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PRÊMIO GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Um tributo ao jornalismo

Por Lúcio de Castro em 10/12/2013 na edição nº 776

Reproduzido da ESPN Brasil, 6/12/2013; título original “‘Memórias’ cai no mundo. E a Pelé de saias do jornalismo”, intertítulos do OI

Uma garrafa ao mar é uma metáfora tão simples quanto forte. Só cumpre seu papel se chegar ao destino, quando, então, deixa de ser metáfora. Obviamente deixa de ser uma garrafa ao mar e passa a ser a mensagem chegando ao receptor. Parece papo do Carlinhos Brown, mas no fundo é isso mesmo...

“Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor” foi uma garrafa solta no mar. Na verdade, como toda reportagem, como tudo o que se escreve, como tudo que se fala... (E eis que Brown está de volta...!).

Alegria maior para quem envia a mensagem não pode haver do que quando a garrafa chega a um destino. Ou a vários. Em vários lugares. “Memórias” tem dado essa alegria.

Feita com a intenção de cumprir algumas das premissas de nosso ofício, de produzir memória, aquela que busca luz no passado para iluminar o presente e apontar o futuro, além da outra de tantas premissas, a de enfiar o pé na porta de quem quer esconder algo que ali permanece obscuro durante anos, a série vem chegando em portos seguros.

Há poucos dias, conquistou o Prêmio Gabriel García Marquez (GGM). O maior prêmio de jornalismo iberoamericano. O segundo maior do jornalismo mundial, atrás do Pulitzer, que no entanto, é igreja fechada e clube dos americanos. Que, no entanto, entram no GGM. 

Rigor e coragem

Não bastasse a chancela de Gabo, tendo como jurados gente como John Lee Anderson, Martin Caparrós, Dorrit Harazim, Javier Restrepo, tantos outros do primeiro time, maior do que a vaidade de contar tal conquista é a alegria da visibilidade que o assunto ganhou. Gente do mundo inteiro, a nata do jornalismo de mais de 30 países, tomando pé do que aconteceu naqueles anos por aqui. É a garrafa cumprindo seu papel e deixando de ser garrafa.

Para que nunca mais na história volte a acontecer. Nunca mais. E essa é uma das funções da tal garrafa. “Memórias” tem quatro capítulos. Argentina, Chile, Uruguai e Brasil. No capítulo Uruguai, Eduardo Galeano fala exatamente sobre isso:

“É muito dificil a tarefa da recuperação da memória dos anos de chumbo. Existe muito medo. Cobraram um preço altíssimo de silêncio. Esse silêncio é o preço da impunidade do poder, que calando consegue repetir a história. Porque se você não aprende com o que aconteceu, está condenado a repetir. E aí então o problema do medo. O poder militar daqueles anos conseguiu impor uma cultura do medo. A ideia de que a denúncia do que aconteceu é um convite para retornar ao passado, para que o passado volte. Que só calando se evita o retorno a esses tempos duros, ruins, essa longa noite dos nossos países. Isso é uma infame mentira! Porque na verdade só encarando a coisa como foi, recuperando a memória, você pode evitar a repetição da história. Quer dizer, a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes.”

A garrafa de “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor” segue seu percurso. Aporta em Milão para o festival de cinema. Depois em Havana, no tradicional festival, por onde passam filmes e cineastas do mundo inteiro.

Não bastasse tudo isso, proporcionou a este modesto contador de histórias dias inesquecíveis durante o Prêmio Gabriel García Márquez. Daria e ainda vai dar novos textos só sobre isso. Aqui adianto apenas parte. Dias inesquecíveis para afastar qualquer ceticismo quanto ao ofício de jornalista. Quem vive repetindo o chavão e propagando a morte do ofício não tem a menor noção ou ideia do que está se fazendo por aí. Da excelência do que está se produzindo. Do altíssimo nível. Da inquietude mundo afora. Dos novos caminhos. De quanta gente boa tem por aí. Produzindo uma das melhores eras do jornalismo. De imensas possibilidades. Claro que é mais fácil chorar e reclamar. Ou então manter os olhos provincianos virados apenas para New York Times, Financial Times e etc. No máximo, para parecer cult, ler a New Yorker.

No entanto, o melhor jornalismo do mundo, coisas absolutamente espetaculares e maravilhosas, estão sendo feitas no nosso nariz. México, Colômbia, El Salvador, Argentina... Qualidade, rigor, coragem, ausência de rabo preso. Tudo o que manda o manual. Muito além do manual. Desconfie com toda força de quem fala que o jornalismo acabou. Nunca pulsou tanto.

Mortes, falências e esperança

Costa Rica foi justamente esquecida acima por ser algo à parte no momento. Um ponto fora da curva. Um ponto de luz, que serve e será um dos faróis dos nossos próximos anos. E mais uma vez, aqueles que vivem olhando com olhar colonizado apenas para cima do Equador irão engasgar. Procure saber. Vá a um seminário, congresso ou prêmio e veja o que está se produzindo.

Em 2005, bati modestamente na porta do La Nacion, Costa Rica. Queria ver de perto aquela revolução. Conhecer Giannina Segnini, Ernesto Rivera e tantos outros. Com o temor e reverência que todos devem ter diante dos mestres, mas com a imensa curiosidade que abre caminhos. Oito anos se passaram e não há a menor dúvida: algo de único acontece ali.

Como disse, voltarei ao tema. Só a ele. Se existe Pelé no jornalismo, usa saias, é uma bela morena e se chama Giannina. A protagonista dessa revolução. Que se espalha por vários países. Reconhecida no Prêmio Gabriel García Márquez em categoria única, que não julgava trabalhos específicos e sim homenageava uma trajetória, Giannina Segnini falou em seu discurso: “Este é o melhor momento para ser jornalista.”

Se alguém acha que é exagero falar na Pelé de saias do jornalismo, veja o que a moça tem feito. Tivesse nascido americana, já era filme em Hollywood. E milionária. Dá de ombros. Quer apenas contar suas histórias. Criou e lidera uma equipe de investigação no La Nacion. Incorporou tecnologias e uma equipe de programadores de dados no seu time. Bob Woodward e Carl Bernstein derrubaram um presidente. Giannina derrubou dois. Botou a igreja desnuda. Corruptos fogem do seu radar como o diabo da cruz. 

Fez e faz muito mais. Compartilha suas ideias e métodos mundo afora com quem queira aprender. Harvard quer. Chama a craque para ensinar sua revolução. Compartilha também com seus vizinhos, seja quem for. Compartilha. Só os grandes fazem isso. Os falsos craques se fecham. Os pés de barro não resistem a generosidade do compartilhamento. Como uma Meca, jornalistas do mundo inteiro correm agora para a Costa Rica. Sua equipe incorporou gente do mundo inteiro. Todos querendo estar ali naquele momento, bebendo de sua fonte.

Resumir a revolução que tem sido feita na Costa Rica e no resto do continente requer espaço e tempo maior. Voltaremos. Enquanto isso, alguns jornalistas seguirão blasés por aí, do alto de suas convicções. Enchendo a boca para decretar mortes e falências. Jamais irão olhar para a revolução que acontece. Longe das páginas engomadas que leem. Que se liguem no que está se fazendo por aqui. “Antes que o dia arrebente...Antes que o dia arrebente. Louco por ti, América...”.

>> “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor” (Equipe: Lúcio de Castro, Fábio Calamari, Rosemberg Faria, Luiz Ribeiro, Alexandre Valim, Andrei Oliveira, Luís Alberto Volpe, Stela Spironelli)


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