Vigília hospitalar
não é circo romano

A emocionada e emocionante entrevista coletiva do governador Mário Covas na sala de imprensa do Incor (SP) tem muito a ver com a sua bravura, com a disposição de lutar contra a doença. E com a sua forma de ser, a um tempo rigorosa e terna.

Mas também tem muito a ver com a cobertura, adoidada como sempre e insensível como sempre, que a mídia vinha oferecendo, antes e depois da última intervenção.

E esta não é uma interpretação aleatória. Foi explicitada pelo próprio governador quando referiu-se a uma manchete estapafúrdia e grosseira, de que os seus médicos haviam constatado uma metástase [veja Aspas, nesta rubrica].

Covas foi à sala de imprensa para mostrar aos que mostram a realidade que está vivo e tem esperanças. A batalha noticiosa em torno do dia da sua alta mais parecia o anúncio do grid de largada da Fórmula 1 ou prévia eleitoral. O estardalhaço com que foi acompanhado um pequeno contratempo pós-operatório não apenas afetou a família do doente como acabou criando um clima tenso junto a médicos e auxiliares, que deveriam estar atentos apenas aos dados laboratoriais e ao bem estar do paciente.

Esta vigília desvairada em hospitais para acompanhar doenças de figuras públicas é invenção da mídia brasileira. Quando o cantor Leandro internou-se nos EUA, os funcionários americanos chegaram a comentar com médicos brasileiros o atropelo histérico da reportagem tupiniquim, sobretudo das emissoras de rádio e TV. A mídia americana é competitiva mas sabe reconhecer limites, respeitar a privacidade, sentimentos e sofrimento.

A necessidade de informar a sociedade sobre o estado de saúde de um paciente ilustre pressupõe uma certa dose de solidariedade e respeito humano. A celebridade – artística ou política – também merece consideração. Dor é algo pessoal, não é espetáculo. Vigília hospitalar não pode ser confundida com circo romano.



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