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A culpa é do Ronaldinho.
Quem manda ser famoso?

Os responsáveis pela redação de Veja acharam normal a matéria de capa com o craque (edição 1608). Tanto que recusaram-se a comentá-la no programa Observatório da Imprensa (TVE-TV Cultura, 3/8/99). Também consideraram perfeitamente lícito o outdoor com que a Abril semanalmente promove as capas do seu carro-chefe.

Apesar da majestática indiferença, esta foi a capa mais comentada dos últimos tempos – questão unânime nas conversas das redações e adjacências do eixo São Paulo-Rio na semana de circulação da revista. E pelas piores razões. Caetano Veloso, vítima e atento observador da mídia, considerou a peça como jornalismo marrom [veja remissão abaixo]. Para este observador, a peça coroa uma incrível sucessão de infelicidades – para dizer o mínimo – exibidas neste último ano por uma publicação que completa seu 30Ί aniversário.

O que há de errado com a matéria?

Para começar, o título da capa: "Vítima da Fama". A revista finge que está defendendo o jogador mas no subtítulo escancara o sensacionalismo barato: "Ronaldinho tem o nome envolvido num escândalo de prostituição na Itália".

O que significa ter o nome envolvido ? Não seria uma forma capciosa de insinuar que está envolvido?

Que fatos serviram para fundamentar esse envolvimento ? O que diz a matéria ?

** Diz que a imprensa italiana – considerada pela própria Veja como espalhafatosa – apresentou o craque como POSSÍVEL cliente de uma rede de prostituição encabeçada por uma brasileira. Se a imprensa italiana é apresentada como irresponsável (esqueceram de dizer que no verão o é ainda mais), como pode uma publicação que se pretende séria montar uma matéria de capa baseada exclusivamente neste espalhafato?

** Diz também que "oficialmente Ronaldo não é acusado de cometer crime algum". Se não é acusado de crime algum, por que razão foi parar na capa da mais importante revista semanal de informações?

** Veja também informa que "por mais naturais que se considerem encontros amorosos de um rapaz de 22 anos como mulheres de vida airada, a história ganhou expressão porque Ronaldinho é famoso."

** Acrescenta que o processo sigiloso na justiça italiana TERIA 36 fotos envolvendo a tal rede de prostituição comandada pela brasileira Lara. "O craque aparece em pelo menos sete [fotos] cercado por algumas das quinze meninas de Lara". Nem os autores da reportagem – escrita no Brasil – nem a espalhafatosa imprensa italiana que serviu de suporte informativo à Veja tiveram acesso ao processo ou às fotos.

Os principais depoimentos sobre os quais foi montada a reportagem são:

1) Uma brasileira (que se assume como prostituta), admite ao delegado italiano – que por sua vez vazou para a espalhafatosa imprensa italiana – ter mantido relações sexuais com o brasileiro, que lhe pagou 1,5 milhão de liras. A moça confessa que cheirou cocaína mas Ronaldo não tocou no pó.

2) A ex-namorada do jogador afirma categoricamente à reportagem de Veja que "Ronaldo nunca me traiu durante os três anos de namoro". Em seguida, declara que não gostava das más companhias com as quais o então namorado estava envolvido na Itália e no Rio. Apesar da evidente contradição, o editor da matéria optou pela frase comprometedora para a legenda da foto da ex do jogador. E por que não preferiu a de teor favorável? Questão de livre arbítrio.

3) Desmentido enfático de Ronaldo aos repórteres composto de 35 palavras (7 linhas) numa matéria de SEIS páginas.

Parte da matéria é usada para relembrar uma rede de prostituição em Hollywood, onde também havia uma agenda com nomes famosos. É o recurso da referência comprometedora que nem os tablóides ingleses usam mais. Ao que consta, os semanários Time e Newsweek – que a Veja considera seus equivalentes – não exploraram em matérias de capa as figuras de Jack Nicholson ou Mick Jagger cujos nomes constavam do caderninho da rede americana.

O fecho da matéria é uma jóia de inocência. Profissão de fé da nova ética midiática. Ou cinismo puro e simples:

"Nessa história toda de envolvimento [grifo nosso] com prostitutas, Ronaldinho fez o que todo rapaz de sua idade faz. A diferença é que, quando pessoas famosas se envolvem nessas coisas, vira escândalo."

Em outras palavras: as celebridades são inventadas pela mídia para servirem aos seus mais sórdidos instintos.

