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Informação e credibilidade

Dora Kramer

 

"É correta, mas incompleta, a preocupação vigente com as ações que denotam pré-julgamento nas investigações sobre a venda de dólares subcotados pelo Banco Central a bancos de investimento. O presidente da República lembrou os horrores do ‘arbítrio’ ao invocar comparação entre o ato de busca e apreensão de documentos na casa de Francisco Lopes e as invasões de busca e apreensão de cidadãos perpetradas pela ditadura.

A base da argumentação é a defesa de um princípio, o de que o estado de direito é conceito universal não podendo ser adaptado às circunstâncias. Pode-se contra-argumentar que a Polícia Federal e os jovens procuradores estavam ali respaldados por um mandado judicial, embora o documento não lhes desse o direito de escarafunchar e apreender papéis de outrem, como se deu com um trabalho de faculdade da filha e fotos do álbum de família de Chico Lopes.

Como de resto também não lhes conferia a prerrogativa de posarem de paladinos da ordem travestidos de Eliot Ness – convicção da qual pareciam seriamente imbuídos na entrevista que deram em defesa das próprias ações. Notadamente porque o caso veio a público bem antes da criação da CPI e, tendo o Ministério Público o direito de agir sem anterior provocação, a tarefa poderia ter sido levada a termo a qualquer tempo, antes mesmo que se acendessem os holofotes de uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Mas não foi porque as coisas neste país ultimamente estão assim: ou acontecem em frente às câmeras de televisão – pouco importa se legalmente perfeitas ou imperfeitas – ou não acontecem de maneira alguma. Há uma distorção de comportamentos.

Que, aliás, é geral desde que procuramos reorganizar o Brasil para a vigência da democracia, mas esbarramos nas sementes maléficas plantadas pela ditadura e terminamos por olhar com condescendência certas inversões: universidade virou sindicato, sindicato virou partido político, partido político virou balcão de negócios e imprensa virou um misto de Judiciário, Ministério Público, delegacia de polícia, quando não arena de disputa de interesses que podem estar gravados em fitas ou acondicionados em dossiês.

Todos se mantêm silenciosos a respeito de tudo, mas quando o escândalo explode nos jornais e nas revistas pululam justiceiros e as autoridades verdadeiramente responsáveis assumem um comportamento ladino: paralisam suas atividades na quinta-feira à noite, passam a sexta avaliando se o episódio amanhece vivo na segunda-feira e terminam por concluir que é melhor esperar para ver ‘o que trarão as revistas no fim de semana’.

E aí é que entra a outra parte da história que o presidente da República, os senadores, a polícia, até agora ninguém abordou de frente: o papel dos veículos de comunicação no espetáculo circense em que se transformou certo tipo de jornalismo, antigamente denominado investigativo. Hoje o termo é incorreto porque dificilmente as denúncias são fruto de investigação. Esse tipo de informação em geral ‘corre’ atrás da impressa, não raro escolhendo o veículo ideal para sua publicação.

Como o presidente evitou tocar no tema – e faz bem em se manter fora disso, porque o Estado quando trata do assunto tende a sugerir limitação de liberdades – cabe à própria imprensa não continuar a fugir o assunto e enxergar que existe uma questão que precisa ser resolvida diretamente entre a sociedade e os canais de que ela dispõe para se informar, avaliar e interpretar os fatos.

Partindo desse princípio é que quem lida com informação não pode ignorar que essa função pressupõe a responsabilidade da preservação da liberdade de expressão, que é direito coletivo, combinada com a não agressão às leis e às garantias individuais.

Ao tema em questão interessa menos o mérito a respeito das culpas que estão sendo investigadas no momento e mais os procedimentos diante de boa parte das denúncias que são feitas. O episódio BC, aliás, serve apenas como oportunidade ótima para o início do debate, onde o ideal é que os participantes não se percam em acusações mútuas e individualizadas.

Útil mesmo é refletir sobre até que ponto a imprensa continua dona de sua prerrogativa de avaliar o que é informação verdadeira ou se já abriu mão dela e trabalha a reboque daquilo que uma percepção difusa a respeito da moralização lhe impõe que seja publicado.

As CPIs transformaram-se em shows porque quem delas participa sabe que são momentos de rara e garantida publicidade.

