As últimas do Projeto
Folha: parceria estrangeira


Quase um ano depois de inaugurar com o habitual estardalhaço o seu parque gráfico e tonitruar para a plebe ignara a nova fase do Projeto Folha denominada "Cor Total" (interrompida logo depois por "problemas técnicos"), o jornal mais badalado do país anuncia que a partir de agora tem sócios estrangeiros.

Na edição de 21 de janeiro de 1997, através de uma discreta chamada na capa e uma página inteira sepultada no caderno Dinheiro, o Folhão reconhece que está fazendo exatamente aquilo que este OBSERVATÓRIO antecipou na edição que foi distribuída um dia antes: os grandes grupos da mídia brasileira vão começar a furar sistematicamente o artigo 222 da Constituição brasileira e admitir sócios estrangeiros.

No caso, os acionistas do Grupo Folha fizeram-no de forma disfarçada e atravessada - porque o texto constitucional é impreciso -, mas o resultado é inequívoco: o jornalão capitalizou-se com a entrada de recursos de sócios não-brasileiros (a Quad Graphics), na área da infra-estrutura industrial (também poderia fazê-lo na propriedade dos imóveis).

A Letra da Lei foi respeitada mas não o Espírito da Lei. Perguntem a Montesquieu o que acha disto.

Este Observador, que há mais de dois anos vem reclamando solitariamente do Legislativo uma alteração substancial no texto do infeliz artigo da Carta Magna, saúda entusiasmado a infração da Folha, como já o fez na edição de 20/1 com as novas parceiras das Organizações Globo. Todos têm a ganhar - a sociedade, o mercado e os profissionais.

Mas este Observador também lamenta que a desconcentração da mídia brasileira - imperiosa necessidade estratégica no projeto de modernização do país - tenha que ser feita à sorrelfa e à socapa, envergonhadamente, no terreno baldio das jogadas escusas (veja abaixo).

Se uma trapaça legalmente justificada fosse tentada pelo governo federal, os 24 opinionistas do Folhão prontamente desembestariam montados nos fogosos corcéis da ira sagrada para punir o infrator.

Mas a mulher de César pode mais que o próprio César. Antes assim, melhor para todos que a imprensa seja exatamente igual à sociedade que reflete. Ficam todos nus e, assim, tomam vergonha.

Aguardem para breve outra rajada em cima do 222. Revisão Constitucional é para ser feita por profissionais.

A.D.

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Memória - Franz Paul Heilborn (Paulo Francis), 1930-1997.


Pelo sobrenome alemão nasceu santo. No entanto, preferiu viver como maldito.

Ator, diretor de teatro, crítico, polemista, panfletário, sobretudo jornalista. Em tempo integral. Intransigente, implacável, severo. Sobretudo consigo - daí as surpresas que preparou ao longo da vida. Inclusive esta - deixar a liça tão de repente e os detratores, desarmados.

Alberto Dines, jornalista


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O ASSASSINATO DE DANIELLA PEREZ
'A mídia no Brasil tem criado bandidos e heróis totalmente falsos'

Entrevista de Flora Strozenberg


O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA ouviu a advogada criminalista Flora Strozenberg, do Rio de Janeiro, sobre o comportamento dos meios de comunicação no julgamento do ator Guilherme de Pádua, condenado a 19 anos de prisão pelo assassinato da atriz Daniella Perez.

Flora Strozenberg, carioca, foi aluna de Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort no curso de Ciências Políticas da USP. De volta ao Rio, formou-se também em Direito. Dá aulas na Unirio e tem escritório de advocacia criminal e cível em sociedade com Rosa Cardoso.

Eis sua entrevista:

"O fato de que os dois jovens pertenciam ao elenco de uma novela fez com que a multidão se interessasse, atraindo o foco da imprensa. A imprensa pode ajudar. Pode ajudar muito, mas pode também atrapalhar muito.

"A história dos processos penais mostra que só alguns mobilizam a opinião pública. Se você é um criminoso do subúrbio do Rio de Janeiro e vai ser julgado no Fórum de Jacarepaguá, o assunto dificilmente merecerá uma linha na imprensa, ou qualquer menção no rádio e na televisão.

"Esse caso saiu da novela para o mundo real, mas em forma novelística, como no filme A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. É inquietante, porque a vida real não é como novela, que você assiste já sabendo o limite do imaginativo, do fantasioso. E a mídia no Brasil tem feito bandidos e heróis totalmente falsos.

"No caso da jovem Aída Cúri, jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica, em 1958, depois de uma tentativa de curra, a pressão da imprensa foi uma coisa tremenda. Um dos acusados era Cássio Murilo [Ferreira da Silva´´, mas esse não podia ser condenado, por duas razões. Uma, técnica: era menor. Outra, social: era filho de um general. Então, o júri, sob pressão, acabou condenando Ronaldo [Guilherme de Sousa Castro´´, que certamente não cometeu o crime, porque foi visto saindo do prédio dez minutos antes da hora em que o corpo foi jogado. Foi visto por um jornalista! Era o comentarista esportivo Luiz Mendes, que estava num bar ao lado do edifício. Ainda assim, foi condenado. A condenação de Ronaldo foi um 'cala-boca' para a opinião pública."

