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Mídia carioca faz jogo perigoso

A comparação entre as primeiras páginas dos quatro jornalões nacionais da última quinta-feira (13/4/00) pode render avaliações preocupantes. Para a imprensa carioca.

Foi o dia seguinte ao jogo Inter vs. Lazio, em Roma, quando Ronaldinho sofreu sua segunda contusão. A forma com que os jornais cariocas e paulistas destacaram o dramático episódio indica uma clara divisão de tendências. Os chamados quality papers (jornais de qualidade) diferenciam-se regionalmente.

Os cariocas (O Globo e Jornal do Brasil) ocuparam todo o alto da primeira página com a foto do jogador gritando de dor. Na parte inferior, "o resto" – a demissão do secretário Antidrogas, Walter Maierovitch, a queda de 7% no índice Nasdaq e o surpreendente segundo turno nas eleições do Peru.

Os paulistas (melhor dizer paulistanos, porque a imprensa da capital não reflete o interior do estado) deram a mesma seqüência de fotos no alto da primeira página mas mantiveram os demais assuntos acima da dobra, de forma a atender aos interesses dos diversos tipos de leitor.

Não foi coincidência nem isso é detalhe. A imprensa carioca de qualidade tende mais para o popular do que a de São Paulo. Pode alegar-se que sendo Ronaldinho carioca é natural que os jornais do Rio tenham valorizado o acidente mais do que os outros. O argumento não vale porque a imagem do jogador é de brasileiro e como brasileiro se apresenta no exterior.

A grande verdade é que a guinada popular do JB a partir de janeiro está empurrando o adversário (O Globo) de volta às origens vespertinas. Isto é: o jornal de menor circulação está influenciando o poderoso rival. Deveria ser o contrário.

Como isso não aconteceu apenas no caso do famoso jogador mas também no caso dos bandidos (Mauricinho Botafogo vs. Marcinho VP), percebe-se que a mídia carioca está fazendo uma opção que pode ser boa para o pessoal do marketing mas, como sempre, é péssima para o leitor qualificado.

 

Maracutaias locais
desmascaram jornais nacionais

O mérito da súbita ampliação da rede de escândalos de São Paulo para o Rio foi de mostrar que os chamados jornalões, apesar de uma presença símbólica em outras praças, são na realidade jornais locais.

E não podia ser diferente: a maioria dos grandes jornais do mundo é eminentemente local ou, no máximo, veículos de regiões metropolitanas. O jornal nacional impresso em papel é uma ilusão. Ou falácia. Os veículos on line poderão ser nacionais se e quando as respectivas empresas investirem em sucursais e correspondentes. Isto ainda não aconteceu.

O mar de lama de Pitta, Maluf & Cia. ocupa 80% das atenções do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo. As trapaças e trapalhadas de Anthony Garotinho absorvem os mesmos 80% do Jornal do Brasil e do Globo. Como os três semanários ditos nacionais estão localizados em São Paulo é natural que se inclinem para as bandas podres que lhes são mais próximas.

Moral da história: no ano dos 500 anos descobrimos que existe um país mas ainda não existe uma imprensa capaz de acompanhá-lo por inteiro.

 

Estadão gosta de Bundas
mas tem vergonha de dizer

A tacada deste primeiro quadrimestre foi o contrato entre o aristocrático O Estado de S.Paulo e o esculachado semanário carioca Bundas. Tacada boa é aquela que é boa para as duas partes.

O quatrocentão lavrou um tento quando contratou o grande Millôr Fernandes para fazer a última página do suplemento "Cultura" dos domingos. Agora, aos sábados, no mesmo caderno, apresenta uma bundinha ou mini-Bundas – uma página com alguns dos chargistas do sucessor do Pasquim.

O semanário precisava ficar mais visível em São Paulo e ganhou uma respeitabilíssima plataforma. O jornalão precisava rejuvenescer e foi buscar o seu viagra no Rio.

A nota engraçada foi dada pelo lançamento da nova atração na primeira página do Estadão (edição de 8/4/). Na chamada do imponente jornal evitou-se qualquer menção ao nome Bundas. Preferiu-se o eufemismo: os novos colaboradores são da revista que é o contrário de Caras.

Nesta história a imprensa carioca está comendo mosca.

