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DOSSIÊ CHANTAGEM 2

CARTAS

Caro Dines, escutei no dia 25/11/98 sua entrevista à CBN, e foi a primeira vez neste processo sujo do "Dossiê Chantagem" que escutei alguém se pronunciar contra a atuação antiética da mídia. Conforme seus próprios comentários, não caberia um processo para que o acusador provasse suas afirmações, ou que apresentasse os responsáveis pela apresentação das informações? A quem os cidadãos podem recorrer para que esta forma de imprensa seja punida e coibida de incentivar a utilização de técnicas ilegais de obtenção de informações, que atingem a privacidade do cidadão?

Gostaria também que o O. I. verificasse o comportamento do Grupo Globo em relação ao processo de privatização da Tele Norte-Leste, e o ataque pessoal que está sendo feito ao grupo vencedor, principalmente pela repórter Míriam Leitão. Não estaria havendo um abuso de poder em apresentar apenas um enfoque das notícias, sem dar a devida chance ao grupo de prestar suas informações e dar sua visão? Não estariam envolvidos interesses pessoais do Grupo Globo?

Antônio Flávio Salles

Alberto Dines responde: Caro Antônio Flávio, não somos onipresentes nem oniscientes. Acreditamos que a publicação dos seus reparos possa provocar alguma reação. Venha sempre ao OBSERVATÓRIO. Abraços, A. D.

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Com relação ao debate promovido pelo OBSERVATÓRIO NA TV no dia 24 de novembro, confesso que fiquei satisfeito com o fato de alguns dos participantes (inclusive o representante da OAB) levantarem a seguinte questão: um crime mais grave (e é claro que a escuta telefônica é de uma gravidade e uma leviandade indiscutíveis) deve anular uma irregularidade cometida por figuras públicas? Me parece que não.

Se por um lado houve um lamentável terrorismo de direita promovido por indivíduos de passado conhecido e nada abonador, que devem - e tenho a impressão que quanto a isso não há discordância - ser investigados, por outro lado as gravações criminosas colocam sob suspeita funcionários do governo, que podem ter interferido na lisura do processo de privatização da Telebrás e, por que não, incorrido em malversação do dinheiro público, já que utilizaram de forma sub-reptícia verbas do BNDES para incentivar a participação e a concorrência entre consórcios candidatos. E esses funcionários, também, devem ser investigados.

Nem entro no mérito de ter havido interesses particulares ou escusos - acredito mesmo que não -, mas esse tipo de procedimento nada transparente é que deve ser evitado. E o comportamento adotado no caso em questão, se confirmado após investigação, este sim, é escuso.

Esta discussão toda me lembra os muitos filmes hollywoodianos de tribunal, nos quais comumente há uma cena em que o juiz pede ao júri que esqueça determinada prova incriminadora mas ilegal. E, na grande maioria dos casos (ou roteiros), os jurados acabam levando em conta a prova invalidada, e condenando o réu. Outra imagem que me vem à mente é um ladrão que rouba outro (sem querer com essa imagem sugerir nada sobre nenhum envolvido no caso que discutimos!). Talvez a grande pergunta, em toda essa questão, seja: é possível ladrão que é roubado por ladrão, tem cem anos de perdão, por antecipação?

Cláudio Vianna

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A quem interessar possa:

1) O responsável jurídico pela montagem da estratégia do leilão da Telebrás é funcionário licenciado do BNDES (ex-diretor da BNDESpar) e integra o Conselho Administrativo do Grupo La Fonte: Durval Soledade;

2) Gabriel Stoliar (diretor anterior da mesma BNDESpar) é hoje o principal assessor do Steinbruch, na Vale;

3) Wagner Bittencourt (ex-superintendente operacional da BNDESpar) é agora presidente da CFN/Cia. Ferroviária do Nordeste, do mesmo Steinbruch;

4) Outros ex-altos funcionários do BNDES estão ocupando altas posições em empresas privatizadas ou em instituições financeiras ligadas ao processo de privatização: Maria Sílvia, na CSN; Zendron, no Graphus; Elena Landau, no Opportunity; Luís Orenstein, antes no Opportunity, agora no Pactual; etc. Parece que o processo de privatização resolveu a vida de muita gente! Todos ligados ao tucanato. CPI nelles!

