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REVELAÇÕES DA CIMEIRA
A mídia prefere Davos
(ou a força das aspas)
O DESCOMPASSO entre a importância de um fato e o destaque que merece da imprensa pode ser estudado através da cobertura da reunião dos chefes de Estado da América Latina, Caribe e União Européia. Porque na formatação das coberturas, na edição das matérias e, sobretudo, na pobreza das pautas patenteia-se um padrão jornalístico voltado para reproduzir declarações ou ciscar o fait divers.
O que hoje no Brasil leva o nome de jornalismo é, na verdade, uma simulação de jornalismo: um conjunto de informações fragmentadas, desprovidas de referências, teatralizadas por pronunciamientos e temperadas por pitadas de trivialidades.
Com tais paradigmas só é possível acompanhar situações, eventos e acontecimentos capazes de ser personalizados, visualizados por verbos fortes, quantificados por ordens de grandeza ou movimentados por aspas.
É por essa razão que os encontros anuais do Fórum Econômico em Davos, no Alpes suíços, costumam merecer uma trepidação mediática que não foi concedida à Cimeira do Rio. O que esta cobertura teve a mais foi o fato de realizar-se no Brasil, na mesma cidade onde se editam dois dos cinco jornais ditos nacionais e a 450 quilômetros de distância da sede dos outros três.
A Cimeira foi tratada como um fato localizado com personagens internacionais e, não, como o início de um processo histórico com profundas implicações em nosso sistema econômico e cultural. E porque foi visto como um evento carioca, os jornais cariocas criaram cadernos especiais e os editados em São Paulo, capital econômica do país, comportaram-se com distanciamento.
Como a Cimeira marcou o início de um processo histórico e político não foi capaz de produzir infográficos (a não ser para descrever as mudanças no trânsito do Rio). E, sem essas muletas visuais, nossas matérias não "fecham" – não resultam nem concluem. Ficam vagas e distantes.
Outra conclusão interessante: para Davos despacham-se as vedetes do jornalismo e para compensar o fabuloso "investimento" (passagem para a Europa, em geral sob permuta, diárias e hospedagem) convenciona-se que deverá haver um "retorno": muita matéria e grandes manchetes de primeira página.
Os enviados para eventos como Davos são colunistas, em geral profissionais mais experimentados. Para um evento no Brasil, sobretudo numa cidade onde há uma grande sucursal ou é sede da redação central, prefere-se deixar os colunistas nas respectivas bases. Se quiserem, comentam de lá mesmo. Houve exceções que não chegaram a produzir grandes diferenças no resultado final.
O assunto merecia uma dissertação de mestrado ou tese de doutoramento – se houvesse pós-graduação em jornalismo mesmo (só há em "comunicação", ciência de coisa nenhuma). Mas pode servir de inspiração para sociólogos ou politicólogos refletirem sobre uma sociedade que não consegue superar-se porque não dispõe de prismas capazes de revelá-la.
Figura 1: Edição nacional |
Como brigar com a notícia
É UMA EXPRESSÃO caída em desuso nas redações: "Brigar com a notícia" significa forçar a barra. Dar excessiva importância ou, ao contrário, minimizar uma notícia relevante através de critérios não-jornalísticos. Denota manipulação. Nos bons tempos do "jornalismo romântico" este tipo de intervenção chamava a atenção. Hoje, corriqueiro, passa despercebido.
A cobertura da Cimeira do Rio pela Folha de S.Paulo enquadra-se perfeitamente nas avaliações acima mencionadas. E merece três reparos adicionais:
- A Folha é autocentrada, portanto tudo o que acontece independente de sua vontade deve ser insignificante.
- Como o Rio está fora da sua área de influência direta, o Rio não importa.
- Além disso, como o governo brasileiro foi protagonista do evento e a Folha é de oposição, a Cimeira deve ser secundarizada. Mesmo que a imprensa européia tenha lhe concedido um bom destaque.
Figura 2: Edição local |
A capa da edição da terça-feira é um caso de estudo. Dia seguinte da abertura, indispensável minimizá-la. Assim na edição nacional (aquela que roda primeiro e segue para as principais cidades do país), preferiu-se valorizar a denúncia contra o BNDES. Mas como o jornal tem alguma circulação no Rio onde ocorria a reunião, a chamada sobre a abertura ficou no alto. [veja Figura 1]
Já na edição local, a direção do jornal achou que a cassação de um vereador era mais importante do que o encontro no Brasil de 48 chefes de Estado e de governo. Como transcorria no Rio, por força dos preconceitos supracitados, relegou o fato para abaixo da dobra. [veja Figura 2]
Jornais que brigam com a notícia acabam sempre com olho roxo.
CARTAS
Caro Dines,
Se o comentário tivesse partido de outra pessoa, provavelmente eu não me incomodaria, mas, pelo grande respeito profissional que lhe tenho, escrevo para dizer que acho que você foi bastante injusto com o Jornal do Brasil na avaliação que fez em seu artigo de 3/7 sobre a cobertura da Cimeira.
A exceção que você fez à "imprensa carioca", quando disse que os jornais paulistas trataram o encontro com descaso e menosprezo, não reflete o que realmente aconteceu em relação ao tema na mídia do Rio de Janeiro.
