CIRCO DA NOTÍCIA


MAGIA AUDIOVISUAL
Quem tem grampo tem tudo

Alberto Dines

Santa Semana Santa: o feriadão, entre outras benesses, trouxe pelo menos uma constatação: a preferência pela arapongagem nas revistas está inferiorizando o trabalho de reportagem. E isto ficou patente tanto em Veja como em IstoÉ, as velhas rivais.

Das duas últimas edições do semanário da Abril, jornalisticamente qual a mais importante? As gravações reveladas na edição 1695 com os 369 diálogos obtidos pela Polícia Federal envolvendo as trapaças da turma do senador Jader Barbalho no covil da Sudam? Ou a edição seguinte, na qual o repórter achou um documento de 22 páginas comprovando que o presidente do Senado foi sócio do principal acusado das fraudes na mesma superintendência?

A dúvida é esclarecida pela própria revista com o título da segunda matéria – "Apareceu a prova que faltava" (edição 1696, págs. 42-47). Aqui houve investigação, procura, busca e diligência. Os jornalistas se mexeram, foram agentes ativos, foram à rua e encontraram a prova. Irrespondível. Os implicados não podem alegar que a revista editou as conversas, tirou frases do contexto. Está tudo ali, tintim por tintim.

Na primeira matéria, escuta e transcrição de conversas telefônicas são peças de um inquérito realizado pelas autoridades policiais e que vazou para a redação. Por misteriosas razões. O jornalismo aqui foi do gênero passivo – alguém investiga, nós publicamos.

Por que motivo não se publicou primeiro a prova, fruto de uma investigação pessoal e, depois, a transcrição do grampo? Porque a simples menção da palavra GRAMPO funciona como atestado do teor explosivo da matéria. Garante repercussão. Papel, por mais carimbado que seja, não tem carisma. Não empolga. Não está no repertório audiovisual dos tempos que correm.

As gravações realizadas pela PF e reproduzidas na primeira matéria levantam suspeitas. Já o documento confirma culpas: a comprovação da sociedade de Jader Barbalho com o principal acusado de fraude na Sudam será suficiente para tirá-lo da presidência do Congresso, ou mesmo tirar-lhe o mandato. Façanha que as gravações sozinhas não conseguiriam.

IstoÉ (edição 1646) dá outro exemplo do mesmo fascínio pela arapongagem. Repórter e fotógrafo da revista flagraram o funcionamento de uma incrível maracutaia no ensino superior privado: caravanas de ônibus chegam de diversos estados ao município de Nova Iguaçu, perto do Rio, carregados de alunos que vão registrar a presença, entregar trabalhos e pagar as mensalidades na Unig (Universidade de Nova Iguaçu) e, depois, voltam sem assistir às aulas ou fazer pesquisas. Os trabalhos foram feitos por profissionais pagos para isso e os professores ganham para não ir. Os alunos querem diplomas e/ou titulação para enriquecer currículos ou reivindicar promoções. O esquema funciona também com a Facitec, de São Paulo.

A denúncia da revista é completada com as gravações realizadas com duas agenciadoras que levam e trazem a clientela de ônibus. Mas a capa e o subtítulo da matéria (págs. 38-43) não valorizam a investigação dos repórteres ou as fotografias mostrando os ônibus partindo à noite de Araras (SP) e chegando de manhãzinha a Nova Iguaçu. Apelo e ênfase estão nas gravações que, aliás, não foram realizadas por jornalistas, mas por um professor do interior de São Paulo.

Os dois casos se somam às cuidadas investigações publicadas pelo Globo e pela Folha e aqui apontadas na edição anterior [remissão abaixo]. Há, hoje, nas redações brasileiras, excelentes e diligentes repórteres investigativos capazes de sair em campo para levantar e comprovar denúncias em todas as áreas. Sem recorrer à arapongagem, ativa ou passiva. Têm suas próprias pautas. Não estão interessados em servir a interesses contrariados ou a jogadas políticas.

Querem seguir o próprio faro, usar seus próprios ouvidos, pés e mãos. Mas os editores, enfeitiçados, insistem em grampos, fitas e gravações.