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Alberto Dines
PRIMEIRAS ESCARAMUÇAS
Guerra sem espetáculo parece cobertura política
O balanço do primeiro dia da primeira guerra do século e do milênio confirma o que aqui se dizia: a mídia brasileira não se apresenta com envergadura suficiente para consolidar os fragmentos e fiapos de informações que vai soltando ao longo das edições.
Sob o ponto de vista mediático esta guerra está chatíssima. Felizmente: quanto menos máquinas de guerras forem mostradas menos vontade terão os soldados natos e inatos para usá-las.
A cê-êne-êne mirim – Globonews –, nas primeiras horas da tarde de domingo (7/10) ficou um tempão com uma linda tela abstrata em verde e um clarão amarelo (e cujo significado, além da estética, escapou aos comuns mortais). Depois, entrou o pronunciamento de Osama bin Laden, que a emissora registrou com a vinheta de "Ao Vivo". Em três idiomas (árabe, inglês e português) via-se o selo de uma instantaneidade que era fictícia. O tape fora previamente gravado. Quem estava "ao vivo" mostrando um tape gravado era a emissora do Catar, Al Jazeera, retransmitida pela CNN.
No intervalo, entre as fugazes imagens de algo que não se sabia o que era, catadupas de interpretações acadêmicas rigorosamente marginais sobre o que estaria acontecendo.
A mídia eletrônica sofre das mesmas vicissitudes do nescafé: a obrigação de ser instantâneo retira-lhe sabor, aroma e autenticidade.
Mas foi com os jornais da manhã seguinte (segunda, 8/10) que confirmou-se a impressão de fragilidade da mídia impressa, sobretudo a diária, incapaz de oferecer ao leitor uma visão contextualizada dos acontecimentos. Não basta fazer um quadrinho com a cronologia dos eventos: é preciso costurar aquilo que o próprio jornal informou anteriormente montando uma história com princípio, meio e fim. Isto pressupõe um trabalho de concatenação entre diferentes matérias de diferentes dias, páginas ou editorias.
Quantidade de textos não é atributo. Encher espaços entre anúncios com o material despejados pelo computador, hoje não é vantagem. O leitor não é o editor. Ao comprar um jornal, o cidadão compra também o trabalho do editor que arrumou com alguma lógica as montanhas de informações desencontradas e aparentemente sem nexo.
Aqui cabe um reparo ao texto que Luís Nassif escreveu sobre o desempenho da imprensa brasileira desde os atentados de 11 de setembro [Folha, 2/10, remissão abaixo]. Dos jornalistas do establishment, Nassif é o mais ousado, persistente e consistente nas críticas ao desempenho de nossa mídia. Mas a louvação só se justifica como estímulo.
Não é da obrigação deste Observatório fazer a pauta do que faltou pautar. Mas para o leitor médio, as toneladas de papel gastas neste último mês não conseguiram explicar alguns dos enigmas essenciais do vulcão médio-oriental.
Não é preciso remontar às cruzadas. Basta acompanhar os movimentos a partir da guerra da Criméia (1854-1856), a relativa tolerância religiosa otomana, a entrada dos ingleses promovendo a primeira emancipação árabe (lembram de Lawrence da Arábia?), demorar-se na questão das partilhas da Palestina e do subcontinente indiano decididas pela ONU em 1947 e chegar àquele dia de maio de 1948 em que Israel foi criado e o Estado Palestino, não.
O leitor não tem tempo para ler catataus históricos? Bobagem. Nos anos 60 e 70 o Departamento de Pesquisa do Jornal do Brasil oferecia exatamente esse tipo de suporte. Em matérias anônimas, sem a assinatura de sumidades acadêmicas, porém bem informadas. Sobretudo bem escritas.
Esta guerra infelizmente ainda vai estender-se e desdobrar-se. Será uma guerra escondida, sem flagrantes espetaculares. Há, portanto, tempo de sobra para aprender. Caso contrário, continuaremos cobrindo o mundo com o mesmo arsenal que cobrimos a cidade e o país: com declarações.
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Luís Nassif – Aspas ["O resgate do jornalismo", copyright Folha de S.Paulo, 2/10/01]

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