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Alberto Dines
FITAS & ROLOS
Rotina dos grampos agora
tem novidade: a torpeza
Para temperar mais um furo produzido pela arapongagem, o semanário IstoÉ adicionou novo ingrediente: lançar suspeitas na direção da oposição (edição nº 1654, distribuída às redações na tarde de quinta-feira, 7/6, com ampla repercussão nos jornais de sexta, sábado e domingo).
O alvo do novo grampo trazido ao semanário é o ainda senador Jader Barbalho. Mas quem levou as sobras foi o seu coléga José Eduardo Dutra (PT-SE) envolvido de forma abjeta na violação do painel do Senado.
O que nos interessa no caso são os procedimentos jornalísticos:
** A fita comprometendo o presidente do Congresso foi gravada por um agente da Polícia Federal sem que se saiba se o fez legal ou ilegalmente. Dado relevante ao qual a mídia do país de bacharéis não dá a menor importância.
** Foi entregue à redação na manhã da terça-feira, 5/6 (como admite a própria reportagem, pág. 26). Agora os usuários de grampos já não se dão ao trabalho de inventar como descobriram as fitas debaixo de um viaduto etc. etc.
** Em menos de dois dias providenciou-se a rotineira peritagem que garante: não houve descontinuidade ou manipulação. Mas a perícia não explica se as vozes são efetivamente das pessoas mencionadas. Isso é de capital importância. Mas o que é de capital importância não é necessariamente o que importa na mídia brasileira. A verdade é que não houve tempo para comprovar, já que a matéria precisava ser publicada naquela semana – pois, na seguinte, com o feriadão, não teria repercussão. A conclusão dos peritos "a gravação questionada pode, portanto, ser considerada autêntica" é, no mínimo, incompleta.
** Não houve tempo para a transcrição integral do documento para que o leitor e os coleguinhas que reproduziram o novo escândalo pudessem verificar com precisão o que foi dito. De uma conversa de 8 minutos e 23 segundos a revista só transcreveu um pequeno trecho enfiado num box de pé da página.
** Como investigação jornalística a revista só ofereceu uma entrevista com o próprio acusado (Jader Barbalho), que evidentemente defendeu-se, e outra com um dos implicados, que também negou as acusações. Os interlocutores da gravação não foram ouvidos para confirmar ou desmentir a conversa.
** Este tipo de denúncia inconsistente e apressada, ao contrário do que se pensa, só favorece o acusado, Jader Barbalho. Razão pela qual o esperto parlamentar, mestre na arte da sobrevivência, pediu imediatamente ampla investigação. Se nada ficar comprovado, ficam fortalecidos os protestos de inocência do acusado e atenuam-se os efeitos de futuras investigações menos apressadas do que as de agora.
O mais grave da edição de IstoÉ foi a matéria que se segue: cinco páginas que abrem com um enorme retrato do senador José Eduardo Dutra e a sentença em letras garrafais: "O cúmplice petista". A má-fé começa com o antetítulo – "Além de ACM e Arruda, José Eduardo Dutra também teve acesso à lista resultante da violação do painel eletrônico do Senado" [grifo meu]. Ora, o Brasil inteiro sabe que os dois senadores foram obrigados a renunciar porque violaram o painel. Ter acesso à lista não constitui crime e, se é crime, toda a imprensa o cometeu porque teve acesso e até divulgou o teor da lista de votação.
O senador Dutra é cúmplice de que e de quem?
No texto, depois do nariz-de-cera de cinco linhas onde se afirma peremptoriamente que os senadores não foram os únicos a participar da violação do Senado, vem o fato mais relevante da denúncia: o nome do cúmplice já está circulando nas conversas de bastidores do Congresso. A revista reconhece com todas as letras, logo no início da denúncia, que partiu de uma fofoca para montar a matéria. E com base em fofocas vai até o fim.
Uma coisa é cobrar do senador Dutra por que não denunciou imediatamente à mídia a possibilidade do painel do Senado ter sido violado, outra é implicá-lo na violação. No edição televisiva do Observatório da Imprensa (programa de 24/4/01), o senador foi cobrado por não ter posto a boca no trombone. Defendeu-se numa longa intervenção em áudio. Em nenhum momento foi acusado de violação.
O curioso é que a matéria contra o senador Dutra numa revista reconhecidamente anti-ACM está atravancada de informações nitidamente vazadas pelo ex-senador baiano ou por algum dos seus assessores.

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