CIRCO DA NOTÍCIA


EDUARDO E MARTA
Jogo sujo

Luiz Antonio Magalhães

A separação de Eduardo e Marta Suplicy é um fato que obviamente desperta a curiosidade do público e obriga a imprensa a noticiá-lo. O que se viu nos jornais e revistas sobre o episódio, porém, foi de arrepiar.

Impressiona o contraste entre a cobertura da imprensa e a atitude da família Suplicy. Nem a prefeita de São Paulo, Marta, nem o senador Eduardo ou qualquer dos filhos falaram sobre a separação, divulgada em nota de quatro linhas, assinada pelo casal e onde se lia que a decisão era da esfera familiar e não seria comentada.

A separação foi antecipada pela Folha de S.Paulo em nota publicada na coluna "Painel" na segunda-feira, 16 de abril. No dia seguinte, o assunto foi para a primeira página dos quatro principais jornais brasileiros. Curiosamente, nos dois diários cariocas o fim do casamento de uma prefeita e um senador de São Paulo ganhou mais destaque do que nos dois concorrentes paulistas.

O fato de uma história familiar merecer tamanho estardalhaço não surpreende. A imprensa brasileira há muito perdeu o critério para discernir os limites do que é público e o que é privado. Exemplos desta falta de rumo abundam, o mais recente foi a cobertura da doença e da morte de Mário Covas. No caso da separação de Marta e Eduardo, no entanto, a imprensa conseguiu ir muito além da exposição da intimidade, como aconteceu com Covas. Na doença do governador, a mídia ao menos trabalhou com fatos e o que foi noticiado, infelizmente, era verdade. Fatos que não deveriam ter sido publicados da forma como foram, mas que eram fidedignos e muitas vezes anunciados pelo próprio governador ou por seus médicos.

Com o casal Suplicy, o tratamento foi diferente. Além do fato em si – a separação – não houve jornal e revista que não tenham insinuado ou até mesmo afirmado categoricamente que o pivô do rompimento foi o militante e amigo da cúpula petista Luís Favre – fato negado por todas as partes envolvidas.

A partir daí, o que se viu foi um festival de baixarias. Emergiram todos os preconceitos e estereótipos que a direita troglodita costuma utilizar para tratar os militantes de esquerda. A esses preconceitos específicos foram somados outros mais gerais, oriundos do pior machismo brasileiro.

Mais marrom, impossível

De forma geral, o comportamento dos principais veículos de comunicação do país no episódio foi igualmente ruim, com uma notável exceção, que conseguiu superar a concorrência e descer mais fundo: a Folha de S.Paulo.

No sábado, 21 de abril, o diário da família Frias publicou, na quinta página do primeiro caderno, um anúncio de um quarto de página contendo uma seqüência de pequenas notas – todas de caráter difamatório – sobre Marta e Favre.

A propaganda da Folha informava que o autor das "notas" era Cláudio Humberto Rosa e Silva, ex-porta-voz do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Picareta renomado, o ex-assessor collorido mantém uma coluna de gossips políticos na internet. Com sua folha corrida, dele não se espera outra coisa senão... picaretagem. Sobretudo se o tema é relacionado ao PT.

Da Folha de S.Paulo, entretanto, ainda havia quem esperasse o mínimo – um pingo que fosse – de decência. Ao publicar a nojenta matéria paga contra a prefeita Marta Suplicy, a Folha mostrou a sua verdadeira cara. Ética, definitivamente, é algo cada vez mais raro de se encontrar na Barão de Limeira.

A Folha obviamente não precisa do dinheiro arrecadado com o anúncio em questão. Na segunda-feira (23/4), o "Painel do Leitor" do jornal publicou três cartas reclamando da propaganda. A Folha defendeu-se: "Material publicitário não é de responsabilidade editorial do veículo. A Folha evita censurar anúncios", explica a nota da empresa. Na terça (24), foi a vez da própria Marta ter sua carta acolhida pelo jornal, na qual anunciou estar "tomando as medidas judiciais cabíveis" [veja Aspas abaixo ].

Vamos repetir a explicação de 23/4, para que o cinismo fique um pouco mais claro: a Folha evita censurar anúncios que publica. Ora, isto significa que há casos em que o jornal julga necessário censurar a sua publicidade. Se alguém, por exemplo, quiser pagar para inserir na Folha as notas que o mesmo Claúdio Humberto escreveu sobre o filho que uma alta autoridade tucana tem fora do casamento, fruto de um relacionamento extra-conjugal com uma jornalista, a Folha recusará o anúncio.

Quando diz que evita censurar propagandas e, ao mesmo tempo, publica o anúncio contra os Suplicy, a Folha assume que o jogo sujo não é contra todos. Se é assim no Departamento de Publicidade, deve ser assim também na Redação. Ou pior.

O fato é que, na Folha de S. Paulo, o comercial e o editorial há algum tempo vêm se confundindo. Este Observatório tem se manifestado sobre o assunto, mas não custa lembrar que o problema é tema recorrente da coluna dos vários ombudsmans do próprio jornal.

Tudo somado, quem sai perdendo é o leitor. Sempre.

Folha à parte, Marta e Eduardo Suplicy são apenas as vítimas da hora. A história mostra que o PT, seus militantes e simpatizantes são alvos preferenciais da fúria da mídia brasileira. O casal não foi a primeira vítima nem será a última.



Painel do Leitor - FSP

"Anúncio", copyright Folha de S. Paulo, 23/04/01

"Com a publicação (Brasil, pág. A5, 21/4), do informe publicitário de Cláudio Humberto, a Folha desceu ao mais baixo nível da campanha antipetista. O jornal não seleciona os anúncios que publica? Trata-se de alguma decisão judicial? Ele publicaria um informe meu com invencionices sobre a vida privada do presidente? Qual a moral deste jornal para falar em responsabilidade e ética no jornalismo e na política? Filipe Ceppas Faria (Rio de Janeiro, RJ)

Explorar politicamente a crise conjugal da prefeita de São Paulo é uma vilania que só se explica pelo deletério machismo da sociedade brasileira. Stella Maris Bortoni-Ricardo (Brasília, DF)

Ao ver o informe publicitário, meu primeiro impulso foi cancelar a assinatura da Folha. Ao publicar uma notícia, o jornalista Cláudio Humberto está veiculando uma informação. Ao difundir a mesma notícia como publicidade e com o maior destaque, a Folha está abrindo suas páginas a uma agressão contra uma pessoa. As leis vigentes tornam obrigatória a aceitação desse tipo de publicação? Se isso não ocorre, a Folha deve uma explicação aos seus leitores por esse grave deslize ético. A propósito: não sou petista, não moro em São Paulo e não sou mulher. Sylvain Levy (Brasília DF)

Causou-me indignação ver publicado na Folha informe publicitário contendo calúnias contra a minha pessoa e a minha família. Segundo o "Manual de Redação" da Folha, todas as publicações desse tipo passam pela apuração prévia da Direção de Redação. O que me chocou mais ainda. Informo que estou tomando as medidas judiciais cabíveis. Marta Suplicy, prefeita de São Paulo pelo PT (São Paulo, SP)"

Nota da Redação - Material publicitário não é de responsabilidade editorial do veículo. A Folha evita censurar anúncios.