terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

A tragédia haitiana

Quem já cobriu catástrofes sabe que as dificuldades são tantas que é difícil para o repórter manter a sua capacidade de entender os dramas humanos que acontecem ao seu redor. Faz parte do ônus da profissão. Para compensar esta perda de sensibilidade é que existem os editores, que estão mais distantes do caos e podem perceber aquilo que escapou do repórter.


 


A cobertura do terremoto no Haiti ficou burocrática porque os editores se preocuparam mais com as peripécias dos correspondentes para chegar a Porto Principe do que com o drama real que estava acontecendo nos escombros da capital haitiana. Acostumados a esperar lágrimas de sobreviventes, os editores do Jornal Nacional não conseguiram ver os sintomas de estoicismo nos habitantes de um país onde o pior parece que está se transformando numa sina.


 


Poucas vezes uma tragédia foi tão rapidamente percebida pela opinião publica mundial e conseguiu passar uma carga emocional tão grande para nós brasileiros. Não foi apenas a morte de Zilda Arns e dos 14 militares que nos comoveram. É porque, mesmo sem muita informação, nos demos conta de que a catástrofe golpeou de novo um país que ainda tentava se recuperar do caos político, depois da crise de ingovernabilidade em 2004.


 

A tragédia haitiana é tão grande que só nos resta respeitar o sofrimento deste povo e homenagear a sua resistência propondo um plano de recuperação do país que vá muito, mas muito além do assistencialismo e do show de solidariedade formal. O calvário haitiano merece que o resto do mundo faça o que desde o final da Segunda Guerra Mundial não é mais feito: reconstruir um país desde os alicerces.