segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

‘Democratizar a comunicação é uma das tarefas do processo de transformação social’

Um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile acredita que a democratização da comunicação, assim como o fim do latifúndio, necessita de ações de massa e a perspectiva de um projeto popular. Ele credita aos comunicadores populares a tarefa de ajudar a população a sair da ‘apatia’. Stédile é um dos convidados da XIII Plenária do FNDC, que se realiza de 20 a 22/10 de 2006 na cidade de Florianópolis (SC).



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Como os movimentos sociais no Brasil, especialmente o MST, se apropriam das diversas formas e meios de comunicação disponíveis atualmente? Quais são as maiores dificuldades enfrentadas no acesso a esses meios?

João Pedro Stédile – Aprendemos com os movimentos que nos antecederam, que na luta pela reforma agrária e pela transformação na sociedade é imprescindível a construção da autonomia e dos próprios veículos de comunicação para a constituição de uma voz na sociedade. Não cultivamos a ilusão de que os veículos de propriedade dos grandes grupos empresariais e do capital nacional e estrangeiro terão simpatia para conceder espaços para as organizações que questionam o modelo econômico e combatam as injustiças sociais.

A partir desse aprendizado, há 25 anos o MST tem sustentado, apesar das dificuldades, o Jornal Sem Terra com regularidade. Da mesma forma, há nove anos publicamos a Revista Sem Terra. Há três anos, somou-se às outras experiências o jornal Brasil de Fato. Portanto, acreditamos que o caminho da luta é a autonomia, a construção dos próprios meios de comunicação. Dessa forma, criamos também meios de formação e unidade. Dessa combinação, de diversos veículos do Movimento ou de um conjunto de movimentos tentamos fazer a disputa de hegemonia na sociedade.

Como os integrantes e a organização do Movimento trabalham a elaboração do senso crítico em relação à mídia? Como é a recepção dos participantes do movimento sobre a imagem que a mídia cria do MST? O Movimento desenvolve algum tipo de formação e instrumentalização para a produção própria em comunicação?

J.P.S. – Na própria luta, vamos desde os acampamentos compreendendo que na sociedade de classes, os grupos dominantes se valem dos meios repressivos, como a polícia e judiciário, e da própria mídia para criminalizar do movimento social. A nossa educação vem do aprendizado prático, da luta, da organização em movimento e como sujeitos históricos que podem observar, na prática, a construção de nossas ações e como elas são representadas depois pela mídia e com que interesses.

Em que medida a democratização da comunicação é percebida, dentro do Movimento, como um caminho para a democracia? Qual o papel das rádios comunitárias neste processo?

J.P.S. – Acreditamos que democratizar a comunicação é uma das tarefas do processo de transformação social que teremos, a esquerda social, que empreender no país. Democratizar o acesso à terra, à educação, aos meios de sobrievivência e também de comunicação. E compreendemos que a democratização da comunicação só é possível como parte de um projeto popular para o Brasil. Não como um fim em si mesmo, mas como medida transformadora necessária que deve estar integrada ao projeto e às lutas
populares. Não virá sozinha nem desvinculada do povo, como concessão do legislativo ou das classes dominantes.

Em qual meio de comunicação o MST encontra mais abertura e respeito à sua identidade enquanto sociedade organizada? Quando (e onde) o movimento esteve representado verdadeiramente pela mídia?

J.P.S. – Notamos que para além da concentração da mídia, a formação do jornalista também contribui para a construção e reprodução desta desinformação em relação à questão agrária. Naturalmente, existem profissionais bem intencionados e dispostos a estudar e compreender a luta do MST para retratar o Movimento da melhor forma, o que é raro, e mais raro ainda, quando estes profissionais conseguem driblar a pressão dos editores e dos donos de empresa para publicar esse ponto de vista. Da mesma forma, bons trabalhos da mídia alternativa e popular não vêm à luz, não recebem o conhecimento da sociedade, porque esbarram nos limites dessas publicações.

Como o senhor avalia a cobertura que a mídia tem feito das eleições gerais, no Brasil, em 2006?

J.P.S. – A própria existência do segundo turno demonstra na prática que a mídia tem candidato, tem interesses e que é capaz de utilizar todo o seu poder à disposição para criar um cenário político como este que estamos vivendo. Com todas as críticas que temos e fizemos ao Lula, é preciso reconhecer que sua candidatura vai enfrentar o Alckmin por conta de um esforço descomunal da mídia em promover Alckmin e tentar desqualificar a candidatura Lula.

Qual a contribuição que MST levará à XIII Plenária do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), dia 20/10, em Florianópolis?

J.P.S. – O que podemos socializar e compartilhar como experiência com os companheiros e companheiras do FNDC é que a democratização da comunicação, assim como o latifúndio, só será derrubado com ações de massas e com a perspectiva de um Projeto Popular. E a tarefa dos comunicadores populares é ajudar a população a sair desta apatia e estimular o re-ascenso da luta de massas.

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Jornalista, da Redação FNDC