Marcos Dantas

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Interessante. Todos nós sabemos que escuta telefônica, sem prévio consentimento do poder competente, constitui crime. Até aí, tudo bem, nada a questionar. Entretanto, feita(s) e comprometedora(s) a pessoas que supostamente deveriam cuidar dos interesses do país, ainda que não sirvam de peça de prova criminal, devem ser levadas a sério, sim, e investigadas. Seria o mesmo que eu tramar no recinto de minha casa um crime que comprometeria o país, alguém escutasse e simplesmente fizesse ouvidos moucos. Querer punir simplesmente o(s) autor(res) do "grampo" seria o equivalente a varrer a sujeira para debaixo do tapete. E mais, a julgar pelas expressões das pessoas envolvidas na "escuta ilegal", fico inclinado a levar a sério o dito popular que afirma: "à mulher de César não basta ser séria; é preciso parecer séria". Cá entre nós, alguém aí (intelectual ou não) acredita em algumas dessas personagens que circulam livremente pelo país? Parecem sérios? Sobrepõem os interesses do país aos seus, realmente?

O ônus da prova criminal cabe ao acusador, diz a lei. Mas como, se as tais fitas contendo diálogos comprometedores foram gravadas ilicitamente, ainda que seu conteúdo possa (e eu creio nisso, não sei por quê) possa ser verdadeiro? Até que ponto são críveis as notícias e manchetes veiculadas pelos órgãos de comunicação? Acaso são independentes? Se são, de quem? De seus donos? O OBSERVATÓRIO talvez sim, posto que, como o próprio nome diz, apenas observa o que os outros fazem. Funciona mais ou menos como o crítico que sempre passa a impressão de que poderia fazer melhor, apontando as falhas de seu criticado. Enfim, observadores devemos ser todos nós, cidadãos comuns não tão acima de qualquer suspeita. Afinal, também temos ego.

Daniel Sílvio Pires de Moraes

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Não sou eleitor de FHC, muito pelo contrário, mas o estrago já foi feito e o que me espanta e que ninguém, ou poucos, tocaram nos nomes de Maluf, Collor, Gilberto e cia. Estão-se discutindo muito as fitas e pouco a chantagem, que eu acho muito mais perigoso, pois é uma tentativa de desestabilização do governo.

Fernando

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Nessa história toda do ministro das Comunicações, eu estou achando bastante curioso o comportamento da revista Veja. Algumas edições atrás, ela publicava uma matéria estranhíssima sobre o diretor da Área Internacional do BB, Ricardo Sérgio (2/9/98). Sem muito gancho, ela o acusava de ter "costas quentes" e fazer política demais para o cargo. Depois, uma edição só de elogios ao ministro Pedro Malan (14/10), que apesar de aparentemente ser competente, não acredito que seja o único responsável por não estarmos na situação da Rússia. Uma matéria um tanto estranha também, porque não havia motivo para maior destaque. O pacote nem estava realmente amarrado ainda, e o Brasil podia (e ainda pode) sofrer um ataque financeiro a qualquer momento. Além disso, Malan é co-responsável pela condução de uma política econômica cujos números do desemprego e da indústria não são nem um pouco favoráveis. Portanto, nenhum motivo para tanta louvação.

Dia 11/11, a coluna Radar [na verdade, como já explicou Ancelmo Gois, o "Sobe/Desce" publicado abaixo da Radar, na página ímpar, assim como o "Brasil em Números", na página par, não pertencem à coluna; N.R.] dava José Serra em queda porque soltou a famosa nota pressionando a equipe econômica por mais verbas. Também havia uma matéria batendo no ministro por soltar a nota em hora tão imprópria. Na edição imediatamente anterior a esta, o mesmo quadro da revista dava Malan em alta de novo porque havia cumprido o que prometeu: um pacote sem solavancos (como se ele fosse o único a decidir algo assim).

Enfim, não discuto nem tenho condições de discutir as questões políticas da nota de Serra. Tinha evidentes interesses de maior espaço político dentro do governo. Porém começo a acreditar que a revista está inclinada a, digamos, apoiar a ala monetarista do governo (Malan e Franco, mais as divisões Panzer do PFL).

Vejamos: a revista sempre apoiou todo o programa de privatização do governo; aliás, em geral, Veja apoiou 90% dos atos do governo federal até hoje. Fez dezenas de matérias com foco amplamente otimista quanto às empresas já privatizadas, e não hesitava em dar opiniões no meio de textos puramente informativos. O leilão da Telebrás foi sempre considerado um sucesso.