 

Quem é o responsável por
um outdoor irresponsável?
(ou: a globalização da indigência)

Eis um caso para ser submetido ao egrégio Conar, Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária, que o patronato da mídia e algumas autoridades como o presidente FHC apontam como modelo de autocontrole.

O gigantesco outdoor que a Abril oferece à população do Rio e São Paulo às segundas-feiras para promover a capa de Veja às vezes consegue ser mais apelativo do que a própria capa da revista. Dos males o menor: troca-se o publicitário pelo jornalista e o cliente será melhor servido.

Desta vez, açulada pelo clima marrom da capa com o Ronaldinho, a agência exagerou na ânsia de fazer gracinha:

"Primeiro a convulsão. Agora a confusão" [veja reprodução]

Primeiro pecado: propaganda enganosa. Até hoje ninguém sabe se no dia do jogo com a França o jogador efetivamente sofreu uma convulsão. A única referência à tal convulsão na matéria aparece no final, em quatro linhas, repetidas discretamente num infográfico sem qualquer destaque em título, subtítulo, entretítulo ou legenda. O publicitário manipulou e subverteu o teor da matéria, isto é, do produto. Enganou o consumidor. Se o Conar não se mexer, liguem para o Procon.

Segundo pecado: quem inventou a confusão foi o publicitário porque, segundo a conscienciosa Veja, não há mal algum que um rapaz de 22 anos rico, bonito, freqüente prostitutas. Se Ronaldinho é uma pobre vítima da fama, o anúncio cumpre o papel de carrasco.

Caso exemplar para entender como funciona o sistema (ou circuito) midiático. A globalização da indigência: um jornalista italiano sem assunto (porque o verão lá está brabo) insufla um factóide; um coleguinha brasileiro magnifica-o como "escândalo" (porque o recesso parlamentar de inverno acabou com os vazamentos); então entra em cena um publicitário criativo, doido para ser premiado em Cannes, que aproveita o passe e chuta em gol.

Essa é uma pelada onde vale tudo. O que importa não é a qualidade do jornalismo que se pratica, mas o bônus que o alto escalão de algumas redações recebe no final do exercício.

Locaute ou greve?
Mídia novamente atropelada

Editorialistas e opinionistas reclamaram que o governo não levou a sério a paralisação dos caminhoneiros.

E a mídia, soube dimensionar a parede?

Vejamos as edições de terça-feira, 27/7/99, dia seguinte ao início do movimento: apenas o Estado de S.Paulo publicou uma chamada forte no alto da primeira página. A Folha não acreditou, deu chamada abaixo da dobra. (Edições analisadas: as últimas, São Paulo, para assinantes).

Nenhum dos dois jornalões cariocas deu chamada na primeira página (edições analisadas: as nacionais, as primeiras a rodar e que circulam pelo país).

O assunto só ganhou a dimensão jornalística nas edições de quarta-feira. Mais como repercussão do que como informação. A rapaziada da reportagem, desacostumada, atarantou-se. Registre-se também a aberração da Folha em colocar um assunto que afeta a população inteira no caderno Dinheiro, usualmente destinado ao noticiário de economia & negócios.

Foi nas edições de quinta-feira que todos afinal saíram da letargia: em matéria de reportagem de campo a Folha brilhou, mas em matéria de edição foi um desastre (matérias iguais, descoordenação etc.). Foi neste dia que a Gazeta Mercantil lembrou-se de que caminhoneiro não é operário, mas empresário, passando a designar a paralisação como lock out. Mas não se deu ao trabalho de explicar a tomada de posição.

Até sábado ninguém havia se lembrado de explicar a diferença entre greve e lock out. Ou mencionar a greve dos caminhoneiros no Chile, pouco antes do golpe contra Allende. Nem de Jimmy Hoffa, o filme com Jack Nicholson e os teamsters americanos. Um articulista do Jornal do Brasil lembrou-se disso tudo mas não mereceu primeira página. Na sua edição de domingo (aquela, a requentada em banho-maria) a Folha atualizou-se graças ao JB.

O governo comeu mosca antes do lock out (ou locaute), mas a mídia que em países desenvolvidos funciona como radar aqui continuou em clima de recesso.

 

Bendita apelação:
IstoÉ derruba dois tabus

O semanário da Editora Três está procurando preencher os espaços deixados por Manchete nos cabeleireiros, academias e consultórios. As duas últimas capas (com o jovem Kennedy e o apocalipse de 11 agosto de 99) demonstram a opção estratégica [veja reprodução].

