Alberto Dines




Crise da PM mineira: o que é nacional?
Mais uma vez e com o mesmo assunto evidencia-se como estão confusas em nosso jornalismo impresso e diário as definições sobre o que é nacional, regional e local e como é arbitrária a segmentação do noticiário em cadernos.

Sobre o assunto, em primeiro lugar, há que destacar a cobertura do JB - de longe, a melhor de todas tanto no dia 25 como no dia 26 de junho. Não apenas pelo volume de informações e referências distribuídos em quatro páginas sob a retranca "Brasil" (a mais nobre do jornal, evidentemente) mas pela agilidade em produzir um editorial logo no dia seguinte aos acontecimentos na Praça da Liberdade.

Seu concorrente, O Globo, não acreditou na gravidade da situação, seja pelo destaque na primeira página como pelo espaço concedido nas páginas internas, embora dentro da retranca de política nacional.

O vexame foi dado pelos jornalões paulistas, justamente os mais encarniçados na cadernização (isto é, fragmentação) do noticiário. A Folha jogou a crise que poderia tocar fogo no país (o perigo ainda não passou) no caderno "S. Paulo" e o Estadão no caderno "Cidades", dentro de um lógica visivelmente paroquial e provinciana de que aquilo que acontece numa cidade que não seja São Paulo não pode ser considerado nacional e, portanto, não é fato político merecedor de ser acolhido nas páginas nobres do primeiro caderno. Nenhum dos dois opinou sobre o assunto no primeiro dia.

O mais pitoresco aconteceu com a merecidamente celebrada Gazeta Mercantil: não deu uma linha na edição do dia 25, ignorando as graves implicações econômicas do episódio. Mas, no dia seguinte, tratou do caso em editorial. Vacilo do nosso jornal-pauta.


Sua Majestade, a Pesquisa de Opinião
O Real salvou a nossa economia em 1994 e agora, no seu 3o aniversário, salvou nossas edições do domingo 29/6. Todos esmeraram-se em comemorar a efeméride, o que é um feito, considerando o nosso proverbial descaso com a continuidade das coberturas e o dimensionamento dos fatos.

E todos - menos um, O Globo - o fizeram basicamente da mesma maneira. Abriram mão do jornalismo de campo, ou de reportagem, e convocaram os sociólogos de plantão com suas indefectíveis sondagens de opinião pública. A Folha chegou a fazer uma aferição prospectiva e premonitória: perguntou aos leitores como é que imaginam o seu poder de compra no day after do 3o aniversário. A dramática conclusão é de que a expectativa negativa dos entrevistados sobre o seu poder de compra aumentou - de 24% no ano passado para 28% este ano (e a margem de erro?).

O Estadão, sempre otimista, publicou interessante estudo produzido pelo Seade/Dieese mostrando um recuo no rendimento dos ocupados, matéria que não mereceu ser citada no resumo da primeira página.

O problema dos preços - jogados abusivamente para o alto quando da implantação da nova moeda - passou em brancas nuvens. Como se não tivesse importância na enxurrada das importações, no declínio das exportações, na estagnação do turismo interno e na explosão do turismo externo, devorador de divisas.

Três anos depois de contida a hiperinflação nossos jornais não se deram conta de que, embora com o preço igual ao dos melhores jornais do mundo, continuam insistindo num jornalismo de resultados com esforço mínimo.


Obituário errado, mata duas vezes
O personagem de hoje é a História de amanhã. Ao fazer um perfil ("perfilar", como já se diz no jargão profissional), vivo ou falecido, o jornalista precisa lembrar que seu texto será usado como referência e fonte para historiadores, biógrafos e outros jornalistas.

Os dois jornalões cariocas, ao contrário dos paulistas, dão bastante atenção aos obituários, mais O Globo do que o JB. Mas ambos erraram na edição do dia 18 de junho ao noticiar o falecimento de Maurício Nunes de Alencar, irmão do governador do Rio, Marcelo Alencar, empresário-empreiteiro.

Ambos apresentaram-no como o último dono do Correio da Manhã, um dos mais importantes jornais da nossa história republicana. Errado. Arrendou o jornal à viúva do último proprietário, Niomar Bittencourt, e entregou-lhe um esqueleto.

O Globo disse que o Correio deixou de circular em 1972 e o JB disse que fechou em 1974. O Globo errou. A última edição do CM foi em 8 de julho de 1974, há exatos 23 anos.

