segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

O estado de inconsciência

A regra é inflexível: sempre que um tema sério vai para a capa, a edição do Jornal Pessoal vende menos. Foi o que aconteceu com o número 436. A primeira matéria foi dedicada a exibir, sem disfarce nem manipulação, a face oculta do atual ‘milagre brasileiro’, reedição populista da versão original, sob o autoritarismo dos militares, modificada e ampliada. Temos uma reserva sem igual de dólares e reais a mais circulando no mercado interno porque estamos exaurindo nossos recursos naturais, exportados sem comedimento. Principalmente os minérios, dos quais somos os segundo produtores nacionais. É capital que vai e não voltará nunca. Ou volta, através de produtos que importamos quando a eles se agregam valores mais elevados, graças à sua industrialização, que nos é interditada. Criando com isso relações de troca desfavoráveis a nós.

Os espantosos números citados na matéria estão à disposição de quem os queira ler em documentos oficiais ou oficiosos. Por que então não aparecem na grande imprensa? Porque não interessa, nem mesmo àqueles grupos que seriam inimigos do atual governo, como os grandes exportadores, se ele não os estivesse favorecendo tanto. A leitura dos números da produção nacional em 2008 devia provocar um choque de consciência nos paraenses que se dispusessem a ler e interpretar as estatísticas. Mas eles preferem continuar no estado de euforia, em boa medida possível pela inconsciência geral.

Não é novidade essa condição em povos coloniais, como somos. Mas quando a história ainda está em andamento, sem um desfecho inevitável, constatar o fato só não dói tanto porque, olhando para trás, pode-se perceber que o estado de inconsciência já foi maior. É o que estimula continuar a dar aos grandes temas, mesmo aos mais áridos, o tratamento que eles merecem: ir para a manchete. Mesmo que à custa de, vendendo menos, complicar a vida do lugar aonde a manchete foi colocada.

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Tiragens

Março termina e Romulo Maiorana Júnior não cumpre uma promessa feita em dezembro, na festa de fim de ano da empresa: retornar ao Instituto Verificador de Circulação em janeiro. O Liberal se desfiliou do IVC de forma vergonhosa e inédita, na véspera da chegada de uma equipe de auditores, para não ser flagrado novamente fraudando a tiragem do jornal em mais de 100%. Nos últimos tempos a empresa se empenha novamente em inchar a circulação da sua folha, distribuindo-o gratuitamente, mas registrando a saída como se fora venda. As cooperativas de táxi e os postos de venda de gasolina são os principais parceiros dessa nova estratégia de – digamos assim – marketing.

Se a jogada está dando resultado, ainda não foi o bastante para garantir a volta (por cima?) de O Liberal à principal fonte de informação sobre a circulação da mídia impressa no Brasil, importante para a venda de publicidade nacional. Em Belém, o único jornal filiado ao IVC é o Diário do Pará. Só que o jornal dos Barbalho até hoje não divulgou um único dos boletins do instituto sobre a sua tiragem.

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Carona

O Liberal está mesmo com seu grande prestígio internacional em queda. A coluna ‘Repórter 70’ anunciou várias vezes a audiência do prefeito de Belém com Barack Obama, mas Lula passou na frente de Duciomar Costa, tornando-se o primeiro político do continente a ser recebido pelo presidente dos Estados Unidos, na Casa Branca, em Washington. Vai ver o alcaide está sendo adestrado pelos profissionais dos fundos do Bosque para fazer melhor na língua de Shakespeare, que não é propriamente o forte do nosso presidente.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)