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Alberto Dines

FONTES SUSPEITAS
Quando o grampo não é grampo

A Bolsa de São Paulo despencou, os bradies acompanharam, os juros futuros dispararam. Foi notícia nos principais sites informativos do mundo, colocou Brasília em polvorosa, provocou uma reunião extraordinária do presidente da República, do vice e mais sete ministros durante algumas horas. Dia seguinte, o clima das manchetes era de Sexta-feira Negra.

Motivo do novo Apocalipse: IstoÉ antecipou para quinta-feira à tarde a sua edição do fim de semana com a íntegra da transcrição de um grampo telefônico onde o juiz aposentado Nicolau dos Santos denunciava suas relações com o ex-assessor da Presidência, Eduardo Jorge, com o ministro Martus Tavares, o senador Romeu Tuma e seu filho Robson.

A transcrição da fita mostra claramente que trata-se de um caso diferente dos grampos anteriores. Se antes discutiu-se a ética de publicar um grampo ilegal desacompanhado de qualquer trabalho investigativo, agora estava em causa uma questão técnica: o grampo ilegal também era ilegítimo.

Pela simples leitura do texto percebe-se que aquela não foi uma conversa telefônica grampeada (com ou sem autorização judicial) onde os interlocutores, sem saber que estavam sendo espionados, faziam espontaneamente revelações sensacionais.

A fita publicada por IstoÉ reproduzia uma entrevista armada para que o juiz Nicolau declarasse voluntariamente o que lhe interessava dizer. Pelo teor evidenciava-se que era coisa recente. E, para dar ares de grampo legítimo, a revista sugeria que fora feito pela Polícia Federal ou pela Abin.

Não colou. No sábado os jornais já assumiam abertamente que o grampo não era grampo e que provavelmente a entrevista fora feita por um ex-assessor do ex-senador Luiz Estevão num restaurante paulista. A Polícia Federal e o Ministério Público anunciaram uma investigação sobre a fita enquanto que os advogados do juiz Nicolau denunciaram que aquela não era a sua voz. No domingo, os jornais publicavam o nome e a fotografia do possível autor do pseudo-grampo, ex-assessor do senador cassado.

IstoÉ garante que tomou previamente os cuidados cabíveis mandando examinar a fita por peritos. O advogado do ex-juiz garante que vai provar que a voz da entrevista não é do seu cliente.

Enquanto não saem os resultados da perícia, evidencia-se que IstoÉ prestou um enorme serviço ao jornalismo brasileiro ao desvendar as fronteiras imprecisas e pantanosas do vale-tudo. De hoje em diante os grampeadores terão que penar muito para convencer os editores de que suas ilegalidades são legítimas [veja abaixo remissões para matérias publicadas neste Observatório sobre a divulgação de escutas telefônicas suspeitas].




Quando a chuva não é notícia

Sábado, 15/7, contrariando as expectativas dos meteorologistas, choveu durante nove horas na cidade e interior de São Paulo. Interrompia-se uma das mais dramáticas estiagens deste século.

Começou a chover na capital por volta do meio-dia. Os jornais de domingo já estavam rodando. Foram para as bancas depois do almoço com a chuva já copiosa.

Para os jornalões paulistanos, na edição final do domingo (aquela que vai para os assinantes) não havia chovido. Não ocorreu a nenhum dos editores olhar pela janela ou mandar averiguar a situação dos reservatórios da cidade e da lavoura no interior.

A chuva só virou notícia nos informativos radiofônicos da manhã de segunda-feira, dia 17. No Últimas Notícias do UOL só apareceu às 20h49 da segunda-feira.

Compreende-se a apatia: estavam todos esgotados com a cobertura do grampo que não era grampo.




ASPAS
O Globo

"Voz de Fabão será apagada de fita", copyright O Globo, 12/7/00

"A revista ‘IstoÉ’ decidiu apagar a voz do interlocutor do juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto da gravação publicada em sua edição de quinta-feira passada [13/7], na qual o ex-presidente do TRT de São Paulo dizia que o ex-secretário da Presidência Eduardo Jorge o ajudava a liberar verbas para a obra superfaturada. A direção da revista afirmou que, antes de entregar as fitas ao Ministério Público, até o fim da semana, vai fazer uma perícia para comprovar se a voz é de Nicolau e apagar a voz do interlocutor ‘para preservar a fonte’.