Dossiês e fitas gravadas fazem sucesso independentemente de sua qualidade – e, pior, legalidade – porque precisam ser muito inconsistentes para que não encontrem quem lhes dê abrigo. Falsificadores em geral não se constrangem em apresentar suas montagens como se notícias fossem porque já se acostumaram com a evidência de que sempre há quem se disponha a publicá-las, mesmo que ao arrepio da verdade.

Não são poucos os exemplos em que a imprensa prestou grandes serviços a este país. Mas são vários os casos em que denúncias inconsistentes e apressadas renderam investigações imperfeitas, de resultados nulos, distorcendo a dimensão da impunidade. O que é um desserviço para todos. Principalmente para o jornalista cuja credibilidade é patrimônio indispensável ao exercício da profissão."

copyright Jornal do Brasil, 20/4/99

CASO MARKA
Maneira de buscar a
verdade pode comprometê-la

 

INFORMAÇÃO OBTIDA sob tortura não é válida. Grampo sem autorização judicial não é prova. Denúncia vazia compromete o denunciador. Uma acusação pode ser verdadeira ou próxima da verdade, mas se não for apresentada convincentemente estará comprometida.

Não cabe a este OBSERVATÓRIO confirmar ou desmentir as acusações sobre o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central para o mercado financeiro. Não nos interessam os personagens dessa trapaça, por mais importantes que sejam. Até o momento, tudo indica que havia efetivamente um canal de comunicação irregular entre o poder decisório e o mercado. A extensão e funcionamento desse canal deverão ser esclarecidos brevemente.

Aqui importa a maneira como a imprensa apresentou as primeiras suspeitas. O que preocupa é a falta de cuidado, a afobação, os métodos impróprios para buscar a verdade mesmo que a verdade pareça óbvia e irrefutável. Alega-se que a imprensa não substitui os tribunais. A estes, sim, cabe provar e condenar. Mas, por outro lado, é preciso não esquecer que podem ocorrer linchamentos como o da Escola-Base quando a imprensa se precipita e confunde indícios com evidências – crimes que tribunal algum conseguiu reparar.

O primeiro lance ostensivo do Caso Marka coube à Veja (edição nº 1593, 14/4/99). Em matéria efetivamente exclusiva, o semanário informa que "Cacciola tem informações explosivas sobre suas relações com o Banco Central" (subtítulo da matéria, pgs. 38-43). No texto não há declaração alguma do protagonista, mas de quatro fontes secundárias, interlocutores de Cacciola, que dele ouviram as tais informações explosivas.

As revelações do semanário tomaram conta do noticiário durante a semana seguinte soterrando o confronto entre o Legislativo e o Judiciário, a briga partidária pelas CPIs e chegou a provocar declarações do Presidente da República no exterior.

Na edição subseqüente (nº 1594, 21/4/99), em matéria de capa, o semanário revela afinal o nome de três dos quatro interlocutores que ouviram de Cacciola as "informações explosivas" publicadas na semana anterior. São apresentados como testemunhas mas nada testemunharam sobre o vazamento de informações, apenas ouviram as alegadas bravatas do ex-banqueiro sobre as suas conexões com o BC. Diante da contestação de Cacciola, Veja conseguiu que três das quatro fontes admitissem a revelação dos seus nomes. Mas não revelou o que todos os jornais vêm divulgando: pelo menos um deles, Leon Sayeg, é parte interessada – lidera uma ação judical dos cotistas do Fundo Marka contra o ex-banqueiro para tentar ressarcir-se dos prejuízos sofridos com a desvalorização cambial. Seu testemunho pode ser verdadeiro mas é suspeito.

No meio da matéria, Veja faz o incrível comentário: "Se Chico Lopes estiver sendo injustamente envolvido no caso, poderá atribuir parte do seu calvário atual à atitude omissa de seus ex-colegas da equipe econômica que, até agora, não vieram a público esclarecer sua demissão de maneira que pareça convincente..." (pg. 41-42).

Se Chico Lopes estiver sendo injustamente envolvido não poderá atribuir parte do seu calvário também à imprensa?

Embora sem nenhuma relação com o Caso Marka, mas servindo como lembrete aos denunciadores apressados, vale reproduzir o pedido de desculpas ao ministro da Defesa Elcio Alvares, publicado pelo jornalista Elio Gáspari na sua coluna de domingo, 18/4/99:

...Como é que se comete um erro deste tamanho? Em princípio não se deve escrever uma coisa dessas sem a devida verificação. Em certos casos, confia-se em pessoas que, por diversos motivos, não teriam motivos para se enganar. Infelizmente a vida tem as suas surpresas. Nesse caso, causando dano a um homem público. Essa explicação não diminui em nada a extensão das desculpas dadas ao ministro e aos leitores.

