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DOSSIÊ CHANTAGEM 2
ASPAS
Paulo Mussoi e Janes Rocha
"Brasília - O presidente Fernando Henrique Cardoso fez críticas à mídia, ontem, na abertura do seminário ‘Projeto Brasil 2020: Visões Estratégicas para um Cenário Desejável ‘. Sem fazer uma alusão direta à divulgação das fitas contendo o ‘grampo’ dos telefones do BNDES, que resultou nas demissões de colaboradores do governo, o presidente afirmou que ‘os que movem a mídia não sabem o poder que têm. Ou se sabem, não trazem consigo a responsabilidade desse poder’. Segundo Fernando Henrique, ‘é como se não tivessem poder. Como se fossem neutros. Mas eles não são neutros. Nada é neutro no mundo político’.
Em seu discurso, o presidente classificou as câmaras de televisão de ‘maquininhas terríveis’. E disse que a mídia tem uma enorme responsabilidade na discussão sobre a evolução da sociedade. Fernando Henrique ressaltou o papel que os veículos de comunicação têm sobre a pressão que os políticos sofrem da base da sociedade contemporânea. E afirmou: ‘Isso tudo deve ser pensado, não em termos de limitação, de censura, mas em termos de consciência. Os partidos têm que entrar nessa discussão com a opinião pública e com os formadores de opinião, que muitas vezes se arrogam o poder de serem juízes, sem que o povo os tenha legitimado para isso’.
Televisão - Em outro trecho do seu discurso, Fernando Henrique alertou sobre a forma como muitos deputados e senadores se relacionam com a televisão. ‘Muitos têm a ilusão que basta ter acesso àquela maquininha de TV que vão conseguir o que desejam. Mas essa maquininha é terrível. Assim como ela de repente pode fazer com que se consiga, ela pode liquidar na hora também, dependendo de fatores que não são racionais. Às vezes é o que não foi dito, às vezes é como foi dito, e às vezes é apenas um longo silêncio. Tudo isso pode ser fatal’, afirmou.
Fernando Henrique não fez referência específica ao caso dos grampos, mas, mais tarde, o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, reconheceu que o presidente se referia, sim, aos últimos acontecimentos. ‘O presidente não tem mágoa da imprensa. Mas o grampo não é uma coisa em que só existe aquele que faz. Tem também os que divulgam’, disse."
"Crítica à imprensa", copyright Jornal do Brasil, 25/11/98
Folha de S. Paulo
"FHC disse que tinha ‘mais medo dos escândalos fabricados do que dos verdadeiros’ e recomendou um controle maior sobre os meios de comunicação - que divulgaram trechos da escuta telefônica feita durante a privatização do sistema Telebrás.
‘Aquela maquininha é terrível: os que movem a mídia também não sabem o poder que têm ou, às vezes, não trazem consigo a responsabilidade’, avaliou. ‘Nada é neutro nesse mundo político, e isso tem de ser pensado não em termos de censura, mas de consciência.’"
"Mídia", em "FHC defende reforma política urgente", copyright Folha de S. Paulo, 25/11/98
Tânia Monteiro e Isabel Braga
"Brasília – Indignado com os vazamentos de informações obtidas por meio de gravações clandestinas e com falsos dossiês que paralisaram o governo nas últimas três semanas e resultaram na demissão de quatro de seus homens de confiança, o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou ontem um discurso para acusar a mídia de usar irresponsavelmente o poder que possui. Ressalvando que não estava pregando censura aos meios de comunicação, o presidente defendeu a tese de que os partidos políticos discutam abertamente com a ‘opinião pública’ e com os formadores de opinião ‘o que pode e o que não pode’ ser divulgado.