 

Banda podre em letra de forma

Quando uma publicação precisa berrar em letras garrafais que aquela matéria é UM FATO JORNALÍSTICO, ela própria está duvidando da legitimidade do que pretende revelar. Se assim não fosse, jornais e revistas teriam que justificar todas as suas informações ou reportagens com a chancela de "Fato Jornalístico".

Matt Drudge, o fofoqueiro-mor da internet americana, foi mais decente quando tentou explicar por que revelou as dicas que recebera do promotor ultradireitista Kenneth Starr: "Não sou jornalista, sou repórter". Avacalhou-se, inventou uma diferença maluca mas não comprometeu o jornalismo.

A recente apelação de Caros Amigos tem nome: imprensa marrom.

 

Impostura convertida em verdade

Na sua nobilíssima página 3, edição de 30 de março, a Folha de S.Paulo publicou um texto do ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, dileto colaborador. Em menos de três laudas o professor de aritmética – hoje empresário do ensino superior privado – cometeu cinco erros históricos graves e, pelo menos, três outras imprecisões. Recorde.

Pelo menos um leitor, o professor Nachman Falbel, da USP, mandou imediatamente uma carta ao "Painel do Leitor" exigindo retificação. A carta só foi publicada duas semanas depois, na edição de 17 de abril. Na íntegra e sem contestação. Autor e jornal assumiram o vexame.

Tarde demais: fiado na veracidade da informação da Folha, o rabino Henri Sobel repetiu os mesmos e insólitos erros num artigo publicado na Época (edição nº 100, de 17/4/00).

Breve, teremos uma monografia e uma tese de pós-graduação e a impostura será consagrada como verdade.

 

CARTAS
O filho oculto de FHC

Nesta semana, após a primorosa publicação pela revista Caros Amigos da reportagem "Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo?", houve uma grande quantidade de conversas e fofocas sobre o assunto. Contudo, na grande mídia, escrita e principalmente televisiva, parece que nada aconteceu. Nada se comenta ou se publica sobre o fato. Há um silêncio ensurdecedor. Parece haver um tabu sobre isto na grande mídia.

Pessoas que não estejam razoavelmente bem-informadas nada sabem sobre o assunto, pois a Caros Amigos é uma revista de tiragem muito pequena quando comparada com as grandes. Várias simplesmente não acreditam na história. Muitas, após tomarem conhecimento do fato, se sentem como marido traído. Na verdade, sentem-se traídas pela grande mídia, que omite os fatos de forma criminosa, quando não os distorce.

Na verdade, o que interessa agora já não é mais a existência ou não do filho do presidente, e sim o silêncio da mídia sobre o assunto. Este silêncio desnuda por completo as relações espúrias entre a mídia e o poder, de que há muito se suspeitava, inclusive no Observatório.

Nada mais emblemático das relações mídia-poder no governo FHC do que esta conspiração tácita de silêncio. Lembra os tempos da ditadura militar, com uma diferença fundamental: a censura mostrava a sua cara e operava de modo arcaico; agora, opera sutilmente, com mecanismos mais refinados, o que a torna mais perigosa e eficiente. São mecanismos econômicos e de auto-censura.

Não há outra palavra para qualificar esta hipocrisia: é uma palhaçada. A reportagem da Caros Amigos começa a desnudar estas relações incestuosas mídia-poder, e espero que ganhe o Prêmio Esso de Jornalismo deste ano. Mas isto é apenas o começo. Há muitos outros "filhos não-assumidos de FHC" por aí (...), que já foram gestados ou estão em gestação e que só aparecerão para o grande público em alguns anos, quando for tarde demais para abortá-los e extirpá-los. Na realidade, o ventre que os gerou e os gera continua fecundo, como diria Brecht.

Portanto, espero que este assunto seja tratado no Observatório da Imprensa, pois já passa da hora de levantar o véu da hipocrisia.

Antônio César Bozzi

***

Quero comentar a não-repercussão na grande imprensa do caso apresentado na Caros Amigos sobre o filho fora do casamento de FHC. Sem entrar na questão ética – na minha opinião é irrelevante o que faz FHC como cidadão comum –, não é no mínimo estranho a grande imprensa ter se calado? Desde quando temos imprensa ética, que deixa de lado manchetes escandalosas e preserva a vida privada de pessoas públicas? Será que houve um cala-boca" geral para cima dos grandes veículos? Ou será que é mentirosa a notícia e por isso ninguém falou nada?

Marcelo De Valécio, São Paulo



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