[O primeiro a ser condenado, a 30 anos de prisão, foi o porteiro do prédio, Antônio João de Sousa, em 1960. Depois, o porteiro foi novamente julgado e absolvido por unanimidade. Ronaldo, que ficou famoso com seus óculos modelo "juventude transviada", ainda em 1960 foi condenado a 37 anos de prisão. Acabou sendo libertado em 1966. Cássio Murilo cumpriu pena no SAM (Serviço de Assistência ao Menor), a Febem da época, e foi indultado em dezembro de 1962. N.R.´´

"Um caso típico de 'bandido herói' é o de Leopoldo Heitor, o chamado criminoso perfeito. A opinião pública costuma ficar fascinada pelo criminoso inteligente e execrar o criminoso porco. Leopoldo Heitor, acusado pelo assassinato de Dana de Teffé, em 1961, não foi condenado, porque o corpo dela jamais apareceu. Continuou advogando normalmente, apesar do apelido de 'Advogado do Diabo'. O filho dele foi assassinado por uma moça e Evaristo de Morais Filho, advogado de defesa, conseguiu absolvê-la. Por quê? Porque todo mundo, jurados inclusive, viu no episódio o braço da vingança contra Leopoldo Heitor. Ou seja, Leopoldo Heitor é marcado como bandido inteligente, mas é marcado. Os advogados sérios ficam muito constrangidos com tudo isso.

"A pena dada a Guilherme de Pádua foi correta. Toda a tecnicalidade foi respeitada no caso, apesar do alarido da mídia. Foi um crime por motivo torpe, sem que vítima pudesse exercer qualquer tipo de defesa, mas qualquer pena superior a essa anularia o julgamento. Ao mesmo tempo, foi uma pena conveniente para a defesa. Tanto que o defensor Paulo Ramalho disse que só recorreria caso a Promotoria recorresse para aumentar a pena. Entretanto, com essa pena, que é alta, Guilherme de Pádua tem o direito de sair relativamente cedo da prisão, porque é réu primário, sem antecedentes. É o que determina o Código Penal.

"À margem do caso, houve uma conseqüência muito grave. É que no bojo da campanha pela condenação de Guilherme de Pádua - liderada pela mãe de Daniella, Glória Perez -, acabou-se transformando qualquer homicídio doloso em crime hediondo. Não sei se esses crimes deveriam ser considerados genericamente hediondos. A luta entre a morte e a vida faz parte da vida humana, como mostrava Shakespeare há quatro séculos. Hoje, no Brasil, uma pessoa não pode mais cometer determinado tipo de erro sem ser considerada pela sociedade, por intermédio da Justiça, uma figura hedionda."

Entrevista dada a Mauro Malin


Mande-nos seu comentário. (Veja declaração do advogado Ademar Gomes no Entre aspas)



Aposta no retrocesso: a onda
contra o Jornal Nacional


Na série de sessões do Roda Viva sobre a mídia brasileira (TV Cultura, 1996), este Observador manifestou várias vezes a sua estranheza diante do cínico encarniçamento das empresas concorrentes e da maioria dos profissionais contra a TV Globo.

Como se as mazelas da imprensa brasileira fossem oriundas e localizadas apenas na Vênus Platinada. Hipocrisia e desfaçatez - o problema situa-se na esfera das escalas. Com uma audiência de 80 milhões de espectadores, oferecendo na mesma bandeja informação e entretenimento, a Rede Globo é somente a mais visível. E paga por isto.

Acontece que no mundo midiático brasileiro ninguém tem autoridade para atirar a primeira pedra, todos participaram das mesmas mumunhas contra o Interesse Público:

* Autocensura durante o regime militar.
* Sujeição da Ética ao Marketing.
* Cartelização corporativa.
* Desbragada apelação sensacionalista.
* Contratação de mão-de-obra barata e inexperiente em detrimento da qualidade informativa.

Ora, se o grupo anti-Roberto Marinho pretendesse efetivamente mudar o panorama jornalístico brasileiro, teria que mudar os procedimentos e comportamentos para isolar o adversário. Só joga pedra na Geni quem é exatamente igual a ela.

Desta forma, endeusa-se tudo que é anti-Marinho - das novelas mexicanas aos perdigotos fascistóides despejados por Boris Casoy. Os media-critics esquecem as mazelas das empresas para as quais trabalham e só enxergam as que faz Big Brother. Acontece que os formadores de opinião são justamente os leitores, ouvintes ou espectadores dos Sete Anões, que acabam creditando a Guliver o que há mais errado e deslustrante.

Tudo isto vem a propósito da última coqueluche dos especialistas em mídia: a audiência do Jornal Nacional caiu de 50 pontos para 30! Queda que, por sinal, insere-se na trajetória previsível das redes abertas de televisão.

Acontece que o telejornalismo da Globo hoje atravessa a melhor fase da sua história (desde a abertura democrática). O Padrão Globo de Qualidade Jornalística (se é que existe), embora ainda esteja longe de satisfazer as nossas necessidades de contextualização e continuidade, está no caminho certo para lá chegar. Matérias mais longas, mais esclarecimento, mais reportagem (em lugar da controvérsia apenas), mais serviço público, mais defesa do consumidor, mais internacional, mais densidade, mais crítica.

Com exceção de Gabriel Priolli (Gazeta Mercantil, 24/1/97), todos estão apostando no retrocesso e na crise quando, supostamente, deveriam estar a serviço da sociedade (e das respectivas audiências), estimulando a manutenção das conquistas.

A verdade é que o Jornal Nacional mudou para melhor. Se, com isto, desfez-se daqueles telespectadores que não sabem onde fica a Bósnia e de Ruanda só querem as imagens macabras, é problema é dos que apostam na desinformação.

O tribalismo brasileiro, com a sua compulsão antropofágica, mostra mais uma vez a sua capacidade de ceifar o que é bom, liquidar a inovação e deixar tudo no pé em que estava. Afinal, se o telejornalismo da Globo melhorar muito, como é que ficarão os jornais e revistas que fizeram de Caras o novo paradigma do jornalismo pátrio?

A.D.


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