‘Os formadores de opinião pública muitas vezes se arrogam poder absoluto de ser juízes, sem que o povo os tenha legitimado para isso’, afirmou, na abertura da conferência Brasil 2020, visões estratégicas e o futuro desejável, realizada no Centro de Treinamento do Banco do Brasil. Segundo o presidente, os que ‘manipulam a mídia, no bom sentido, não sabem o poder que têm ou, às vezes, se sabem, não têm consigo a responsabilidade do poder que tem’. E prosseguiu: ‘É como se não tivessem poder, como se fossem neutros; não são neutros; nada é neutro neste mundo político.’
Originalmente o tema do encontro era reforma política. O presidente avisou que quer uma ampla reforma política. Ao defender uma de suas teses – a de financiamento público parcial das campanhas – Fernando Henrique, sem citar as denúncias que tomaram conta do País nas últimas semanas, desabafou: ‘Temos de desnudar a questão do custo político, porque senão aparecerá como forma de escândalos verdadeiros ou fabricados.’ Em seguida, acrescentou que tem mais medo dos escândalos fabricados do que dos verdadeiros. ‘Estamos sendo vítimas, a todo instante, de escândalos fabricados’, criticou, acentuando que ‘os verdadeiros escandalosos são os que fazem o escândalo e não a quem se atribui o escândalo’. ‘Isso tem de ser discutido com firmeza.’
O presidente classificou como ‘voto parlamentar selvagem’ o atual sistema de representatividade dos deputados no Congresso. ‘É preciso fazer o voto civilizado’, disse, defendendo o voto distrital e a cláusula de desempenho, que impediria os partidos que não têm voto de beneficiar-se de recursos institucionais. Para o presidente, a reforma política tem de entrar na agenda de reformas do Brasil. Mas ele acha que essa é um assunto que requer participação ativa do Congresso e da sociedade.
Fernando Henrique aproveitou ainda para criticar a união de parlamentares em torno de interesses corporativistas. O presidente considera o lobby legítimo, mas adverte para o risco de o Congresso transformar-se num conjunto de lobbies. ‘Lobby não é partido, não defende interesses gerais ou projetos para o País’, disse, citando a conhecida bancada ruralista e as recém-formadas bancadas da pequena empresa e frente pró livre-mercado. ‘O que é isso? Para o governo discutir com cada um?’, ironizou, já reconhecendo que será criticado pela observação. ‘Você pode até ter grupos técnicos, mas é preciso ter partidos.’ O presidente condenou também a complexidade e a burocracia que envolvem as votações no Congresso. Citando a existência, por exemplo, de quórum diferenciado para determinadas votações, o presidente falou das dificuldades que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, enfrenta no exterior para explicar a demora na aprovação do ajuste fiscal.
‘Arabescos parlamentares que complicam muito o diálogo do parlamentar com o homem comum’, comentou. Ele criticou o excesso de líderes existentes no Congresso, que acaba ‘entorpecendo o processo legislativo’. Só na Câmara, lembrou, existem 12 líderes, alguns que lideram bancadas com apenas um deputado. ‘E você tem de ouvir todos’, declarou, ironizando. ‘Isso não existe; é a marcha da insensatez; é a falta de coragem da maioria para tomar decisões.’
‘Maquininha’ – Apesar de ter criticado a atuação da imprensa, o presidente reconhece que a mídia é vital para o desempenho político das personalidades públicas. Segundo Fernando Henrique, os partidos ainda não têm a sensibilidade necessária para entender que não só eles, mas a sociedade organizada, como igrejas, sindicatos, lobbies, empresas e a mídia participam legitimamente da vida política do País.
‘Os partidos, muitas vezes, têm a ilusão de que basta ter acesso àquelas maquininhas de televisão para conseguir o que desejam’, argumentou. ‘Acho aquela maquininha terrível: assim como ela faz com que se consiga, ela pode liquidar na hora também, dependendo de fatores que não são racionais.’ E filosofou: ‘Não é o que é dito, às vezes não é o que não foi dito, às vezes é um longo silêncio, às vezes é uma dúvida momentânea.’" "Presidente critica divulgação de trechos de gravações e de papéis de suposto dossiê", copyright O Estado de S. Paulo, 25/11/98.
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