terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

O peixe morre pela boca: da paráfrase nazista ao discurso das políticas culturais do governo Bolsonaro

(Foto: Agência Brasil – Valter Campanato)


A divulgação de que o Secretário Nacional da Cultura, Roberto Alvim, postou um vídeo em suas redes sociais no dia 17 de janeiro parafraseando o discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels gerou dúvidas sobre quem foi o primeiro a contextualizar o que estava explícito na filmagem. Os Jornalistas Livres reivindicaram a exclusividade e, ao que consta, foram a primeira mídia a circular a informação. Mas a advogada Manuela Lourenção teria publicado no Twitter, na noite anterior- antes, portanto dos Jornalistas Livres -, comentário de que a citação de Alvim era plágio de propaganda nazista. Numa sociedade caracterizada pelo excesso de conteúdo é difícil, por vezes, identificar a origem das informações.
Para além das discussões sobre o absurdo do texto e da performance de Alvim, que valeram sua exoneração, o tema do furo jornalístico também ocupou as redes. O advogado Augusto de Arruda Botelho, em sua conta no Twitter, lançou a pergunta. “Furo quem dá é jornalista, certo?”. A dúvida indica as novas relações do jornalismo na sociedade midiatizada em que todos produzem e circulam informações.
Nesse ambiente, o papel do jornalista é o de curador e verificador da veracidade das informações. O jornalista americano Dan Gilmour sugere uma mudança de perspectiva. O antigo jornalismo tinha como metáfora a sala de aula: o jornalista ocupava o lugar do professor, aquele que detém a informação. A nova metáfora é de natureza mais horizontal, a conversação. We the media é o título de um livro de Gilmour sobre o assunto. No caso específico em questão, como alguém comentou em resposta à pergunta de Arruda Botelho, seria recomendável que a reportagem esclarecesse como chegou ao furo, se resultou da percepção de algum jornalista ou do tuíte da advogada. Esse procedimento seria elucidativo.
O episódio sugere, ainda, uma segunda reflexão para o jornalismo. A natureza desse acontecimento é diversa daquela que faz parte da rotina de checagem de dados e informações da profissão, campo em que a noção de furo parece mais adequada. O que estava em jogo era a capacidade de interpretação de enunciados, difundidos pelo próprio Alvim, que não se preocupou em esconder nada. A advogada diz que o que chamou a atenção dela foi a expressão “ou então não será nada”. Depois de explicitado, tudo parece mais óbvio. A mise en scene com a ópera de Wagner, o tom de voz, a performance, tudo leva a crer que o episódio não tardaria a ser observado e contextualizado. Difícil acreditar que cairia no limbo diante do festival de absurdos que assola o país.
Uma vez vinda a público, a exposição comprovada da associação entre o discurso nacionalista de Alvim e o nazismo se impôs como pauta dominante em todos os veículos, gerou reações nas redes, nos meios políticos e empresariais, a ponto de tornar insustentável sua permanência no poder. Mas revelou também o quanto estamos presos a essa “literalidade” dos enunciados, quando todas as evidências são de que o plano de intervenção na cultura é totalitário e sectário, como é prática dos regimes ditatoriais. Reportagem de Amanda Audi no The Intercept Brasil mostra que outros integrantes da equipe da Secretaria de Cultura seguem as diretrizes do chefe afastado.
O que o episódio de Alvim revela é que também a investigação das práticas de linguagem é capaz de mostrar as filiações do discurso. Essa discussão está relacionada à normalização do discurso de Bolsonaro por parte da mídia. Foi preciso que os sinais de uma política cultural retrógrada se tornassem evidência literal para ganhar eco. Para ir além, é preciso pensar os enunciados como reveladores dos campos discursivos, como propõe Michel Foucault. Ou, de maneira mais simples, basta lembrar dois ditados da sabedoria popular: o peixe morre pela boca e pra bom entendedor, meia palavra basta.
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Pedro Varoni é jornalista.