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Ciro errou, Folha exagerou
A Receita Federal não vazou para a Folha as declarações sigilosas do Imposto de Renda de Ciro Gomes e da sua ex-mulher, Patrícia Gomes. Os documentos são públicos e foram fornecidos pela Justiça Eleitoral já que os dois foram candidatos nas eleições passadas e, nessa condição, estavam obrigados a fornecê-los.
Com base nessas informações a Folha publicou com grande destaque na sua edição de domingo, 10/10, que "Ciro omitiu renda ao declarar IR". E na sua edição do dia 14/10 (pág. 1-12) reproduziu o fac-símile do seu requerimento ao TRE do Ceará pedindo cópia da documentação.
Até aqui, tudo correto. O que não está correto é o seguinte:
*** O destaque dado à denúncia foi evidentemente exagerado. O erro é pequeno demais para ser considerado fraude ou má-fé do declarante.
A Folha pretendeu "fazer barulho". Mais uma vez.
*** O requerimento à Justiça Eleitoral solicitando a liberação das informações é datado de 28 de setembro de 1999. Justamente no momento em que Ciro Gomes estava no auge, desbancando Lula como o preferido para suceder FHC (a consagradora capa da Veja é datada de 29/09, mas a revista saiu no sábado, 25/09)
A Folha fez uma jogada política. Mais uma vez.
Proibido acontecer
qualquer coisa no sábado
A morte do grande João Cabral de Melo ocorreu no Rio cerca das 11h30 do sábado, 9 de outubro. Os primeiros cadernos das edições de domingo já estavam rodando. Por isso parte da audiência nacional dos quatro jornalões ficou sem a informação. Nas edições subseqüentes até o meio da tarde foram atualizando o noticiário.
Apesar do esforço de alguns (a Folha conseguiu publicar na edição local uma espécie de caderno em homenagem ao poeta), o resultado foi pífio. Mesmo na segunda-feira, quando dominou o noticiário sobre o enterro. Só a partir da terça-feira é que a imprensa diária conseguiu dar alguma dimensão à figura desaparecida – portanto, três dias depois. Considerando-se o feriadão, muito leitor de jornal só tomou conhecimento na quarta-feira.
Claro que as rádios e as televisões tentaram preencher a lacuna mas, se as primeiras estão desaparelhadas para oferecer coberturas culturais satisfatórias, as outras não se mostram inclinadas a dedicar muito tempo a esse tipo de assunto, considerado elitista.
No sábado seguinte, em Brasília, a partir das nove da manhã, 15 governadores reuniram-se com o presidente da República e os ministros da área econômica para uma importante reunião – badalada com insistência ao longo da semana por tratar da dívida dos estados, pensões dos inativos, ajuste fiscal etc.
No dia seguinte, domingo, o noticiário foi raso, incompleto e insatisfatório. As análises políticas, os bastidores e, sobretudo, a dimensão do encontro só apareceram na segunda-feira. Pergunta-se:
*** Se os jornais, como indica o próprio nome, são diários, por que razão apresentam-se desatualizados no dia mais importante da semana?
*** Para que servem os jornais de domingo?
*** Em que país do mundo os primeiros cadernos de domingo começam a ser rodados na manhã da véspera?
*** Qual a vantagem de ter o jornal de domingo no sábado à tarde se os telejornais da noite apresentarão um noticiário muito mais atualizado?
*** Por que deve o leitor dos estados pagar mais caro por um jornal que chega às suas mãos incompleto?
Bons poetas não morrem jamais. Mas se acontecer no sábado, desaparecem [ver abaixo].
E Veja não se corrige
A capa da edição 1619, de 13 de outubro, tem um big-close do jogador Edmundo e a chamada "Animais no volante". O sub-titulo completa: "Casos como o do jogador Edmundo mostram o que a Justiça pode fazer contra a barbárie do trânsito".
A matéria de oito páginas, bem documentada e angulada, certamente estava pronta antes da prisão do craque. E a inclusão do jogador é perfeitamente justificada.
O que está errado é a capa – um linchamento.
Por isso:
*** Quem inventou o apodo de "Animal" para Edmundo foi a mídia.
*** Edmundo não foi o primeiro irresponsável que causa mortes no trânsito. Antes e depois do acidente em que se envolveu houve outros de maiores proporções.
*** Edmundo serviu de modelo para uma capa de denúncia simplesmente porque era a celebridade disponível.
A fuzarca das
universidades privadas
Os jornais do Rio exibem aos domingos anúncios de páginas inteiras pagos pelas fábricas de diplomas locais. No meio da semana são menores, mas o segmento é hoje um dos grandes anunciantes da imprensa carioca. Razão pela qual nenhum jornalista se aventura em investigar os "produtos" anunciados.
Na sua edição de domingo, 17/10, O Globo publica anúncio de página inteira pago pela Universidade Estácio de Sá para promover a sua novidade: a "Escola Superior de Terapias Naturais".
O anúncio é uma verdadeira reportagem sobre a farra e a troça em que se cconverteu o ensino superior privado. Sob as vistas complacentes da imprensa.
Alguns dados:
Além de cursos de extensão em matérias como hipnose, radiestesia, Reich, terapia de regressão da memória e outras novidades, a Escola Superior de Terapias Naturais oferece cursos superiores com diploma de terceiro grau em sete especialidades, entre as quais hipnoterapia, farmacoterapia naturalista etc. etc.
Na direção desta Escola Superior que formará profissionais que cuidarão de vidas humanas são citados dois nomes, aparentemente brasileiros, qualificados como Doutores Honoris Causa numa University of European People em Málaga, Espanha.
Isso merece investigação: do Ministério da Educação, do Conselho Regional de Medicina, do Conar e sobretudo por parte do próprio jornal que veiculou a peça.
Peripécias do ‘domingão’
Matéria destacada na primeira página do caderno "Dinheiro" da Folha, (domingo, 17/10): "Mercado vê mais turbulências em N.Y.". A matéria é apresentada como sendo de responsabilidade da Reportagem Local. Era suíte (continuação) da grande queda de cotações da bolsa de Nova York na sexta-feira.
Como grande parte do jornal de domingo deve ser fechada na própria sexta e como a equipe estava ocupada em fazer a edição de sábado com os relatos circunstanciados da véspera, sobrou para o domingão essa coisa esdrúxula: o "mercado" de N.Y. auscultado pela Reportagem Local (isto é, São Paulo) onde foram ouvidos três funcionários de instituições financeiras – sem que se saiba onde estavam e como foram entrevistados.
Época faz ‘puro
marketing’ com Xuxa
O semanário global tem tudo para destacar-se como alternativa para quem deseja algo mais qualificado do que Veja ou Isto É. O que atrapalha é ser global. A entrevista com Xuxa, destacada na capa da edição 73 (11/10), é apresentada como "puro jornalismo". Mas é puro marketing da apresentadora e do canal que a apresenta.
O desgaste de Xuxa vem aumentando à medida em que ela força a barra para promover o seu negócio. O show no nascimento da filha, a "separação" de Szafir, a ostentação do primeiro aniversário, a merecida bronca que levou do ministro Serra e, sobretudo, a inexorável passagem do tempo – tudo conspira contra ela.
Razão pela qual resolveu "abrir-se" numa entrevista. Adriane Galisteu saiu-se melhor nas "amarelas" da Veja.
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