Na reportagem, a ‘IstoÉ’ atribuía as gravações a agentes da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que negaram ter feito esse trabalho. O GLOBO publicou no sábado que as fitas foram gravadas por Fábio Simão, assessor do senador cassado Luiz Estevão conhecido como Fabão, num restaurante de São Paulo, pouco antes de o juiz aposentado fugir.

A decisão da revista de só entregar ao Ministério Público parte das gravações a que teve acesso, apagando das fitas a fala do interlocutor do juiz, foi lamentada por procuradores da República e criticada por integrantes do Governo. Eles acham que essa atitude reforça a conclusão de que as fitas foram gravadas com intenção de beneficiar Luiz Estevão.

Para o ministro do Planejamento, Martus Tavares, citado por Nicolau na gravação como tendo recebido o juiz a pedido de Eduardo Jorge, supostamente para ouvir pedidos de liberação de verbas para o TRT-SP, nenhuma informação relevante para a investigação do Ministério Público e da PF deveria ser omitida.

– Estou confiante de que o Ministério Público e a Polícia Federal vão restabelecer a verdade sobre a origem e o conteúdo da fita. Acho que nenhuma informação relevante, que possa contribuir com esse objetivo, deve ser omitida – disse Martus.

Para o líder do Governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), a decisão da revista reforça a idéia de que a gravação das conversas de Nicolau não passa de uma armação para proteger pessoas como Estevão. Essa hipótese não é descartada também pelo procurador da República no Distrito Federal, Luiz Francisco Fernandes de Souza.

– Juridicamente, o Ministério Público não pode fazer nada, porque a revista tem o direito de proteger sua fonte, mas isso dá desconfiança de que o outro (que aparece nas gravações conversando com Nicolau) pode ser mesmo Fábio Simão – disse Luiz Francisco.

Para Virgílio, a revista deveria divulgar toda a gravação:

– A gravação foi uma armação que visa a atingir certas pessoas e inocentar outras como o ex-senador Luiz Estevão. Trata-se de um instrumento espúrio.

A ‘IstoÉ’ informou que só vai entregar ao Ministério Público os trechos da gravação em que o juiz Nicolau aparece falando. A revista também pretendia retirar ontem a gravação da Internet, apesar de a voz do interlocutor de Nicolau ter sido alterada eletronicamente.

O Ministério Público precisaria de uma gravação integral para encaminhar a fita para a PF. Por isso, o procurador Luiz Francisco está fazendo um apelo para que, quem quer que tenha uma cópia da fita, encaminhe o material a ele.

Para o procurador da República no Distrito Federal Guilherme Schelb, a decisão da revista de divulgar apenas parte das gravações prejudicará as investigações:

– É claro que isso vai prejudicar as investigações, à medida que teremos só informações parciais sobre as gravações. Mas, de qualquer forma, é melhor do que nada.

A PF de São Paulo deve tomar, na próxima semana, os depoimentos dos jornalistas da ‘IstoÉ’ Mino Pedrosa e Ricardo Miranda, autores da reportagem. O diretor de Redação da ‘IstoÉ’, Hélio de Campos Melo, disse ontem que uma cópia da fita com a gravação será entregue ao Ministério Público Federal em Brasília até o fim da semana, junto com um laudo pericial confirmando que uma das vozes é a do juiz.

Segundo o delegado Vieira Cezar, da PF, que abriu inquérito para averiguar a procedência da fita, ao apagar a voz do interlocutor, a ‘Isto É’ estará adulterando uma prova.

Campos Melo admitiu que a fita pode não ter sido gravada pela PF e pela Abin, como afirma a reportagem. Segundo ele, a fonte da informação disse ao repórter Mino Pedrosa que teria outras 400 horas de gravações. O repórter teria então concluído que a fita entregue a ele fazia parte de um lote maior gravado pela PF e pela Abin.

– Não sei quem gravou a fita. Mas o que interessa mesmo é o teor da gravação – disse Campos Melo."

 

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