Alberto Dines



Painel de Leitores
para inglês ver

Os quatro jornalões abriram mão de tomar decisões jornalísticas, preferem seguir as inclinações do círculo de leitores que consultam regularmente. A Folha, sempre mais ousada, inventou de publicar diariamente o resultado da avaliação dos leitores através de um infográfico denominado "datadia" (que em portinglês significaria "dados do dia"). Este OBSERVATÓRIO comparou as avaliações publicadas entre 24 e 27 de setembro - são praticamente iguais!

A edição do dia 23 foi considerada boa por 78%. A do dia 24, teve 76%, o dia 25, 73% e a do dia 26, também 73%. Em termos estatísticos é rigorosamente a mesma coisa, considerando as variações no número de consultados e algum erro. As demais classificações (ótima, regular, ruim e péssima) apresentam a mesma uniformidade.

Conclusão: este rigor científico não passa de um truque promocional para legitimar as eventuais concessões que se cometem em nome do mercado.

 

Vera Fischer em recesso,
a mídia não

Depois de freqüentar as ribaltas da mídia por mais de duas semanas, Vera Fischer entrou em recesso porque continua internada numa clínica no Rio de Janeiro. Quando sair, teremos nova temporada de invasão de privacidade.

No intervalo, duas matérias que deveriam ter saído no início, quando se deu a primeira internação e que talvez tivessem encerrado o assunto naquela hora: a entrevista das Páginas Amarelas de Veja com o ex-marido, onde revela o mergulho do casal no mundo da droga, e a sóbria matéria de Ruy Castro no Estadão (domingo, 28/9) sobre as celebridades e as suas dependências. Pena que a edição deste texto tenha sido feita com o espírito de tablóide - alto da primeira página, fotomontagem, como se fora o assunto mais importante da semana. Nenhum jornal americano ou inglês de qualidade derraparia desta maneira. (Ver Jornal de Debates).

 

Ditadura das pesquisas
eleitorais vai continuar

Não foram incluídos na nova Lei Eleitoral os dispositivos que disciplinavam a divulgação de pesquisas eleitorais. Estão consagrados todos os vícios anteriores e que comprometem a própria lisura das escolhas populares.

A mídia não reclamou porque é principal beneficiária do carnaval estatístico que substitui a cobertura política. O jornalismo brasileiro capitulou à pseudo-sociologia das sondagens de Opinião Pública. Este é o nome do verdadeiro Quarto Poder.

Exemplo do que nos espera: o Ibope, contratado pelo governo do Estado de São Paulo, apurou que a maioria da população acha que Paulo Maluf é corrupto. Menos de um mês depois o mesmo Ibope, agora por encomenda de Maluf, aponta-o como favorito na disputa para governador.

Há gosto para tudo.

 

Mídia curva-se
à bagunça cultural

O governo baixou nova Medida Provisória na área do Ministério da Cultura generalizando o que antes só vigorava no setor de cinema: a renúncia fiscal vigora para projetos de todas as artes. Significa que qualquer idéia contabilmente bem montada pode obter benefícios fiscais de 100%. Não importa o teor, qualidade ou idoneidade dos postulantes - quem fez as continhas certas, leva. Cultura agora é matéria secundária, vale a contabilidade.

Com um problema fiscal gigantesco, o Estado brasileiro engole esta renúncia fiscal sem ao menos dar-se ao trabalho de preparar um programa de desenvolvimento cultural para selecionar os projetos que nele se encaixem.

A imprensa exultou: vai aumentar a enxurrada de eventos e badalações para encher as páginas dos cadernos ditos culturais. Além do mais, o Ministro da Cultura foi do PT - intocável.

 

Mais uma burla
ao artigo 222!

A CBS vai iniciar no próximo 12 de outubro as emissões em português do seu canal Telenotícias. A equipe de jornalistas brasileiros, inclusive os âncoras, vai operar a partir dos estúdios do SBT em S. Paulo. O noticiário será captado em Miami e retransmitido para o Brasil.

É a mais flagrante burla ao espírito e à letra do artigo 222 da Constituição, que regula a propriedade das empresas jornalísticas. O Labjor e este OBSERVATÓRIO vêm reclamando desde 1994 uma revisão no tal artigo para evitar a desavergonhada manipulação da Carta Magna.

Acreditamos que o artigo 222 é o principal responsável pela concentração da mídia e pela descapitalização da empresa nacional, levando-a a praticar as piruetas marqueteiras que tanto desqualificam nosso jornalismo.

Precisamos diversificar a emissão de informações jornalísticas para democratizar nosso jornalismo.

Precisamos de mais postos de trabalho para absorver a mão-de-obra que sai todos os anos das 100 escolas de jornalismo do país.

Condenamos, porém, esta prevaricação com a legislação praticada pelos grandes grupos sob o olhar complacente das entidades corporativas.

Mude-se o 222 e ganharão todos. Sobretudo o leitor.

 

Do bicho à
jogatina

O jornal popular O Dia (a maior tiragem do Rio), quando era propriedade do cacique do funcionalismo, Chagas Freitas, publicava diariamente os resultados do jogo do bicho. Agora, nas mãos de novos proprietários, igualmente despreocupados com a compostura jornalística, vai entrar no negócio de títulos de capitalização (Gazeta Mercantil, 22/9).

O novo "produto" vai concorrer com a Tele-sena e Papatudo e com os sorteios da televisão recentemente denunciados em magnífica série da Folha. Convém recordar que as emissoras de TV funcionam em regime de concessão pública. E que os jornais gozam de uma série de privilégios fiscais, inclusive na importação de papel.

A jogatina é proibida mas não para a mídia.



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