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Editorial/Balanço:
96, o ano em que o rabo se
soltou
O slogan da Folha de S.Paulo,
jornal-paradigma, astro-rei da mídia impressa - "De
Rabo Preso com o Leitor" -, foi ultrapassado pela
própria dinâmica jornalística.
Não foi um ano bom para a Folha. Não foi um ano
bom para todos os veículos impressos que, pelo país
afora, adotaram aviltantes maneirismos mercadológicos e
exacerbaram o opinionismo. Todos os passes de mágica do
mau jornalismo saíram pela culatra.
Mas foi um esplêndido ano para o amadurecimento do
leitor de jornais e para o aprimoramento da sociedade
brasileira, ora aprendendo a examinar criticamente a sua
imprensa.
O leitor mostrou que não deseja mais rabos chulos nem
vinculações e cumplicidades com as seguintes
situações:
# Hegemonia do marketing sobre os princípios
fundamentais do jornalismo.
# Supremacia do mercado sobre a sociedade.
# Pesquisas e painéis que não auscultam nem
representam os segmentos mais exigentes do leitorado,
aqueles que se antecipam ao gosto dos demais.
# Fascículos que tornam o jornal descartável e
inútil (ver Dossiê).
# Arrogâncias e simplismos.
# Invencionices retrógradas
# Redações que não reflitam o espectro etário,
cultural e político da comunidade.
# Matérias redigidas na quinta-feira para sair no
domingo e na segunda-feira fingindo que foram escritas na
véspera.
# Fragmentação, autarquização e colunização
de veículos que deveriam ser orgânicos e cósmicos.
# Fetichismo de números aleatórios
substituindo-se à informação contextualizada.
# Homogeneização da concorrência quando a
democracia exige diversidade.
Foi na própria Folha que ficou patente o
rompimento deste rabicho (pseudo-rabo com o
pseudo-leitor) (ver, na edição de 5 de dezembro, O Quarto
Poder no Divã).
Mas o mérito principal cabe à série de entrevistas
comemorativas do 10º aniversário do Roda-Viva da TV
Cultura, que sensibilizou e mobilizou a sociedade para as
disfunções da sua imprensa.
Cinco entrevistas com alguns proprietários dos jornais
brasileiros, acrescidas de outras três com figuras do
Executivo (uma delas com o próprio presidente da
República, reprisada, tantas as solicitações)
desvendaram para o segmento mais exigente da opinião
pública não apenas os conceitos e preconceitos, mas
sobretudo a atuação e o comportamento daqueles que se
assumem como representantes dos leitores.
Lição memorável de uma pequena emissora pública nos
concorrentes privados, igualmente prestadores de
serviços sociais, mas omissos na exposição das nossas
grandes mazelas. O produtor Jaime Martins e o
apresentador Matinas Suzuki lavraram um tento neste ano
memorável.
Quebrado o tabu, tornam-se agora corriqueiras as
menções aos descaminhos da nossa mídia. O Jornal
Nacional da TV Globo (9/12), quando relembrou o caso da
Escola Base, não atacou apenas as autoridades levianas
que apresentaram suspeitos como culpados, mas cuidou da
imprensa, que, como sempre, divulga sem investigar.
Carlos Tramontina, na Globo-News (8-10-11 de dezembro),
quando tratou da tortura de suspeitos pela polícia
paulista, disparou suas baterias contra a estúpida
corrida pelo furo que leva a tantos e tão fatais
deslizes jornalísticos.
A rede CBN, no horário matinal ancorado por Heródoto
Barbeiro, o Homem do Ano do Rádio Brasileiro, na última
quinzena, tratou duas vezes dos pecados da mídia, e isto
numa veiculação dita popular, campeã da manipulação
e da desinformação.
Este foi o ano em que o rei (ou rainha) ficou nu,
exposto, descoberto. As roupas que doravante vestirá
serão feitas e arbitradas por aqueles que lhe concedem
todos os privilégios e imunidades.
Alberto Dines, jornalista
Mande-nos seu
comentário.
