Alberto Dines
O Rei está morto,
viva o Rei
(Notas sobre O Dia, Ary de Carvalho
e Chagas Freitas)
A Justiça do Rio de Janeiro não acolheu o pedido dos herdeiros do ex-governador Chagas Freitas para invalidar a venda de O Dia ao empresário Ary de Carvalho. Como foi noticiado, os herdeiros alegavam que Chagas Freitas, doente e incapacitado mentalmente, fora lesado pelo comprador.
Não nos cabe argüir a sentença. Mas convém anotar:
* Ary de Carvalho transformou a empresa e converteu o jornal num veículo de grande circulação e penetração. Contratou excelentes profissionais, paga bem, oferece boas condições de trabalho embora tenha imposto padrões descabidos e ditatoriais como proibir terminantemente manchetes de política "para não perder circulação". Foi o único jornal que menosprezou conscientemente o massacre do Eldorado dos Carajás, para tristeza dos jornalistas que lá trabalhavam.
* As operações anteriores de compra e venda de Ary de Carvalho - Zero Hora e Última Hora - não transcorreram com fluência, digamos assim. Sempre ligado aos esquemas oriundos da ditadura, sobretudo Ronald Levinson, vedete do primeiro estouro financeiro dos tempos modernos e que hoje vive confortavelmente em Nova York. Na imprensa carioca o assunto Levinson ainda hoje é tabu.
* A "vitória" judicial de Ary de Carvalho foi proclamada em anúncios de página inteira nos quatro jornalões nacionais, porém paginados de forma capciosa, parecendo uma grande enquête jornalística onde figuras de projeção política saúdam a sentença. A própria matéria de O Dia (21/10, pg. 3) foi editada como anúncio. Consagra-se assim, sob forma de matéria paga, o "estilo de jornalismo empresarial".
* Entre os exultantes com a derrota dos herdeiros de Chagas: Delfim Netto, amigo pessoal de Ary de Carvalho desde os anos 60, Paulo Cabral, presidente da ANJ, a senadora Benedita da Silva (PT-RJ), prefeitos do Rio, Campos e S. João de Meriti (onde o jornal tem grande penetração), Fafá de Belém e outros de igual importância.
* Chagas Freitas, deputado eleito em sucessivos mandatos pelo funcionalismo público do Rio, foi ademarista e, depois, da ala direita do MDB. Governador biônico da Guanabara, quando favoreceu o empresariado jornalístico e imobiliário. Presidente vitalício do sindicato patronal de jornais do Rio de Janeiro. Embora não sentassem à mesma mesa, Chagas sempre conseguiu o consenso entre os parceiros, inimigos figadais. Este sindicato foi o núcleo gerador da ANJ em 1980, depois da greve dos jornalistas de 79.
O rei está morto, viva o rei! Quem diria que Chagas Freitas, o patrono do patronato jornalístico brasileiro, seria tão aviltado depois de morto. A história continua.
Listas negras
ainda estão ativadas
O jornalista Mino Carta, diretor de Carta-Capital, recebeu na quinta-feira, 30/10, em Roma, um prêmio do governo italiano pelo trabalho em prol da aproximação Brasil-Itália. A Ansa transmitiu amplo noticiário em seu serviço do dia 31.
Mino Carta trabalhou muitos anos no Estadão - que nada publicou a respeito.
Mino Carta foi diretor e fundador do Jornal da Tarde - que nada publicou a respeito.
Mino Carta foi diretor e fundador de Veja - que nada publicou a respeito.
Mino Carta, foi fundador e diretor de IstoÉ - a única que fez o devido registro.
Menem e a arte de
ajustar a realidade
A derrota de Carlos Menem nas eleições legislativas foi saudada duplamente pela imprensa brasileira. O oportunismo e a malandragem do presidente argentino é a nota dissonante nesta fase de ouro das relações bilaterais.
Mas os opinionistas de oposição entusiasmaram-se ainda mais. Tentaram provar que a derrota do oficialismo diante da frente ampla de oposições argentinas sinaliza a derrota de FHC em 98 diante das esquerdas unidas.
Esta sujeição da realidade ao desejo (chamado de wishful thinking) foi desfeita pelo cientista político argentino Vicente Palermo, que há três anos faz a ponte-aérea Rio-Buenos Aires. Conhecedor profundo da situação política dos dois países, o prof. Pallermo diz que a vitória das oposições argentinas não é contra FHC mas inspira-se justamente no seu exemplo, graças a sua capacidade de viabilizar alianças e aproximações.
A entrevista saiu com destaque na Gazeta Mercantil (29/10, p.A-8), ninguém comentou.
Domingão dos jornalões
também tem baixaria
O Estadão capitulou: também aderiu à moda de descaracterizar-se no seu dia mais nobre para atender aos leitores menos exigentes. A capa de 2/11 esquece o mundo e se abre aos encantos de uma "maneca" brasileira. Ainda bem, pior seria se fosse de Manhattan.
No domingo anterior, o Folhão superou-se: na capa do caderno de Cidade sapecou a foto de uma maneca que afirma categoricamente - "Prefiro os homens ativos na cama".
A conseqüência não poderia ser outra: no dia seguinte desabava a bolsa de Hong-Kong.
Moda e
Multiculturalismo
A Folha tanto se empenhou em fazer de desfiles de modas matéria cultural que acabou premiada com um enorme anuncio de uma griffe na primeira página da Ilustrada, quatro cores, quase cativo. Preço de tabela ou com desconto promocional? Afinal não são muitas as confecções que podem vangloriar-se de ter transformado o jornalismo cultural em multicultural.
Véspera do milênio é assim - qualquer sandice ganha transcendência.
Vereadores paulistas
venceram a mídia
A Câmara Municipal de S.Paulo dobrou-se aos interesses das empresas de ônibus e motoristas de taxi e proibiu o licenciamento de novas Vans. Os perueiros protestaram, a população manifestou-se em seu favor porque é a mais beneficiada pelo serviço dos microônibus e a mídia, lá no Olimpo, engoliu a derrota sem espernear.
A razão é simples: desapareceu o jornalismo de cidade, sobrou apenas o jornalismo de serviço (nas rádios) de orientação do trânsito, passivo e omisso.
Repórteres andam pela cidade, esquecidos da sua condição de radar da sociedade, preocupados com o sexo dos anjos. A cidade sumiu, os bairros sumiram, as ruas são pistas e os vereadores fazem o que lhes dá na veneta. Ou no bolso.