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A MÍDIA E O CRIME
Além dos tiros: a questão do poder
Alberto Dines
Jornais agora têm ombdusmen também chamados de ouvidores e "editores de qualidade" (públicos ou domésticos). Publicam-se erratas e a crítica dos leitores começa a ser veiculada, ainda que seletivamente. Existem alguns sites, duas revistas e pelo menos dois programas de TV que tratam exclusivamente da mídia. O seu comportamento é tema freqüente dos colunistas regulares e articulistas esporádicos. A questão da ética da imprensa virou chamariz para qualquer evento, seminário ou painel para a qual os organizadores querem chamar a atenção da própria imprensa.
Mídia e mediadores já começam a sentir-se observados. Avanço formidável na direção daquilo que alguns chamam de "controle social" dos meios de comunicação. A verdade é que a sociedade já não engole tão passivamente o que lhe enfiam pela goela com o nome de informação objetiva.
Mas persistem os mesmos mecanismos internos para produzir esta informação. Qualquer estrutura que envolva a participação humana é uma estrutura de poder e o poder nas redações continua a ser exercido da mesma forma – controlado de perto pelos acionistas. Hoje talvez até mais controlado pela introdução de sofisticados instrumentos de marketing.
Quando, em meados dos anos 80, os empresários de jornais e revistas iniciaram uma vigorosa campanha para evitar a inclusão da cláusula da obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício do jornalismo no texto da nova Constituição, não visavam apenas a questão salarial. A história deste movimento um dia precisará ser contada; por ora, interessa o real objetivo daquela cruzada: exercitar o poder selecionando aqueles que deveriam produzir as informações.
Profissão regulamentada, vitória de Pirro: os dois tiros desferidos 12 anos depois por Pimenta Neves na ex-namorada Sandra Gomide revelaram a precariedade e ineficiência das estruturas organizacionais nas redações dos grandes, médios e pequenos veículos jornalísticos.
A atual redação do artigo 222 da mesma Carta Magna favorece o caráter familiar das empresas jornalísticas brasileiras. Este formato acionário irradia-se inevitavelmente para os escalões inferiores. A melhor prova é que, nos dois jornalões paulistas, o comando efetivo da operação jornalística está diretamente na mão de acionistas sem que possa funcionar qualquer tipo de contrapoder, atenuado ou não, como acontece nos EUA e Europa.
O fato desses acionistas serem também competentes profissionais não diminui o problema. Só o agrava na medida em que descortina um generalizado desperdício de talentos ocorrido no jornalismo brasileiro nas últimas décadas, em que a unção para os cargos máximos passa ou pelo filtro da consangüinidade ou pelo crivo da obediência cega. As honrosas exceções só servem para confirmar a regra.
A disputa que se trava na família proprietária do Estadão para ver quem será o substituto de Pimenta Neves e revelada corajosamente pela reportagem de Carlos Maranhão [Veja São Paulo, edição nº 35] é outra evidência da estrutura familiar que domina os maiores grupos jornalísticos brasileiros. A modernização nas duas últimas décadas está longe de contornar a questão crucial da delegação de poder.
De nada adiantará a implementação dos mecanismos de controle externo nos veículos jornalísticos se as empresas não adotarem um mínimo de tensão interna. Conselhos de Redação, Conselhos Editoriais ou Conselhos de Editores com algum nível de autonomia poderiam ter impedido aquela dupla injustiça de converter uma repórter sem experiência em editora de economia e, logo em seguida, demiti-la [veja artigo de Otavio Frias Filho no Aspas da rubrica Imprensa em Questão, nesta edição]
Não se trata de colocar em votação cada manchete ou cada decisão editorial. Jornalismo é uma atividade que, por suas características, exige uma estrutura vertical, ágil, disciplinada. Estas características orgânicas e intrínsecas não devem impedir a introdução de ferramentas consensuais num nível decisório menos imediato.
Imperioso lembrar que o Caso Pimenta Neves respingou na imprensa inteira. A TV Globo pode ganhar pontos junto à opinião pública assumindo-se como principal acusadora do assassino confesso de Sandra Gomide, mas também sobrou para ela. No conjunto, a mídia está oferecendo uma cobertura razoavelmente objetiva, mas a questão vai além da cobertura: embute-se num modo de produção imperial, ultrapassado.
A questão do comando das redações brasileiras não pode ficar reduzida a nomes, sobrenomes, sexo, faixa etária ou atributos individuais. É preciso pensar na modernização do sistema para que o produto seja melhor. Mais confiável.
Veja urn@ eletrônic@ sobre o caso
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