*No Caderno Idéias de sábado, 21 de dezembro, o Jornal do Brasil rememorou o papel de seu antigo Suplemento Dominical como sujeito e objeto do movimento concretista
A técnica do
sensacionalismo
A Folha de S.Paulo publicou em 13/12/96, pouco
acima da dobra da primeira página, o seguinte título,
em português, para variar, estropiado: "Moradores
de rua em S. Paulo crescem 32%". No texto da
chamada, de onze linhas e meia, há ainda quatro
porcentagens devidamente paramentadas com duas casas
decimais depois da vírgula, velho truque usado para
suscitar credibilidade.
Remete-se o leitor à página 1 do 3o caderno,
onde, depois de passar pela repetição das porcentagens
no título e no antetítulo, é preciso chegar à
primeira linha do segundo parágrafo para ler o número
absoluto: "Foram contadas 5.334 pessoas vivendo nas
ruas da cidade e nos albergues da prefeitura e do
Estado."
Coloque-se o leitor na posição de correspondente
estrangeiro. De um jornal de Nova York, digamos. Ou de
Los Angeles. Não faz muita diferença. O número de
pessoas sem teto na gigantesca cidade de São Paulo não
lhe despertaria o menor interesse. Zero. Porque em cada
uma dessas duas cidades o número de pessoas sem moradia
(homeless) é superior a 200.000.
Repetindo, para não haver dúvida: 200.000 homeless
em Nova York e outro tanto em Los Angeles. (1)
Por mais que lamentemos que haja milhões de favelados,
centenas de milhares de moradores em cortiços e milhares
dormindo nas ruas e albergues de São Paulo (4.027 em
1991, 4.549 em 1994 - aumento de 13% em três anos -,
5.334 em 1996 - aumento de 17% em dois anos; em Los
Angeles, entre 1986 e 1992, as taxas anuais
médias de aumento foram de 17%), por mais chocante que
seja ver todo dia essas pessoas em estado de miséria,
não podemos ignorar que o número recenseado está longe
de ser uma calamidade, ainda mais em país pobre.
Uma análise mais fina mostra que a rua é passagem (e
abrigo) para muita gente entre um emprego e outro, entre
uma casa e outra (ou entre um casamento e outro), entre a
moradia distante e o trabalho na rua (geralmente de
catadores de papel). Mostra que o morador de rua
renitente, irrecuperável, é, na maior parte dos casos,
um alcoólatra ( 2).
Trata-se e não se trata de uma questão social, porque
mesmo nas mais prósperas e protegidas sociedades há
indivíduos com dificuldades desse tipo.
No Estado de S.Paulo, o assunto não ganhou uma
linha na primeira página, e o subtítulo da manchete
interna, no caderno Cidades, apresentava claramente os
números absolutos de 1991 e de 1996. (Isto não prova
nada além de que correr atrás de lebres não é uma lei
da natureza.) Análises mais finas
"derrubariam" a chamada da primeira página da Folha.
Essa é uma das razões pelas quais o número absoluto -
sem o qual a porcentagem é desprovida de qualquer
sentido, para pessoas medianamente inteligentes - foi
cuidadosamente ocultado na primeira página da Folha:
a razão mais inocente, de "técnica
jornalística".
As outras razões são ideológicas e políticas. Entre
as políticas, a dificuldade de extrair todas as
conclusões sobre a incompetência de sucessivos
prefeitos, de diferentes partidos, para lidar com um
problema que, ao contrário do que sistematicamente se
dá a entender, não está fora do alcance do poder
público.
Entre as ideológicas, a dificuldade de entender por que
os eleitores nunca alcançaram grau de cidadania, ou grau
de solidariedade humana e social, que lhes fizesse exigir
mais das autoridades que elegem.
O círculo se fecha: trata-se de avaliar a pesada
contribuição da própria imprensa para este estado de
coisas. Na primeira página, nem pensar.
Mauro Malin, jornalista
Mande-nos seu
comentário.
(1) Mais informações no arquivo
do jornal The
Christian Science Monitor. A reportagem consultada é
de 23/12/92. Voltar
(2) Para uma análise mais fina,
baseada na primeira pesquisa do gênero feita pela
Prefeitura de São Paulo (gestão de Luiza Erundina, maio
de 1991), consultar População de rua - quem é, como
vive, como é vista, obra coletiva organizada por
Maria Antonieta da Costa Vieira, Eneida Maria Ramos
Bezerra e Cleisa Moreno Maffei Rosa (São Paulo, Hucitec,
1992). Voltar
As últimas de Veja
Os exímios responsáveis pela quinta maior revista
semanal do mundo resolveram tocar algumas oitavas abaixo.
