segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Jornal do Brasil


WIKILEAKS
Deonísio da Silva


Wikileaks, Pasquim mundial da globosfera


O Pasquim agora é mundial! Mas mudou o nome paraWikileaks. Eis que
ressuscitou o falecido semanário de humor, referência solar da imprensa na
década de 70 do século passado. Assustados? Todos nós somos do século passado,
menos algumas crianças!


O Wikileaks não tem limitações de tiragem e usa preferencialmente o inglês, o
latim da aldeia global, depois traduzido para muitos outros dialetos, não mais
da Galáxia Gutenberg, mas da globosfera.


O Wikileaks se parece com o falecido semanário carioca pelo exercício da
liberdade, pelo humor, às vezes, involuntário, uma vez que muitos políticos
(Paulo Maluf, Tiririca et caterva) nos obrigam a rir ou a chorar pelo que dizem
ou fazem, na linha do bordão ‘só doi quando eu rio’, e pelo deboche com o
próprio nome.


O primeiro chamando-se a si mesmo de pasquim, isto é, jornaleco, publicação
sem importância, satírica, como foram os primeiros escritos que lhe deram o
nome, afixados na calada da noite numa estátua conhecida como Pasquino, em Roma,
entre os séculos XVI e XIX. Hoje dá nome ao próprio local, a Piazza Pasquino,
perto da Piazza Navona.


Novas personagens vieram aumentar o número daqueles por quem se pode rir ou
chorar: são as celebridades instantâneas, vindas da política e da televisão.
Umas chamadas de modelos, não se sabe bem de quê, e outras de estadistas, mas
certamente haverá diferenças entre os homens públicos de ontem e de hoje.


O Wikileaks admite, no próprio nome, que vaza para todos. E revelou que
Nélson Jobim, ministro da Defesa do Brasil, achou relevante informar que o
presidente da Bolívia, o ex-líder cocaleiro Evo Morales, tem um tumor no nariz.
É uma fofoca, mas o Wikileaks não censura – eis a questão – e deixa que o
distinto público tire suas conclusões sobre ambos.


Para colocar na cadeia os jornalistas de O Pasquim como para encarcerar o
editor do Wikileaks, as alegações procuraram disfarçar os verdadeiros motivos,
mas a ditadura militar foi mais sincera. E ontem como hoje foi inútil a prisão.
O Pasquim continou saindo com a redação na cadeia. E o Wikileaks continuou a
vazar notícias com Julio Assange encarcerado.


Vamos a outras proibições! A tanga, de atrevida sucessora do biquíni, que
ousadamente já tinha substituído o maiô, tornou-se emblema de nossa abertura
política quando o jornalista e hoje deputado Fernando Gabeira escandalizou o
país ao posar para os fotógrafos vestindo apenas minúscula tanga de crochê
lilás, ao voltar do exílio, no verão de 1979-1980.


Os detalhes são importantes. A jornalista Leda Nagle emprestou sua tanga ao
primo. Feita na emblemática praia de Iapenama,, quando a abertura política dava
os primeiros passos, a foto serviu de bandeira a temas que não eram ainda
levados a sério pela esquerda brasileira, como o culto do corpo, a liberdade
sexual, os direitos da mulher, as homossexualidades legítimas e aquelas tidas
ainda como ilegítimas, a ecologia e o combate ao racismo, temas recorrentes em O
Pasquim!


Que seja bem-vindo o Wikileaks! O Pasquim agora é mundial! (xx)


 


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