Porém, nos últimos tempos, ou talvez desde que se começou a aventar a criação do Ministério da Produção, a revista da Abril sempre que pode dá pequenas estocadas em Mendonça e José Serra. Curiosamente, as informações das fitas e dos documentos Cayman foram levadas ao público pela revista Época. Alguns colunistas e pequenas notas afirmam que foi José Serra quem vazou os documentos antes que o assunto se tornasse maior do que deveria. A tática não funcionou, porém o fato de Serra (se foi ele mesmo) ter procurado a mais nova concorrente de Veja para as denúncias não deve ter sido por acaso. Conhecedor do funcionamento da impressa, Serra preferiu se vingar da Veja dando o furo para a Época.

Deve ter sido um golpe duro na Veja, pois no mesmo dia da matéria dos grampos ela fazia uma brincadeira jocosa com a rival em editorial.

Outro sintoma foi a acusação de Mendonça de Barros em seu depoimento no Senado. Ele citou algumas vezes a revista e disse que a divulgação de grampos também é crime. Segundo a Veja desta semana, não é. Mas é impressionante a violência com que a publicação partiu pra cima do ministro. Enquanto suas duas concorrentes diretas tentavam descobrir os bastidores de toda essa história (IstoÉ nos deu um bom panorama), a Veja simplesmente abriu suas páginas para triturar o ministro. Foi quase um "não me provoque!". O que acontece com a Veja? Ela apóia um determinado grupo no governo? Tem alguma aproximação suspeita com o pefelismo (particularmente ACM)? Está aí para informar ou fritar ministros? Sentiu o golpe de estar correndo atrás da concorrência? Publicou as fitas editadas (sabendo disso) com que interesse? Não é falta de ética jornalística publicar "todo o conteúdo das fitas" mesmo sabendo que elas estão servindo a propósitos obscuros e no mínimo suspeitos?

Não sou nem nunca fui ou tive nada com política. Apenas acompanho com interesse os jornais e revistas. Não tenho, portanto, nenhuma base concreta ou informações privilegiadas para afirmar nada. Porém acho que é possível deduzir alguma coisa simplesmente cruzando informações. Se para mim passa essa impressão de total parcialidade, gostaria de saber de vocês se há realmente algum fundamento nessa história toda. É isso. Obrigado e parabéns pelo excelente trabalho de vocês.

P.S: Reparem na foto de Pedro Malan na capa da edição do dia 14/10. Aparentemente suas famosas olheiras foram apagadas. Perguntem a qualquer profissional que trabalhe com retoques de imagens digitais. É uma prática que a revista admitiu quando deu capa para a queda de Francisco Graziano. Se realmente manipulou a imagem para dar um ar mais simpático ao ministro, a revista se aproxima em muito dos métodos usados pela Rede Globo, que coloca música de fundo para dramatizar a entrevista com o "Maníaco do Parque". Um caso autêntico em que se usa jornalismo para fazer entretenimento (a direção da reportagem foi do diretor de ficção Roberto Talma). Obrigado.

Emerson Perez

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FHC, em declaração recente, pediu aos congressistas que pensassem sobre a volta de uma "regulamentação" para notícias e opiniões da imprensa [ver a íntegra neste Dossiê Chantagem]. Ou seja, FHC quer a volta da censura ao país. Mas, por que ele deseja a volta da censura? FHC ultimamente não está contente com a atuação da grande mídia nacional, que tem publicado alguns escândalos governamentais (como o grampo do BNDES). A grande mídia geralmente recebe uma grande fatia do orçamento do governo federal em propaganda (vale salientar que o maior anunciante dos meios de comunicação é o governo federal).

Segundo a política de FHC, uma mão devia lavar a outra, como sempre faz a nossa grande mídia, que sempre deu mais atenção a baleias como Free Willy do que à agenda econômica nacional e às políticas governamentais de ajuda às classes mais abastadas (política essa que coloca o Brasil hoje com a pior distribuição de renda das Américas).

Mas, todos têm o direito de deslizar um pouco e soltar alguma coisa do que o governo FHC tem feito em matéria de escândalo, o que aliás não é difícil diante da multidão de escândalos, como Ilhas Cayman, compra de votos para a reeleição, Sivam... FHC parece que não perdoa esses deslizes da grande imprensa, que sempre foi conivente com os atos do seu governo e implacável com a oposição.