Ambos esqueceram de um detalhe importante: o falecido comprou de Samuel Wainer a sua querida Última Hora. O episódio está contado de forma emocionada e dramática nas últimas páginas de Minha Razão de Viver (Ed. Record), onde Samuel pinta Maurício e o episódio com cores muito vivas - que os obituaristas não precisam endossar mas não podem ignorar.

Se há um gênero da historiografia que os jornais não podem descurar é a história do jornalismo.


Euforia excessiva com a lei das teles
O entusiasmo dos grandes jornais com a aprovação da Lei das Teles em suas edições de 19/6 foi exagerado, mesmo porque já o haviam demonstrado poucas semanas antes quando foi aberta a concorrência para a Banda B.

Já se sabe que pelo menos cinco dos grandes grupos jornalísticos estão associados aos consórcios que disputam a telefonia celular.

A euforia pelo advento da "Nova Era" é infundada porque o cidadão comum só vai começar a sentir os benefícios da participação privada nas telecomunicações no mínimo dentro de um ano. Até lá, estamos no passado.

Come pizza quem quer
A leitura comparada das edições dos jornalões no dia 20/6 pode produzir um cardápio de pizzas. Ou aula prática de como os jornais encurtam a vida útil dos escândalos.

A surpreendente absolvição do PM, réu confesso da chacina da Candelária, foi manchete de primeira página apenas no Globo e na Folha. O Estadão citou o aberrante caso num titulozinho da 1a e o JB, sediado no Rio, não o considerou importante para ficar acima da dobra. A desculpa de que acontecera na manhã do dia anterior (19) não cola, porque raro é o dia em que um ou outro jornal não repete em manchete o que os telejornais noticiaram ao longo do dia anterior.

Nas mesmas edição os jornais deveriam espantar-se com a absolvição do deputado federal Marquinhos Chedid (PSD-SP), em sessão secreta da Câmara, das acusações de extorsão no chamado Escândalo dos Bingos.

A fleugma foi britânica: para o JB e Folha, o assunto não merecia as galas da 1a página, foi para dentro. Para o Estadão, o caso valia menção na 1a, porém abaixo da dobra. O Globo foi o único a nobilitá-lo com uma chamada acima da dobra.

O misterioso charme de Maluf
Ex-prefeito, ex-governador, ex-Geny, ex-Superman, eterno candidato a alguma coisa importante, Paulo Maluf exerce um inexplicável poder de sedução sobre nossos editores e colunistas de política. Era imbatível para a presidência depois de 15 de novembro passado, mas quando começaram a pipocar as evidências sobre a manipulação na venda dos títulos públicos da cidade de São Paulo foi poupado.

Jamais foi chamado para a CPI dos Precatórios e a imprensa acha isso normal. O sucessor de Maluf, Celso Pitta, tem os seus bens embargados pela Justiça, mas os de Maluf estão intocados. O governador de Santa Catarina está ameaçado de impeachment porque seus subordinados estariam comprometidos com a "cadeia de felicidade" e Maluf passa incólume num caso idêntico de responsabilidade final.

Maluf foi jantar no Palácio do Alvorada com o presidente e os jornais apresentam-no como o nocauteador de Mário Covas, esquecidos da arrogante declaração de Maluf, logo após o último pleito, de que se FHC quisesse falar com ele que viesse à sua casa.

Maluf consegue ter as simpatias da Folha e contornar a antipatia do Estadão, fascina Boris Casoy e os opinionistas de esquerda. Precisa contar aos pósteros como é que consegue tudo isso.


Quem é liberal - aqui e lá
Em Denver, o presidente Bill Clinton referiu-se às recentes "vitórias liberais" na Europa (Blair na Inglaterra e Jospin na França). Acontece que no universo político anglo-saxônico, os liberais equivalem ao que chamamos de progressistas. Conservadores estão à direita. Os Kennedy e Roosevelt sempre foram tachados de liberais e próximos dos comunistas. A imprensa de Nova York é liberal, defende os direitos civis, é simpática a Fidel, tenta enquadrar sempre que pode as tabaqueiras.

Filósofos e pensadores políticos dos séculos 17 e 18 que deram base ao Estado de Direito e à democracia representativa também fazem parte de uma corrente designada em todos os dicionários e enciclopédias como Liberalismo.