No bojo desse escancarado nivelamento por baixo, duas matérias lavam a alma. Ambas publicadas na edição 1556 (que abre com uma entrevista da "esfuziante" apresentadora Hebe Camargo). A primeira, com sete páginas, levanta a ponta do véu sobre a maneira de agir do senador ACM a propósito do episódio da Ford na Bahia. Importante mesmo são as revelações sobre a "máquina" carlista no vice-reinado da Bahia e a sua ponta de lança, a TV Bahia. São insignificâncias no mar de histórias que ainda falta contar. Mas é um começo.

O outro tabu desfeito revela um personagem menos famoso e não menos poderoso, Ronad Levinsohn, o dono da Caderneta de Poupança Delfin que armou, em 1982, o primeiro grande escândalo no sistema financeiro logo abafado pelo esquema militar e seus braços na tecnocracia e na mídia. O rombo da Delfin foi classificado pelo Banco Central de estelionato e calculado, na época, em 400 milhões de dólares. Levinsohn saiu ileso, mais rico do que nunca, dono de uma universidade privada que é um dos grandes anunciantes da imprensa carioca.

Nestes 17 anos nenhum jornal carioca deu conta de suas andanças passadas ou presentes. Benfeitor do empresário Ari de Carvalho, que mais tarde apoderou-se de O Dia, conseguiu proteções no Jornal do Brasil e no Globo graças a amizades com o chamado "escalão intermediário". Realizou o sonho da casa própria de importantes jornalistas e opinionistas. Em troca foi aquinhoado com uma cortina de silêncio e o salvo-conduto que lhe garante sossego e a imagem de mecenas cultural. Merece.

 

Xuxa volta a atacar,
Sasha faz 1 ano

Como o pai da menina, Luciano Szafir, é judeu, este Observador permite-se lembrar uma benção muito popular entre os judeus europeus: "Que viva 120 anos!". São os nossos sinceros votos para a linda Sasha.

Mas, convenhamos, aturar mais 119 aniversários desta criança é demais – imaginem quando debutar em 2013 ou completar a maioridade em 2016! O problema não é ela, é a mãe, Dona Xuxa, eterna gatinha, fazendo miau aos 50, 60 e 70 anos. Ou a madrinha/gerente de produto Marlene Matos, inventando superproduções a cada onomástico.

Esse é um problema de Xuxa Produções S.A., mas, como evidenciou-se na semana 25-31 de julho, é problema também da mídia brasileira. Ou daqueles que preocupam-se com o seu futuro.

Vejamos como foi comemorada a primeira efeméride da menina Szafir-Meneghel:

O Globo dedicou à festa organizada por Mamãe Xuxa o alto da sua primeira página no dia 29/7, quinta-feira [veja reprodução]. No auge do locaute dos caminhoneiros, o país apavorado ante a perspectiva de desabastecimento e o governo preparando o Exército para intervir, nossos companheiros de O Globo, evidentemente obedecendo às ordens "de cima", estampam duas fotos do transcendental evento com um título que Maria Antonieta, se jornalista fosse, não faria melhor: "A milionária festa de Xuxa para Sasha". Parabéns, Dona Marluce, é assim que se destrói a reputação que um jornal levou quase duas décadas para montar.

Época (edição 63), empenhada neste momento em justificar o slogan "a volta do prazer de ler", foi empurrada pela mesma prepotência empresarial para o mesmo poço: dedicou quatro páginas ao evento máximo da sociedade e da cultura brasileira proporcionada por Xuxa. Pelo menos, jogou-as para o fim da revista.

A maior supresa foi oferecida pela Folha de S.Paulo na primeira página dominical (1/8) ao badalar a sua Revista Folha: uma matéria sobre crianças mimadas, a propósito da festinha de Sasha. Não é a primeira vez que este extraordinário encarte semanal produzido nos laboratórios da Barão de Limeira é comentado neste Observatório: é a coisa mais Globo que se faz fora do Grupo Globo. Prova de que as diferenças entre os dois encarniçados adversários são bem menores do que aparentam. [ veja reprodução]

 

Errata

Este Observador também comeu mosca no último Circo da Notícia quando chamou o mega-inadimplente Ricardo Mansur (aquele que conseguiu quebrar o Mappin, a Mesbla e dar um rombo no Bradesco) de Gilberto Mansur – excelente jornalista, grande figura. E como essas coisas nunca acontecem sozinhas, Elio Gaspari em sua página de 1/8/99 chamou Mansur de Roberto.

 

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Caetano cai de pau



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