Ele com certeza já estava acostumado com a parcialidade da imprensa a seu favor e tomou um susto com as últimas manchetes, e agora quer de alguma forma que a grande imprensa seja controlada. Penso eu, como seria bom (para o governo) a volta dos censores às redações, mais empregos, uma unanimidade de pensamento linda. Quem sabe até se cria um selo de qualidade - "100% confiável: o governo federal está presente aqui".

Quem sabe fosse bom voltar a censurar também os livros. No Brasil existem muitos cursos livres que pregam um Brasil diferente do que FHC, ACM e o FMI querem. Esses livros seriam prejudiciais para o "Grande Irmão". Seria melhor para o "país" se desfazer de livros subversivos de escritores que já faleceram há muito, como é o caso do nosso ilustre sociólogo Fernando Henrique Cardoso - que Deus o tenha.

Gleydson Albano

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Objetividade e verdade. Princípios da década de 50, mais precisamente o ano de 53, Garrincha, o Mané Garrincha, começava a sua carreira fabulosa. No interior de Minas Gerais, pelo rádio, Oduvaldo Cozzi narrando, ouvíamos maravilhas do endiabrado jogador. Cozzi caprichava na emoção, Garrincha passava por um, dois, três adversários, Às vezes repetia o drible sobre o mesmo oponente. Cozzi podia estar exagerando, mas a jogada aconteceu, o autor dos dribles era Garrincha, o time e jogadores adversários ali estavam. O fato era real, verdadeiro. O número de dribles poderia ser diferente, mas o fenômeno existia, tanto é que depois o mundo todo ficou conhecendo, ao vivo, o herói. Cozzi não mentia, na emoção poderia até aumentar, mas não estava inventando.

No caso das gravações clandestinas sobre conversas do ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros com seus colegas, acontece mais ou menos a mesma coisa. As gravações são clandestinas, criminosas etc. Mas nem o próprio negou que aquela era a sua voz, tanto é que ele mesmo, no Senado, recorreu, para provar a sua argumentação de que não sabia com antecedência o que iria ocorrer, a um trecho de sua conversa com o presidente da República.

No caso, a fita servia! Ocorre que a imprensa, como escreveu de forma simples e objetiva o jornalista Janio de Freitas em sua coluna na Folha do dia 25 de novembro - Porquinhos e pombinhos -, foi atacada, um dia após a demissão dos envolvidos nas gravações, de uma "invencível nostalgia da infância, uma rememoração transbordante dos tempos de histórias ingênuas e personagens líricos, às voltas sempre com artimanhas malvadas".

A imprensa fez o seu papel, nada mais. Se comete alguns excessos, e daí? O fato existia, as pessoas eram conhecidas e não negaram participação. Sim, o contexto era outro, as fitas foram editadas. E daí? O nível de baixaria em que conversavam sobre assunto tão sério não tem atenuante. É indispensável que se diga que esses homens ganham, e bem, para defenderem os interesses do país.

Pelo contrário, o contexto vai contra eles, mostra o envolvimento de vários participantes, de algumas instituições... e muito dinheiro público.

Acho que a imprensa agiu com objetividade, cumprindo assim o requisito que o nosso Josenildo propõe na entrevista a Victor Gentilli, aliás de forma inteligente e demonstrando muita cultura. Os brasileiros ficaram sabendo o que estava acontecendo e as providências estão sendo tomadas.

Alguns dizem que é preciso agora que a imprensa vá atrás dos que grampearam. Negativo, isso é função da polícia. Tão logo sejam descobertos aí sim a imprensa poderá ajudar para que todos saibam quem são, com fatos e fotos. Assim sendo, minha cara imprensa, obrigado por existir.

José Rosa Filho

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A Veja, há três semanas, escreveu que Caio Fábio foi o intermediador do tal dossiê, pedindo dinheiro. O cara foi chamado de ousado. Na mesma matéria o acusado não foi ouvido. Nas edições seguintes, o caso foi "esquecido". As suítes na imprensa de uma forma geral não conseguem esclarecer a participação do "pastor progressista" - para usar o termo de Alberto Dines. Bastaria ouvir as pessoas que foram contatadas pelo religioso - só vi uma declaração do José Dirceu - para esclarecer seu papel. Mas o caso virou um samba do crioulo doido em toda a imprensa, principalmente na Folha de S. Paulo, que em vez de jornalismo resolveu fazer quebra-cabeça...

Marcos César Gouvea, jornalista, Londrina, PR

 



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