"Fiquei chocada com a nota da coluna ‘Persona’ intitulada ‘Jeitinho argentino’ do dia 21/5/2002 na qual o colunista afirma que uma rua de São Paulo foi asfaltada, em detrimento de muitas outras, porque nela mora a terapeuta argentina da prefeita.
Embora não seja moradora da rua em questão, passo por lá quase diariamente e comprovo não ser verdadeira a informação de que a rua tenha sido asfaltada recentemente. Houve, sim, um enorme buraco aberto pela companhia de gás para atender a reforma de uma das casas e a própria companhia de gás fechou o buraco num serviço, como sempre, incompleto.
Minha indignação nada tem a ver com afiliações partidária ou aflição eleitoral. Não voto no PT. Também não sou argentina, embora tenha morado em Buenos Aires durante os anos da ditadura no Brasil, assim como muitos brasileiros se exilaram em outros países que aprenderam amar e respeitar.
Minha indignação tem a ver, em primeiro lugar, com o horror a toda e qualquer manifestação de xenofobia. Sou brasileira e muito me orgulho de descender de imigrantes italianos que ajudaram a construir o país, além dos africanos, japoneses, árabes, judeus e tantos outros, incluindo os argentinos. Os imigrantes contribuíram para a formação de uma identidade nacional, rica e plural que (ainda na escola primária) aprendi ser contrária a qualquer traço de xenofobia. Este pluralismo formou, segundo Darcy Ribeiro, uma raça brasileira, da qual quero continuar me orgulhando.
Entre os muitos argentinos que procuraram o Brasil fugindo da repressão e da morte nos anos da sangrenta ditadura em seu país, vieram muitos médicos, psicólogos e psicanalistas que trabalharam e muito contribuíram para o desenvolvimento da psicanálise em nosso país. Como tantos outros psicanalistas brasileiros, sou muito grata a eles.
Por isto, protesto contra a irresponsabilidade do colunista que, talvez por ignorância dos princípios éticos da nossa profissão, ou ignorância dos princípios éticos de qualquer profissão, inclusive da sua, acusa sem provas a prefeita de favorecer argentinos em detrimento de cidadãos brasileiros. Violou o direito de privacidade do tratamento médico e, não contente, acusa profissionais idôneos de violação da ética profissional (usando do poder de transferência em qualquer relação médico-paciente) para obter favores pessoais e, não, em benefício da cura.
Os profissionais em questão, argentinos ou não, não têm como defender-se publicamente sem se identificar porque violariam outro preceito médico – o sigilo profissional .
Mais do que identificar no Brasil um ‘jeitinho argentino’ , vejo nesta gracinha inconseqüente um jeitinho nada brasileiro – e muito assustador: o preocupante jeitão xenófobo que começa com ‘inocentes piadas’ e termina onde sabemos.
Se o colunista fosse um jornalista bem informado, talvez soubesse que, neste momento, o mundo assiste preocupado ao ressurgimento dos grupos de extrema direita dominados pelo racismo e a intolerância, o que não é nada engraçado.
Neste momento, os argentinos vivem uma tragédia e, por isso mesmo, merecem nossa total solidariedade e apoio que, aliás, vêm recebendo do nosso presidente.
Recomendo ao colunista a leitura do livro que Freud escreveu há quase um século: O chiste e suas relações com o inconsciente. Vale a pena." Maria Cecília Galli (RG.3.203.879-3)