em outras palavras: quem dará o tom da conjuntura para os tomadores de decisões – o jornal especializado ou o jornal generalista? Se Valor for o preferido, o que será da Folha ou de O Globo diante do seu público de elite?
Quando esteve no Brasil, há dias, o grande ensaísta e filósofo português Eduardo Lourenço disse à jornalista Norma Couri (Caderno 2, O Estado de S.Paulo): "Nos anúncios e nas páginas econômicas está a realidade de um país, o resto é conversa".
Os imbatíveis deveriam ter pensado nisso antes.
A foto no divã
De um lado temos o fabuloso mundo das imagens digitalizadas e manipuladas. Do outro, a elaboração artística de um Sebastião Salgado que pode esperar horas, às vezes dias, para obter o efeito que deseja e depois publicá-lo num livro esmeradamente impresso. No meio, espremida por estes extremos, a foto jornalística numa crise de identidade.
A revelação de que a famosa foto da retirada dos vietnamitas do prédio da embaixada americana em Saigon não fora feita diante daquele prédio, mas em outro, junta-se à famosa manipulação da foto dos soldados soviéticos colocando a bandeira vermelha no prédio do Reichstag em Berlim, 1945 [veja Entre Aspas, chapéu FOTOGRAFIA, nesta edição].
Fotos-ícones, representações da realidade são desmoralizadas décadas depois e convertidas em lixo da história. A imagem pintada a óleo de Napoleão no seu cavalo branco ou Cabral desembarcando no Brasil são mais verazes?
Como se não bastassem estas ameaças externas o fotojornalismo sofre uma outra, interna. Arma-se em todo o mundo uma perigosa tendência para a armação de fotos não por parte dos fotógrafos, mas a partir dos fotografados. Desde 1968, em Praga, quando aquele jovem tcheco postou-se diante do enorme tanque soviético, multiplicam-se as situações em que a fotografia é artificialmente construída pelos seus protagonistas.
Se o fotógrafo resistir ao artifício e não clicar, leva bronca do chefe. Se submeter-se à armação, sua foto poderá estar nas primeiras páginas do mundo inteiro e ganhar um monte de dinheiro. Mas no dia seguinte, diante do espelho, estará olhando para um fraudador. Ou, no mínimo, um irresponsável.
Um dos paradoxos desta era da comunicação de massa é que os comunicadores podem estar sendo iludidos. Junto com os leitores ou telespectadores que recebem suas mensagens. E os manipuladores não estão nas redações ou em Wall Street, mas nas ruas sendo fotografados ou filmados.
Estas considerações apareceram numa conversa deste Observador com um grande fotojornalista brasileiro a propósito de duas fotos, praticamente idênticas, reproduzidas recentemente com destaque nos principais jornais do país: um padre (com o boné do MST) ajoelhado, de braços abertos diante da tropa de choque da PM no Pará e um índio, em Porto Seguro, também ajoelhado diante da tropa de choque que avança implacável.
Convém pensar sobre o assunto.
Frases
Texto de encerramento do documentário sobre O Cruzeiro que apresentamos no programa do 2º aniversário do Observatório na TV (2/5/00):
"O comando da revista achou que podia tudo.... Ora, o jornal e a revista são uma transação da equipe com o seu público... A direção deve servir o público com fidelidade... Qualquer desvio leva ao desastre... A morte das publicações costuma ser mais lenta do que a sua própria vida... [Carlos Castello Branco, editor de política (1954-1961) de O Cruzeiro]
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Pergunta perturbadora que circulou no prédio das Nações Unidas (Nova York) no Dia Internacional da Liberdade de Imprensa: "Quem da própria mídia tem condições de assegurar honestidade, objetividade e responsabilidade?"
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