10/06/2003

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BAIXARIA TRANSATLÂNTICA
Circo de horrores em ultramar

Luiz Egypto

O jornalista Heródoto Barbeiro, âncora do Jornal da CBN, deixou escapar um precioso comentário na edição de quarta-feira (4/6/03) do radiojornal que vai ao ar diariamente às 6 horas.

Ele reassumia o posto depois de um período de férias. No meio de um ou outro rapapé de boas-vindas, da empolgação indisfarçável do âncora e das piadas sempre recorrentes da bem-humorada equipe, soube-se que o jornalista fora conhecer Angola. Algo como o "turismo necessário" recomendado pelo escritor Julio Cortazar ["Turismo aconsejable", in Ultimo Round, tomo 1, pág. 123-147; Siglo XXI Editores, 1974].

Os comentários sobre a viagem eram mais que justificados. Até que num determinado ponto das 3 horas da emissão, Heródoto disse, com outras palavras (acrescidas de mais outras não ditas e interpostas sob exclusiva responsabilidade deste ouvinte), o seguinte :

– Ao circular por Luanda, as pessoas perguntavam como é que eu conseguia sair nas ruas das cidades brasileiras. Respondia dizendo que a violência urbana existe, sim, mas ainda não ao ponto de ser impossível circular pelas ruas. Ainda. Mas estranhei o fato de esse tipo de comentário vir de pessoas que haviam vivenciado uma guerra civil prolongada, sangrenta, que marcou a população e cujos efeitos são facilmente notados nas ruas, onde é comum encontrar mutilados. Fui procurar saber o porquê dos comentários. E descobri que a imagem que os angolanos têm da violência brasileira é a aquela mesma que apreendem dos programas policialescos dos fins de tarde, exibidos em nossas emissoras de TV e captados pela parabólicas de Angola em horário de audiência qualificada [esta última afirmação o jornalista não fez, mas, com fuso horário de + 4 horas, em Luanda se assiste aos shows de horror entre 21 horas e 23 horas].

A banalização da violência patrocinada por esses apresentadores, produtores e editores de TV provoca mais estragos do que pode parecer.


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