Mas aqui, por força da diabolização do neoliberalismo econômico, chamar alguém de liberal em política equivale a xingá-lo de reacionário. Com isto, nossos politicólogos terão que reescrever os seus manuais para que, num futuro provão, seus alunos não venham a designar o Iluminismo como um movimento precursor da globalização da economia.

Isto ajudará o senador Requião, que já se lançou como candidato não-liberal, a evitar o linguajar antiliberal dos integralistas dos anos 30.


Os repórteres estavam
lá e não viram

Viram, claro. Mas a "pauta" não pediu. Aconteceu no dia 26/6, em S.Paulo, na cerimônia de lançamento da 24a edição de Melhores & Maiores da revista Exame, um acontecimento no calendário empresarial brasileiro. Na presença do ministro da Fazenda, Pedro Malan, foram entregues os prêmios em cada setor da economia e o grande troféus à Empresa do Ano, a TAM, na pessoa do seu presidente Rolim Amaro.

No saguão, um grupo de viúvas e parentes da vítimas da tragédia do Fokker da mesma companhia que caiu no ano passado distribuíam panfletos reclamando do descaso da TAM no pagamento das indenizações. Foi uma manifestação disciplinada e bem comportada, porém visível a todos os que chegaram ao salão.

Quando Rolim Amaro terminou o seu discurso (onde omitiu inteiramente o acidente), uma das viúvas levantou-se da audiência, foi até o pódio, disse-lhe algo, entregou um documento e educadamente voltou ao seu lugar.

Impossível que alguém, estando no salão, não tivesse reparado no episódio. Os repórteres presentes não o registraram nas suas matérias do dia seguinte. Certamente porque ali foram para ouvir o pronunciamento do Ministro - não estava no programa falar do desastre da TAM.

A Veja (edição 1502), da mesma Editora Abril, registrou o ato e também ignorou o incidente. Na matéria de capa da revista Exame, um dos pontos altos da TAM - além dos índices de rentabilidade, etc. - foi o seu comportamento transparente e solícito logo em seguida à tragédia, tratado extensivamente inclusive na titulação.

Se a revista anfitriã põe o dedo na ferida por que a pá de cal dos outros?


Boca livre em Mônaco
pede boca no trombone

Colunáveis e colunistas em penca viajaram para Mônaco com todas as despesas pagas, para participar do festival em homenagem aos 700 anos do reino. Mônaco, ao contrário de Luxemburgo, apesar de emitir passaportes e ter um monte de cônsules honorários, é uma empresa, com grandes interesses no setor de cassinos. Nada contra a legalização do jogo em nosso país (inclusive do bicho), mas a postura certa seria que jornalistas não se envolvessem neste tipo de tournée.


Atenção para a
inventividade dos anúncios

Em sua edição de 28 de junho, na capa posterior de um dos cadernos de cultura, o Estadão publicou um anúncio colorido de quase uma página pago por uma fábrica de móveis. Na tripa superior que sobrou há uma pequena matéria encimada por uma manchete que ocupa toda a largura da página: "Michael assume homossexualismo". Trata-se de uma história sem pé nem cabeça relacionada ao anúncio em baixo.

Paginada com todas as características de matéria redacional (as diferenças gráficas são imperceptíveis ao leitor comum), só tem a diferenciá-la, num canto debaixo da data, a chancela de que se trata de Informe Publicitário.

Um jornal desta importância com uma empresa deste porte não precisam recorrer a estes expedientes. Para tirar as dúvidas levem o caso à SIP (Sociedad Interamericana de Prensa).


Cuidados com a pronúncia e a grafia
Jornal impresso, ao contrário das rádios e tvs, não precisa preocupar-se com a pronúncia de nomes estrangeiros. Mas a grafia de certos idiomas, quando transposta para o português, podem produzir erros.

Exemplo é o caso do ex-ministro da Justiça argentino, Elias Jassan, que acaba de ser derrubado por implicações com a malha do empresário Alfredo Yabrán. Acontece que em espanhol o "jch gutural" equivale, para nós, a um "h" bem aspirado ou um "ch" gutural. Lido em português, Jassan, tem outro som. O certo seria grafar Hassan. Por esta razão os jornais franceses escrevem Eltsine e não Ieltsin e, antes dele, Garbachiov e, não, Gorbachev.


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O dia em que entramos no Primeiro Mundo - e a nossa imprensa atolou-se na Banda B

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