O JB, apesar de suas conhecidas limitações de recursos, foi o que melhor refletiu, inclusive na primeira página, a importância do encontro inédito de todos os países da América Latina, do Caribe e da União Européia. O jornal começou a tratar do tema bem antes de seu principal concorrente carioca – primeiro na editoria de Cidade, logo depois com matérias mais aprofundadas na Internacional e na Economia. A partir do dia 20 de junho, uma semana antes da Cimeira propriamente dita, o JB pôs em campo uma equipe com seus repórteres mais preparados e experientes, de praticamente todas as editorias, que passaram a se dedicar exclusivamente ao assunto. Fomos os primeiros a ter contato com diversas delegações diplomáticas que vieram preparar os documentos do encontro e a chegada dos 48 chefes de Estado e Governo. Por isso, pudemos antecipar informações que só mais tarde seriam publicadas pelos outros jornais.
Mais importante, entretanto, foi o fato de o JB ter decidido tratar a Cimeira em suas dimensões históricas e políticas, sem nos prendermos exclusivamente à questão dos acordos comerciais que estavam em discussão paralelamente à cúpula propriamente dita, notadamente eodadas de negociações comerciais nas quais o Brasil estará diretamente envolvido – na OMC, com a UE, com o Mercosul, nas Américas (Alca). úmero de comércio ou de negócios que pudesse "traduzir" a importância do encontro – número que não existia –, nós achamos que já era mais do que suficiente termos 48 países ligados pela história e pela tradição política a discutir temas internacionais que às vezes parecem obscuros mas que sabemos afetam ou afetarão a vida de todos os brasileiros.
Temas como as reformas do sistema financeiro e da ONU, a hegemonia americana e a multipolaridade, a Justiça internacional, a soberania e os direitos humanos, a participação das ONGs (também fomos os únicos que cobrimos diariamente o encontro paralelo não-governamental), o tratamento das minorias, a retomada do intercâmbio cultural e educacional entre os dois continentes e, claro, também as próximas rodadas de negociações comerciais nas quais o Brasil estará diretamente envolvido – na OMC, com a UE, com o Mercosul, nas Américas (Alca).
É claro que não reivindicamos o mérito de ter feito um trabalho perfeito – sabemos que ficamos longe disso e as críticas quanto às nossas falhas são logicamente bem-vindas. Mas achamos que, pelo menos desta vez, podemos nos livrar da vala comum. Um abraço,
Claudia Antunes, editora de Internacional do JB
Alberto Dines responde: Cara Claudia, compreendo e me solidarizo. O JB esforçou-se muito, considerando os problemas que enfrenta, mas também o Globo. O artigo publicado na página de opinião destinava-se ao leitor não-especializado, gancho para considerações mais amplas, como faço sempre. Elogiar o JB no JB seria simplesmente ridículo. Também no Observatório on line procuramos fugir das "premiações". Preferimos ressaltar as disfunções partindo do pressuposto de que fazer bom jornalismo é obrigação dos jornalistas. E vocês saíram-se muito bem. Abraços, A. D.
PESQUISA
Qual a opinião
da opinião pública?
NO DOMINGO, 27/6/99, os dois jornalões paulistas baseados em seriíssimas e honestíssimas sondagens de opinião publicaram resultados diametralmente opostos. Preocupados com a transcendental questão do fechamento dos bares paulistanos à 1 da manhã, encomendaram pesquisas aos respectivos ibopes.
O InformEstado informou que 56% dos moradores da capital são contra a lei aprovada pela Câmara Municipal. Mas o DataFolha garante que 67% são a favor do fechamento.
É evidente que as enquetes foram feitas sem critérios estatísticos rigorosos, em cima do joelho, só para render uma materiazinha leve no domingão do jornalão.
A discrepância mostra a precariedade de um recurso tornado essencial no jornalismo brasileiro. Só podemos saudar a contradição.
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O lobby das
universidades privadas
EM DETERMINADOS dias da semana (variam de jornal para jornal), as universidades particulares ficam em segundo ou terceiro lugar no ranking dos anunciantes dos primeiros cadernos. É um dos segmentos emergentes que, neste momento do ano, tem o seu ponto alto.
Embora concedam descontos especiais, os departamentos comerciais das empresas jornalísticas não querem perder o filé. Isso explica porque as redações vivem controladas e não investigam as aberrações "acadêmicas" do ensino superior privado – muitas delas anunciadas nos próprios jornais.
Claro que existem instituições privadas sérias, de alto gabarito. Não nos cabe fazer a avaliação, mas podemos garantir que as exceções são poucas. O panorama geral revela uma grande fábrica de diplomas com ênfase em cursos que não demandam investimentos, em geral supérfluos, e uma linha de cursos de extensão do tipo caça-níqueis.
Se no Brasil houvesse uma Fortune para listar os milionários com os respectivos setores encontraríamos os donos de universidades privadas em pé de igualdade com banqueiros, industriais ou grandes comerciantes.
O grande inimigo das universidades privadas é o MEC e os seus órgãos de fiscalização. O grande lobista do setor é o imortal Arnaldo Niskier, colaborador regular de jornais politicamente tão díspares como O Globo e a Folha mas tão iguais quando se trata de cortejar o mercado.
As revistas semanais (que não dependem da publicidade das empresas de ensino superior) poderiam investigar o assunto. Pode render.

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