Artes e truques
Francelino Pereira foi presidente da Arena (filha da UDN e mãe do PDS, que é pai do PFL, do PPB e de alguns filhotes bastardos) no governo do general Geisel. Hoje é senador pelo PFL. Celebrizou-se com a frase patética "Que país é este?"
Foi em 1975. A ontológica dúvida persiste. Sendo ontológica, ou seja, pressupondo que há uma natureza única no espaço e na história que possa definir um país, ainda mais dessa categoria especial que é o Brasil, a dúvida só pode persistir. Quando pensamos ter entendido o que era o país de Getúlio Vargas, por exemplo, ele por definição já não o é. Sempre dormiremos pensando "É isto!" e acordaremos constatando: "Não, não é".
Adolescentes têm uma certa dificuldade para reconhecer que cresceram, e nós, ser social brasileiro, somos assim. Mas, para efeitos práticos, convém chegar a conclusões provisórias. Na transição em que nos encontramos, está difícil.
Veja, dançando acrobaticamente um xaxado ensaístico, resolveu na edição de 15/1/97 abordar o tema da reeleição.
No último parágrafo da abertura ("O que está em jogo"), lê-se:
"O próprio Fernando Henrique se surpreendeu com o presente inesperado que lhe caiu no colo. A excitação em torno de um segundo mandato para FHC - 60% dos brasileiros são a favor da reeleição - deve-se exclusivamente à arte de ter transformado o vinagre da inflação no vinho da estabilidade. Um segundo mandato exigirá truques novos. O Brasil ainda é um país trágico."
Cinco páginas adiantes, na explicação dos prós ("Voto na segurança"), lê-se:
"Com o Plano Real, a inflação caiu para 10% ao ano em 1996 e deve cair para 7% em 1997. A produção brasileira deve crescer, em 1997, por volta de 5%. Será o quinto ano consecutivo de crescimento. O ajuste econômico feito pelo Plano Real não teve o custo lateral do desemprego e da recessão, ocorrido em países com problemas parecidos, como México e Argentina."
"No ano passado, só em investimentos diretos (sem contar aplicações nas bolsas de valores e tomadas de empréstimos internacionais por empresas brasileiras), ingressaram no país 12 bilhões de dólares. Neste ano, estima-se que, apenas na rubrica das privatizações, possam chegar mais 13 bilhões. Anote: só em privatizações. (....) De país perigoso, tema de chacota mundial com seus 3.000% de inflação anual (1993), o Brasil virou rapidamente um terreno prioritário para os investimentos.
(....) Os investidores olham para um país com um mercado consumidor estonteante e faminto de televisores, carros, roupas, alimentos um pouco mais requintados do que o arroz e feijão. Olham também para um produto interno bruto que pode chegar a 800 bilhões de dólares em 1997."
Apetites de reeleição e náusea que causam nos adversários à parte, conviria nos entendermos um pouco a respeito do objeto da análise.
Trágico, o país é. Mas ainda não inventaram sociedade humana sem tragédia. É só olhar para o lado (Argentina, Paraguai, Chile, Peru, Colômbia, escolham). Ou para cima (Guerra Civil, Vietnã, Oklahoma), para a Europa, para os antípodas asiáticos, para o Oriente Médio, para o subcontinente indiano. Nosso lote não é o mais amargo, e nisso podemos ser até um alento para a humanidade.
O que o distinto público leitor não merece é o repasse das seguintes dúvidas: 1) Estamos discutindo a possibilidade de reeleição num país na fossa ou mais confiante? 2) Transformar inflação em estabilidade é arte ou truque?
Mauro Malin, jornalista
Conhecimento versus opinião
Rádio é o meio mais furiosamente opiniático que existe, o que se explica em parte pela facilidade de fazê-lo. A matéria-prima do rádio é a fala. E quanto mais fala há no rádio, menos ela é editada.
Editar pressupõe tratar um material já existente, organizá-lo no espaço (no caso do rádio, apenas no tempo; no da televisão, no tempo e no espaço). Só os locutores que lêem notícias trabalham com texto editado. Os âncoras improvisam o tempo todo, diante do bombardeio dos acontecimentos. Não podem fazer uma "pesquisa" antes de abordar cada tópico com que deparam. Não têm como editar. Valem-se de seus próprios conhecimentos. Quando o estoque se esgota - o que acontece rapidamente -, passam a valer-se de suas opiniões, daquilo que "pensam sobre o assunto".