Assumiram que a classe sócio-econômica A-B merece
informação classe C-D em matéria de padrão cultural.
A apelação populista é flagrante, dá na vista, nem se
dão ao trabalho de publicar as críticas dos leitores,
apenas as correções indispensáveis. Também pode
ocorrer que os leitores, de tão idiotizados, tenham
perdido sua capacidade de exigir qualidade. A co-irmã Contigo,
pelo menos, não finge sofisticação, joga pesado e
dorme feliz.
Rescaldo das últimas edições:
# A 4 de dezembro, p. 135, na matéria sobre Artur
Falk, o empresário que levou a maior multa do Banco
Central, depois de situar o leitor no caso, apresenta-se
o personagem como "empresário agressivo", que
ousou enfrentar a família Marinho, cujo banco tem um
grande projeto de expansão e cuja palavra de ordem,
neste momento, é profissionalizar suas empresas
convocando figuras respeitáveis. Termina com uma
confidência que só pode ter sido soprada pelo próprio:
Falk vai contratar um alto funcionário do próprio BC.
Mas, na edição de 27 de março, oito meses antes, um
brilhante perfil de Falk classificou-o de "Desfalk,
o bucaneiro do Papatudo". Querem retocar a imagem do
ex-namorado da Xuxa - filantropia, provavelmente em
função do espírito de Natal.
# Na edição de 11 de dezembro, a revista dedica
capa à descoberta de água na Lua e mais sete páginas
do mais deslavado besteirol científico, onde alguma alma
mais sensível ainda conseguiu enfiar pequenas ressalvas
à importância da descoberta. A edição de 7 de
dezembro da britânica The Economist, a mais bem
escrita revista do mundo ocidental, dedica ao mesmo
assunto menos de uma página repleta de críticas ao
barulho promovido pelos publicistas da Nasa e do
Departamento de Defesa americano.
# Na edição de 18 de dezembro
(capa sobre os novos consumidores criados pelo real), há
um box badalativo sobre novo triunfo editorial de uma das
coligadas da Abril, AnaMaria, que já vende 280
mil exemplares. Esqueceram de informar ao distinto
público que o projeto é inspirado na Maria
portuguesa, que vende 300 mil. Comparando-se os dois
mercados, os números do clone brasileiro são pífios.
# Na mesma edição, na matéria sobre a quebra do
sigilo bancário, Francisco Graziano é chamado de corvo
e num box diz-se que o ministro Bresser Pereira é mais
falante do que pensante. Mistura de opinião com
informação no melhor estilo Boris Casoy-SBT. Vamos ver
como tratarão o presidente do STF, que, no domingo
15/12, no Estadão, ao responder a Bresser,
mostrou o baixo nível de cultura política dos donos do
aparelho judiciário. Se Sepúlveda Pertence não for
tratado com o mesmo rigor, ficará evidente que a
impávida Veja só briga com o Executivo e o
Legislativo. (Ver Por
que os jornais tanto temem o Judiciário?)
# Na mesma edição, na matéria "Pretos e
Pobres", que trata da violência policial contra
simples suspeitos, não se menciona a cumplicidade da
imprensa em converter, antes da sentença, qualquer preso
em condenado. A referência à mídia sensacionalista e
populista aparece num box sobre o suspeito do atentado de
Atlanta que, afinal, era totalmente inocente.
# Na mesma edição, matéria sobre um "mal
misterioso" que aflige e emagrece Milton Nascimento.
Uma das mais cavilosas invasões de privacidade já
cometidas pela imprensa dita séria. As insinuações
são perversas. As pessoas, mesmo sendo celebridades da
esfera popular, merecem um mínimo de respeito e reserva.
A não ser que o circo esteja armado.
# E como se não bastasse tamanha coleção de
impropriedades numa mesma edição, a matéria sobre a
morte do bandido Leonardo Pareja exibe enorme foto do
cadáver nu, na morgue. Certamente para atender aos
necrófilos de plantão. Comportamento pior foi o
big-close do corpo que o paroquial Correio Braziliense
publicou na primeira página (10/12).
A.D.
Mande-nos seu
comentário.
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