terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Google briga com a China mas o tiro pode sair pela culatra

A Google, a mais valorizada empresa da internet, resolveu criar um caso internacional ao ameaçar uma saída da China alegando censura. Mas em vez da iniciativa provocar um debate sobre direitos humanos, ela acabou resvalando para um lado mais obscuro, envolvendo espionagem industrial, chantagem e erros da principal concorrente, a Microsoft.


 


No dia 12 de janeiro, a direção da Google anunciou que estava estudando a possibilidade de fechar a sua subsidiária na China sob a alegação de que técnicos chineses teriam entrado ilegalmente nos bancos de dados da empresa norte-americana para espionar o correio eletrônico de membros da oposição clandestina ao governo comunista de Pequim.


 


Tudo indicava que a empresa que domina o mercado mundial de buscas na Web estava tentando ganhar pontos na opinião pública norte-americana, depois de ser acusada de oportunismo político ao negociar com o governo da China uma fatia no mercado chinês, dominado pelo sistema local de buscas, chamado Baidu.


 


Mas não demorou muito a surgirem especulações de que a invasão do banco de dados da Google era bem mais nebulosa do que parecia à primeira vista. Primeiro, surgiram versões de que a ação só teria sido possível porque os invasores descobriram uma falha grave no navegador Explorer e a usaram para entrar nos computadores da Google.


 


A falha no Explorer foi admitida oficialmente pela fabricante do software, a Microsoft, a principal concorrente da Google. Mas o reconhecimento, em vez de acalmar, agitou ainda mais o mercado mundial da internet. O jornal The New York Times divulgou que a Microsoft sabia da falha há tempos, mas não pôs nenhum aviso na internet, temendo perder ainda mais clientes. A insegurança foi tanta que os governos da Alemanha e da França decidiram imediatamente banir o Explorer dos computadores usados em repartições públicas.


 


No auge da confusão na Europa, os chineses saíram com um comunicado no qual procuravam desviar a atenção da questão dos direitos humanos e da invasão de computadores alheios, colocando a iniciativa da Google num contexto puramente comercial. O governo de Pequim estaria disposto a pagar para ver a aposta da Google, baseado no fato de que o mercado chinês é grande e atrativo demais para ser deixado de lado.


 


Os chineses estariam também interessados num tudo ou nada com a Google para ampliar o mercado do sistema de buscas Baidu, criado em 2000, por um engenheiro chinês que estudou nos Estados Unidos. O Baidu, onde a Google já teve uma participação financeira, tem hoje sete mil empregados e controla 55% das buscas na internet chinesa, deixando a sua ex-parceira num distante segundo lugar, com menos de 20% do mercado.


 


O caso Google pode marcar uma reviravolta nas relações dos chineses com empresas estrangeiras, em particular com as norte-americanas. Eles estariam endurecendo o jogo explorando as debilidades das concorrentes externas. Pode comprovar também um fato pouco mencionado, que é a redução cada vez maior da influência norte-americana na internet mundial.


 

O NYT publicou esta semana um artigo mostrando como os países europeus estão adotando a políticas próprias em matéria de regulamentação da internet, contrariando muitas vezes posições que os norte-americanos consideram críticas, como é a questão dos direitos autorais.