O grande jornalista não é evidentemente o que imagina conhecer tudo, mas o que tem boa noção da fronteira entre o que conhece bem e o que conhece mal, e sabe encontrar informações a respeito do que não conhece. O problema é querer tapar com opinião o buraco do conhecimento. Como dizia Hipócrates, há 2.500 anos, a ciência é a mãe do conhecimento e a opinião é a mãe da ignorância.
Mas, como o rádio também induz a um tom coloquial, de conversa com o ouvinte, seria impraticável que o âncora-comentarista levasse sua sinceridade ao paroxismo. Leria uma notícia e diria: "Não tenho certeza a respeito disso". Leria outra e diria: "Não faço idéia do que seja". Ou então: "Já ouvi falar, mas nem me lembro mais do que foi falado".
Na verdade, o ouvinte de rádio e o telespectador precisam da opinião. O emissor da notícia poderia ser indiferente ao seu teor? Ninguém imagina que alguém fosse apresentar no mesmo tom de voz a notícia de uma chacina e a notícia de que, ao fim de mais um ano, não se registraram casos de poliomielite no país.
Quando narrou a derrota do Brasil no basquete feminino da Olimpíada de 1996, Galvão Bueno, ao sentir que a superioridade das americanas era definitiva, maduramente parou de fazer cobranças à equipe brasileira e começou a consolar os telespectadores, argumentando, com habilidade, que já tinha sido uma glória chegar até aquela final. Diariamente, Heródoto Barbeiro procura colocar-se, diante do fato que aborda, no papel do cidadão, com suas dúvidas, suas inquietações, seu código de ética, seus valores morais.
Opinião, no jornal, no rádio e na televisão, não é crime. Crime é vender ou contrabandear opinião.
M.M.
Fluidez, permanência e interatividade
No final do artigo que escreveu para esta edição, Heródoto Barbeiro refere-se a um fenômeno inerente ao rádio e à televisão: a pessoa ouve apenas uma parte do noticiário e "julga o todo pela parte que ouviu".
Isto é possível no domínio da palavra oral, mas não na imprensa propriamente dita.
A palavra oral implica uma sucessão no tempo e não permite voltar atrás. O que é dito, é dito definitivamente. Já a escrita arranca a palavra do tempo e a coloca no espaço.
Se muitos lêem apenas manchetes e chamadas, e qualquer um de nós o faz eventualmente, ninguém poderá fundadamente, no meio impresso, avaliar o todo pela parte. O todo está no papel. Pode-se ir e voltar. Pode-se escolher o roteiro de leitura, reler. Rádio e televisão produzem fluxos de palavra oral. O papel impõe uma permanência cumulativa.
O meio digital on-line vai muito além: permite que se trabalhe ao mesmo tempo com simultaneidade, fluidez e permanência. O noticiário é atualizado permanentemente, como no rádio, mas não passa, fica. Um jornal põe na rede seu noticiário do dia e coloca à disposição do leitor o arquivo com o noticiário passado. O mesmo se aplica a uma emissora de rádio (em breve, de televisão) que transmite on-line noticiário digitalizado.
Desde o advento do rádio e da televisão cada cidadão promove em seu cotidiano uma interação de diferentes meios de comunicação. Entretanto, a digitalização de texto, som e imagem promove a convergência física dos meios. A CNN na Internet tem a cara de um jornal.
Tudo isto dá uma idéia de como está mudando radicalmente a maneira de se trabalhar com a informação. Por enquanto, para uma minoria. Mas os usuários de todos os meios de comunicação nascentes foram, a seu tempo, pequenas minorias.
As novas maneiras de registrar a linguagem transformarão o modo de pensar dos seres humanos, como fez a escrita em relação às sociedades que não a possuíam. Isto, porém, ainda é pouco diante de um fator muito mais poderosamente iminente: a interatividade.
No meio digital, posso rememorar quantas vezes quiser todo e qualquer tipo de informação que me chega. Pelo correio eletrônico, contesto imediatamente uma informação, duvido, questiono, peço detalhes, compartilho minha inquietação com uma infinidade de outras pessoas, que poderão se dirigir a uma infinidade de outras pessoas.
Sempre foi possível telefonar para uma emissora de rádio ou de televisão, mas este é um ato individual, até porque não haveria como atender milhares de telefonemas concentrados no tempo. Agora, a "carta do leitor" pode virar um ato de massas, praticamente instantâneo.
Antes, o público, destinatário rotineiramente passivo, era uma nuvem imprecisa, hipótese de raciocínio, categoria teórica, abstração mercadológica.
Agora, pela primeira vez na história da comunicação moderna, a palavra trafega numa estrada de mão dupla. A interatividade é o fundamento tecnológico e sociológico da maré crescente de crítica aos meios de comunicação. E não tem retorno. Só com ditadura.
M.M.