Especial de Fim de Ano

 

1997, ANO MARROM
Uma agenda para não repetir

Alberto Dines

* De Lady Di ao filho da Xuxa:
a tabloidização da mídia

* Do domingão à baixaria:
jornalismo requentado e vidiotismo

* Do diktat empresarial
à fraude pesquisótica:
a religião dos números a serviço
dos deuses do mercado

* Paulo Maluf, embuste-emblema
do Jornalismo Tititi

* Promessa para 98:
racha no cartel

* Final trágico: prestígio da imprensa
é igual ao de quem vende jornal.

Ano para não esquecer: véspera do século, trailer do novo milênio, diante das ruínas da Era dos Extremos, os vanguardeiros da Era do Conhecimento brindaram a humanidade com uma amostragem do futuro.

A cor da moda nos salões, desfiles, suplementos e redações foi o noir que tanto agrada aos endinheirados (sempre de luto pelo que perderam). Mas a cor que resulta (impressa ou televisada) é o marrom, cor de esgoto, degradação.

Foi o ano do nivelamento por baixo: o poderoso Murdoch igualou-se aos paparazzi, os barões assumiram seu lado lúmpen, jornalões encolheram para o tamanho tablóide, Diana Spencer virou Lady Di - sete batidas que simbolizam o apequenamento de uma instituição que encarna a democracia.

A infeliz princesa, Vera Fischer e Xuxa com o seu pênis de aluguel comprovaram que o voyeurismo prefere as louras mas a idiotização não tem fronteiras e ultrapassa os segmentos socioeconômicos.

Para cada jogada sensacionalista haverá sempre um executivo teorizador, regiamente remunerado, para lembrar o martírio de Larry Flint e o inalienável direito de chafurdar na lama. A mídia de qualidade ou sem qualidade, indiferenciada, precisa de multidões de imbecis para impingir suas meias-verdades que alguns acadêmicos circenses encarregam-se de produzir continuamente.

Para legitimar as diferentes manipulações inventou-se a numerologia mistificadora dos painéis de leitores, a data-mania, sem data-vênia. Pesquisas instantâneas, feitas no joelho, seqüestraram as maiorias com opiniões extorquidas de minorias alheadas e aleatórias. Com estes "indicadores" fez-se o Jornalismo do Tititi, opinionismo descuidado e interesseiro que alimenta o noticiário fragmentado das colunas invertebradas.

Em 1997, o D. F. converteu-se definitivamente em sigla do Departamento de Fofocas, sede do imenso sindicato de abraços e notas de favor, mesmo quando são contra.

Paulo Maluf, o maior embuste dos últimos 30 anos, é o emblema deste jornalismo "político", insensível à moralidade, escárnio à memória de repórteres céticos e olímpicos como Carlos Castello Branco.

A mitologia-mitomania malufiana começou na ditadura quando a imprensa deliciava-se na autocensura e Ibrahim Sued era o porta-voz de Yolanda Costa e Silva, madrinha assumida de ambos. Continua hoje, em cores e ao vivo, quando o banho-maria foi substituído pelo microondas e as edições de sábado, domingo e segunda, congeladas e requentadas, são fechadas a tapa na madrugada de quinta e sexta. Entra tudo, vale tudo.

Os vícios da TV aberta transferiram-se de mala e cuia para a TV fechada onde a pretexto de falta de recursos premia-se a inexperiência, a apelação e a burocratização. O assinante de TV que paga as maiores taxas do mundo é tão ludibriado quanto a elite freqüentadora de restaurantes que desembolsa por uma reles macarronada o preço do pote de caviar.

O Jornal Nacional, que no primeiro semestre fez uma revolução no telejornalismo com investigações exemplares e impecáveis, evaporou-se na segunda metade do ano. Voltou a ser uma coleção de flashes lacrimosos, almanaquescos e simplistas onde se evidencia a subordinação do jornalismo à administração. Os concorrentes agradeceram penhorados o recuo equalizador. Os diários suspiraram, aliviados, porque já não precisam arrancar os cabelos quando o Jornal Nacional revela algo que não cobriram. Agora, só dá trivial.

Larry King, os suspensórios falantes da CNN, converteu-se em paradigma de um telejornalismo cada vez mais talk-show, onde o produtor é mais importante do que o repórter e este é um autômato comandado por editores histéricos que só pensam em produtividade para merecer o bônus de fim-de-ano.

Num ano de tão profundas revisões constitucionais as grandes empresas pisotearam abertamente o artigo 222 da nossa Carta num desprezo ostensivo pelos procedimentos parlamentares. E isto em matéria praticamente unânime - o fim da reserva de mercado para a propriedade das empresas jornalísticas.

E numa questão onde há tantas divergências dentro da sociedade (a necessidade de uma Lei de Imprensa para coibir os notórios abusos) as corporações patronais utilizaram a técnica do cala-a-boca através de anúncios com viés nitidamente autoritário para retirar o assunto da pauta, ignorando os pontos de vista daqueles que exercem o jornalismo: os jornalistas.

Ano Marrom, Annus Horribilis: a ameaça à liberdade de informação e expressão não veio de governos autoritários, teocráticos ou grupos econômicos. A censura à mídia prenuncia-se pela mão da própria mídia que sutilmente se organiza como monopólio político e cartel econômico traçando suas Tordesilhas e repartindo as capitanias à revelia dos outros interesses da sociedade.

Neste sentido, destaca-se a série de denúncias da Folha contra os telessorteios onde, a pretexto de beneficência, tanto o baixo clero como o episcopado da mídia lesam o fisco, o público, a moral e a Lei.

Desenvolvidas ao longo de meses por uma repórter especializada em matéria de concessões de TV - talvez a única no Brasil -, Elvira Lobato, as reportagens constituem a primeira ruptura no pacto de não-agressão que vigora tacitamente entre as empresas de comunicação. A suspensão destes sorteios pela Justiça de Federal em São Paulo desvenda a ampla pauta sobre os desvios cometidos ou acobertados por empresas jornalísticas de pequeno, médio ou grande porte.

Este talvez tenha sido o único resultado concreto do projeto Folha-97, um extraordinário manifesto de crítica e autocrítica que não conseguiu materializar-se através de benefícios ao leitor.

A imprensa não pode falar em moralização dos poderes enquanto ela não moralizar-se utilizando sua independência, sua própria capacidade investigativa e seu compromisso com o interesse público.

A decisão do juiz federal que suspende o pano verde da TV, datada de 9 de dezembro, encerra um ano infeliz com promessas otimistas. O que não impediu a pesquisa de Veja na semana seguinte (Radar, 17 de dezembro, edição 1.526) onde o prestígio da imprensa, que na década passada já esteve em segundo lugar (logo após os Correios), despencou para quinto, junto com o dos jornaleiros.

Fazer jornal e vender jornal, para os entrevistados, é a mesma coisa. Sintomático. Trágico.


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Domésticas e jornalistas, Ancelmo Gois



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