 

Informação e
"informação privilegiada"

EM PRINCÍPIO, toda informação é privilegiada na medida em que, sendo verdadeira, permite decisões para auferir lucros ou vantagens. A expressão vem do inglês "inside information" (informação de dentro), utilizada no jargão do mercado de capitais.

O jogo jornalístico gira em torno da obtenção de informações ditas privilegiadas, visando ou não sua publicação. Acontece que veículos jornalísticos são produzidos por empresas comerciais que, de posse de informações "privilegiadas", podem fazer delas outros usos antes de serem oferecidas ao conhecimento público.

O comportamento de um grande veículo diante de um fato econômico ou político pode afetar a conjuntura, reverter tendências, influir em índices e cotações. Daí porque o mercado financeiro, inclusive no Brasil, está aprendendo a monitorar e antecipar – em tempo hábil, de véspera – o conteúdo dos principais jornais ou revistas. O que vale dizer: a imprensa vive à procura de informações privilegiadas mas ela é, em si, uma geradora de informações privilegiadas. Que não se resumem ao noticiário – pode ser um editorial, um tópico, um título, uma nota numa coluna de variedades.

Convém refletir sobre essa questão.

 

Globalização à distância

A TELEVISÃO BRASILEIRA desaprendeu a cobrir fatos internacionais. Acostumou-se a comprar imagens, sobretudo da CNN e, em cima delas, coloca um texto. No caso da TV Globo, que dispõe de sucursais em Nova York e Londres, o texto que acompanha as imagens compradas é, geralmente, apresentado por um jornalista da equipe desfilando nas ruas da respectiva cidade, a milhares de quilômetros de distância dos fatos.

A história do mundo neste final de década foi assim acompanhada pela TV brasileira: com base em "passeios" de menos de um minuto de duração.

As revistas semanais, que até há poucos anos contavam com correspondentes nas principais capitais do mundo, contentam-se em comprar fotos das agências internacionais embaixo das quais colocam um texto convencional – preparado com base em recortes e nem sempre redigido por especialistas.

Os jornais que poderiam oferecer um contraponto mais denso contentam-se com o modismo dos "infográficos". Continuam adeptos da religião de Navarra, segundo a qual um gráfico vale mil palavras.

Será isso suficiente para preparar a sociedade brasileira para os desafios da era da globalização?

 

Mídia esconde
suas mazelas

AS EMPRESAS DE MÍDIA gastam fábulas de dinheiro nas revistas e TVs para badalar os seus recordes de circulação ou de anúncios classificados. Querem mostrar seus feitos e aumentar o prestígio. Nada mais justo.

Quando se trata de vangloriar-se em matéria de tiragem ou circulação, o aferidor mais importante é o IVC (Instituto Verificador de Circulação), auditoria criada por meio de um acordo entre empresas de publicidade e empresas de mídia – uma espécie de ibope cujas sentenças jamais foram contestadas.

Neste momento trava-se no Rio uma guerra inédita em torno da credibilidade do IVC. Tudo porque O Dia publicou, em 11/1/99, um anúncio bombástico para mostrar o seu salto espetacular em matéria de venda de jornais. O Globo, principal concorrente, estrilou. Acionado o IVC, verificou-se que os dados apresentados em janeiro foram obtidos com critérios estatísticos diferentes.

O Dia foi suspenso do sistema de auditagem coletiva. Mas botou a boca no trombone com anúncios de página inteira (semana de 12/16 de abril). O resto da mídia, sobretudo aquela que se pretende nacional, está ignorando a celeuma.

Isso é grave. Não importa quem tem razão, importa que o assunto não seja escamoteado. Se o IVC tem sido apresentado à sociedade como uma referência acima de qualquer suspeita, é indispensável que as discussões que o envolvem sejam trazidas ao conhecimento público. Não é caso de primeira página, mas é caso para ser acompanhado. Afinal, o que está em discussão é a credibilidade de quem dá credibilidade aos jornais e revistas.

Se a mídia e o sistema que lhe dá suporte não gostam de transparência, não devem exigir transparência em outras esferas e poderes.



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