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ASPAS
Renata Lo Prete
"Emoções", copyright Folha de S.Paulo, 3/12/00
Das pesquisas de avaliação do governador ao levantamento diário das opiniões de leitores sobre assuntos do noticiário, não faltam elementos para a Folha perceber o quanto a população está sensibilizada pela doença de Mário Covas.
Não bastassem os sinais externos, até mesmo na Redação se ouvem comentários reveladores de que também para jornalistas esta é uma história que vai além da política.
No entanto, quem viu a entrevista coletiva do governador, na quinta-feira, e leu o relato no dia seguinte ficou com a impressão de que o jornal é feito por pessoas desconectadas do sentimento do público e incapazes de transmitir emoção.
Dois leitores disseram não ter reconhecido, na descrição lacônica da Folha, as cenas que haviam acompanhado pela televisão.
O descompasso se revelou nos detalhes. Palavras como ‘choro’ e ‘lágrimas’ não apareceram na capa nem no título interno.
De acordo com a reportagem, Covas ‘chegou a chorar’. Na verdade, ele o fez em mais de uma ocasião durante quase meia hora de entrevista no Instituto do Coração. Perto do final, foi ‘tomado pelo choro’, como registrou o ‘Estado’.
É desse momento a imagem escolhida para a capa da maioria dos jornais. A da Folha mostrou o governador mais contido.
Por fim, a reportagem omitiu que choraram também assessores e jornalistas presentes à primeira aparição pública de Covas desde a cirurgia a que foi submetido, na semana retrasada, para a extração de dois tumores no intestino.
Além de esfriar sua cobertura, o jornal optou por descartar boa parte do que foi dito na entrevista. Um dos leitores se declarou surpreso por encontrar no papel menos informação do que na TV.
Foram reproduzidas apenas duas frases da parábola que Covas recebeu de uma senhora e leu para os jornalistas. Mesmo das respostas dele, muito ficou de fora.
‘Tive dor, tive medo, tive tudo aquilo que um homem normal tem’, disse em um dos trechos desprezados. A frase ajuda a entender que as pessoas enxergam nesta história algo não captado pela edição de sexta-feira.
É compreensível que o jornal procure evitar excessos, em especial os que resultem na exposição do doente a constrangimento.
Convém lembrar, no entanto, que Covas chamou a entrevista, assim como tomara antes outras atitudes no sentido de lutar contra o câncer diante do público. Este tem respondido com mais solidariedade do que invasão de privacidade.
Embora correta, a preocupação com os excessos não pode resultar em relato que ignore o drama.
É característica da Folha a dificuldade para lidar com emoções, como se considerasse impossível expressá-las sem incorrer em pieguice ou sensacionalismo.
Não é. Basta procurar a medida certa. Como perceberam os leitores, sem a dose necessária de sentimento, o jornal simplesmente não conta o que aconteceu."
O Estado de S.Paulo
"Os principais momentos", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/00
"Estes são os principais momentos da entrevista coletiva do governador Mário Covas no Incor:
Recuperação - A outra (cirurgia) demorou muito mais tempo para recuperação do que esta. Ficamos aqui, depois da operação, durante 14 dias. E até mesmo pedi para não sair porque era Natal e achava que, durante o Natal, encontraria tanta gente que, muito provavelmente, não seria bom para a sensibilidade da gente.
Mas acho que (desta vez) correu tudo bem e de tal maneira que a gente recebeu novamente uma solidariedade tão grande, que é uma coisa quase inenarrável. Acho que caminha muito bem; não tenho nenhuma solicitação pessoal no sentido de ir embora hoje, amanhã ou depois de amanhã. E, por outro lado, ficar aqui é sempre um descanso. As camas são muito ruins, não aconselho a usá-las, o que, aliás, não é vantagem nenhuma porque todo equipamento médico-hospitalar é muito ruim para o paciente.
Mas como a gente está aqui pelo SUS, não pode nem reclamar. Acho que estou indo bem, muito bem, muito acima da expectativa. A operação foi feita na terça-feira; no segundo dia, a gente andava pelo corredor, pelo menos, pelo quarto, e de lá para cá foi uma sucessão de melhoras.
