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Alberto Dines


TV DO CATAR
Da al-Gazarra à al-Jazira

Vamos com calma: a emissora de TV do Catar não é modelo de independência ou objetividade. É, sim, uma extraordinária história de sucesso. De marketing. Descobriu um público, atende-o plenamente no seu idioma e com os seus valores e, no mundo árabe, converteu-se na primeira alternativa bem-sucedida à mídia ocidental [veja Imprensa em Questão, nesta edição, retranca AL-JAZIRA & BIN LADEN].

Mas naquele quadrante já houve histórias de sucesso eminentemente editorial. O caso que primeiro ocorre à memória é o do influente diário egípcio al-Ahram, cujo editor, Muhammad Heikal, foi considerado durante muitos anos o mais influente e respeitado jornalista árabe. Inclusive pelos colegas ocidentais.

O fato da maioria dos profissionais da emissora al-Jazira ter sido treinada em veículos ingleses e americanos não lhes confere automaticamente o diploma de independência, integridade ou objetividade jornalística [veja abaixo remissão para os comentários sobre o "debate" entre Judith Miller, do New York Times e Dana Suyyagh, da al-Jazira].

A recente viagem do âncora da al-Jazira Muhamed Krichene à Suíça rendeu uma série de matérias na mídia ocidental, inclusive brasileira, que engrossou a onda de simpatia em torno da emissora do reino do Catar [veja entrevista de Krichene na rubrica A IMPRENSA EM QUESTÃO]. Mas reforçam a impressão de que além da imagem de alternativa à CNN a emissora não chega a exibir um modelo jornalístico alternativo.

Das afirmações de Krichene, três precisam ser comentadas:

** As fitas com os depoimentos de Osama Bin Laden chegam prontas de Cabul. São realizadas pela assessoria da organização al-Qaeda, a emissora sequer manda as perguntas. Não há trabalho de reportagem, nenhuma intervenção jornalística. Portanto não são entrevistas. É pura propaganda. Exemplo do jornalismo fiteiro que tanto condenamos em nossas plagas.

** Krichene repete sempre que, pela primeira vez, os americanos estão fazendo uma guerra em que não contam com a mídia. O coleguinha desconhece ou esqueceu da guerra do Vietnã, que a mídia americana argüiu e condenou intensamente sobretudo nos seus oito últimos anos. Curiosamente os repórteres que o entrevistaram também esqueceram de cobrar o esquecimento.

** Diz ainda o âncora do Catar (catarense?) que a mídia ocidental não se interessa pelas imagens dos estragos e das vítimas civis dos bombardeios. Engano: fotos e imagens de refugiados, crianças e escombros têm mais visibilidade do que as fotos de combate. No mundo democrático, a mídia ainda acredita em princípios elementares como mostrar o outro lado.

Até o momento, o caso da al-Jazira (a ilha) está mais para algazarra (al-Gazara, gritaria) do que para os manuais de jornalismo.

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