Se vocês me perguntarem se quero ir embora hoje, não quero. Se me perguntarem se vou embora amanhã, digo que não sei. Vou embora no dia em que os médicos disserem para eu ir embora, não discuto esse assunto.
Não discuto nenhum dos aspectos ligados à parte técnica operacional, porque esse é um tema no qual não transito bem. Eu só entro com o corpo e, graças a Deus, eu não entro com a alma. Mas eu acho que foi muito bem, temos tanto para agradecer, a tanta gente, que, se falar, vai ser difícil de traduzir.
Cobertura da imprensa - Tenho acompanhado. Como é que chama aquilo, quando começa a pipocar em todo lado? Quando o câncer dá em todo lugar, como é que chama isso?
Metástase (responderam). Um jornal de São Paulo publicou que eu estava com isso, deram manchete de primeira página. Não é bom a gente ler aquilo, sobretudo quando não é verdade. Mas, tudo bem, o que posso fazer? Faz parte do jogo. Para mim, aquilo lá faz mais parte do jogo, porque, além de estar passando por um tranco, eu sou um político.
Portanto, a gente tem de suportar certas coisas com uma certa infelicidade, da qual os outros normalmente estão livres.
Articulações para 2002 - É inevitável, o tempo vai-se extinguindo e a movimentação vai acontecendo. Mas não há muita novidade no setor. A novidade mais recente que talvez tenha lido foi a candidatura do Pedro Simon (senador do PMDB-RS), que é uma figura pela qual tenho muita admiração. Acho que, no caso específico do meu partido, os nomes não têm sido diferentes do que os que têm sido lembrados, embora tenhamos outros nomes. Alguns deles são encaminhados com uma rapidez, até menos por força deles. Quer dizer, não foi iniciativa deles fazer isso acontecer. É que os companheiros começam a falar nomes, e aí está o meu. Não é porque tenha querido, porque se há alguém que faz dois anos que disse que não seria candidato sou eu. No entanto, meu nome foi lembrado. Não sabia também que o Suplicy (senador petista Eduardo Suplicy) vai ser candidato a presidente. Eu tenho falado muito que não acreditava que se mantivesse aquele status quo da eleição anterior. Pela razão mais óbvia do mundo. É que o momento eleitoral é o momento em que os partidos querem caminhar e, portanto, eles caminham apresentando candidatos, tentando ganhar a eleição. Isso é legítimo, não há nada de extraordinário. Mas estamos a quase dois anos da eleição, então, acho que ainda tem muita coisa para rolar. Como as eleições estaduais concomitantes, que são atraentes.
Trabalho como terapia - Ora, eu não deixei de ser governador. O que me move é tentar, no limite das minhas forças, cumprir a minha tarefa. Essa é uma pergunta (se o investimento no trabalho é uma forma de vencer a doença) de difícil resposta. Se eu disser que sim, amanhã, vou ser candidato. Se disser que não, não estaria dando importância para esse fato. E eu dou uma tremenda importância para esse fato. (Voz embargada) No dia em que cheguei aqui, eu cruzei com um casal razoavelmente jovem, que veio do Rio de Janeiro, o marido vinha fazer uma operação. E ela disse: ‘O senhor é o portador do meu primeiro voto na vida, quando o senhor foi candidato a presidente (voz embargada). É uma coisa quase inusitada você receber uma declaração dessa no instante em que você entra na sala de operação. Depois, antes de ir embora ela me deixou uma mensagem. Eu vou ler para vocês, eu a recebi agora há pouco. (O governador lê a mensagem na íntegra, e chega a soluçar). Como posso, reconhecendo isso, não correr atrás da vida? Essa operação tem uma coisa que mexeu comigo na cabeça. Esse trem que eu fiquei, como é que chama? Colostomia. Bom, eu tinha medo disso, mexia muito comigo, não cheguei a comentar com a minha esposa, nem ela sabia. Mas como eu posso reclamar disso se Deus me deu a vida? Isso que é o principal.
(Choro) As lágrimas não são de dor, não são próprias de mim, sou mais próprio de gritarias do que de lágrimas. Afinal, se o homem não sabe chorar, qual é a outra forma mais digna de mostrar os sentimentos?"
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