Observatorio da Imprensa - Materias - 5/10/97



VERA FISCHER: O PÚBLICO E A PAUTA

Quatro jornais respondem


Dias depois da morte da princesa Diana, antes mesmo do seu enterro - quando a imprensa mundial discutia o sensacionalismo e a invasão da privacidade - e durante as duas semanas seguintes, os problemas pessoais da atriz Vera Fischer estiveram nas primeiras páginas dos grandes jornais nacionais.

Sua internação numa clínica foi noticiada junto com as mais escandalosas insinuações, os problemas com o seu ex-marido, a guarda do filho e até as sessões de terapia (usualmente mantidas dentro da maior confidencialidade) transformaram-se em matéria pública sem a menor preocupação com o efeito que disto poderia advir sobre a vida pessoal e profissional da atriz.

O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA enviou aos editores dos quatro mais importantes jornais do país as seguintes perguntas:

1) Houve no comando da redação uma discussão sobre esta cobertura?

2) Qual o raciocínio que levou o seu jornal a recusar a postura mais discreta?

Eis as respostas, por ordem de chegada.



O Globo

Merval Pereira, diretor de Redação



O Globo não considera que a sua cobertura do caso Vera Fischer tenha excedido os limites impostos pela ética jornalística, segundo os princípios publicamente adotados pelo jornal. Houve, de fato, uma falha no primeiro dia de cobertura, quando se publicou a informação, sem fonte identificada, de que a internação tivera por causa uma overdose de drogas.

Embora o fato fosse praticamente de conhecimento público, nossas normas recomendavam não usá-lo. Assim, nos dias seguintes, nenhuma menção foi feita a isso. Da mesma forma, O Globo obedeceu à exigência judicial de que não fossem publicadas fotos da visita do filho de Vera à clínica. Ainda para demonstrar a boa-fé e os limites a que se impôs O Globo durante a cobertura, todas as informações publicadas (salvo o deslize do primeiro dia) foram de fontes credenciadas pela própria atriz (que, inclusive, procuraram o jornal para pedir que veiculasse a posição de Vera na disputa do pátrio poder) e representantes de seus médicos; diferentemente do que diz uma das perguntas, não se abordou levianamente qualquer aspecto ou fase do tratamento: publicou-se o que informaram publicamente fontes autorizadas. A nosso juízo, o assunto não teve, nas páginas do Globo, destaque escandaloso. Respeitou-se o nível de privacidade que a própria personagem criou para sua vida.

O Estado de S. Paulo

Aluízio Maranhão, diretor de Redação




O jornal tem um cuidado especial nesse tipo de cobertura. E já tinha desde antes do affair Lady Di. No caso específico, nos preocupamos em editar as matérias sem maiores destaques e evitar qualquer insinuação sobre o tipo de vício da atriz. A regra era (e é) ficar no factual, sem publicar informações em "off" de fontes desqualificadas, rumores, etc. A nossa preocupação é quanto ao risco de invadirmos demasiadamente a privacidade de alguém.

Considere-se que o fato de Vera Fischer ter decido internar-se, por livre e espontânea vontade, é positivo para a imagem dela. Além disso, personalidades como ela são "notícia" e nós jornalistas não podemos fingir que elas não existem. O leitor quer saber o que se passa com esses mitos da mídia. A questão toda é como abordá-los, o que vai depender do estilo, da história e da tradição de cada veículo de imprensa.

O Estado, um jornal centenário e de nítida imagem formada junto à opinião pública, procura ser low profile nesse campo. Exemplo: não demos a suposta foto, veiculada por meio da Internet, de Lady Di presa nas ferragens do carro, em Paris. Não demos e anunciamos isso ao leitor. O retorno foi muito positivo, pois recebemos vários elogios por telefonemas, fax e e-mails. Além disso, logo no dia seguinte, a Polícia de Paris provou que a foto era falsa, o que justificou ainda mais nossa decisão. Em situações como essa, não se deve ficar preocupado com a concorrência, mas sim com a imagem do jornal. Mas temos todos de reconhecer que o limite entre a invasão e a preservação da intimidade de alguém que seja "notícia" é tênue. Por isso mesmo, além dos princípios básicos de cada veículo, é importante ter bom senso na hora de decidir o que fazer, caso a caso. Sem falso moralismo.

Folha de S. Paulo

Eleonora de Lucena, secretária de Redação




Poucas personalidades no país expuseram tanto a sua vida pessoal ao público como a atriz Vera Fischer. Em sucessivas entrevistas, a ex-miss Brasil falou de tudo: de seus filhos, maridos, do consumo de drogas e de suas experiências sexuais heterodoxas. Em bares e em shows, revelou sua personalidade sem autocensura. Elogiada pela beleza e pelas qualidades de dramatização, virou o principal mito sexual no Brasil.

Por isso, quando a Redação da Folha recebeu a notícia da internação de Vera Fischer, sob suspeita de overdose, houve alvoroço. Nesses momentos, é preciso discutir como fazer uma edição sóbria, sem exageros ou hipocrisias.

Seria exagero superdimensionar o ocorrido. Seria hipócrita considerar que não havia notícia, que a internação intempestiva se restringia ao interesse privado da família da ex-Jocasta da TV.

Há um indiscutível interesse coletivo pela vida da atriz. Um fato que o jornal não pode ignorar em nome de uma falsa devoção à privacidade atingida. Foi a própria musa que escancarou a sua privacidade e fez disso instrumento para a manutenção de sua imagem controvertida.

Na edição daquela sexta-feira, 5 de setembro, a informação foi colocada em terceiro lugar na hierarquia da primeira página. Ocupou duas colunas acima da dobra.

Na opinião dos leitores da Folha, era exatamente onde ela deveria estar. Pesquisa realizada pelo Datafolha naquela manhã, ouvindo 360 assinantes do jornal no Brasil, trouxe o ranking das notícias que mais interessavam no dia: a rainha Elisabeth falando sobre Diana; o erro na contabilidade das importações e Vera Fischer, em terceiro lugar.

Este foi o único dia em que o assunto Vera Fischer esteve acima da dobra na primeira página e foi manchete do caderno Cotidiano/São Paulo. Foi o momento identificado, também pelos leitores do jornal, como o mais forte do caso, quando a notícia, pelo seu inusitado, gerou mais curiosidade.

Nas duas semanas seguintes, o tema voltou outras cinco vezes à primeira página, sempre abaixo da dobra. Mostramos a atriz acenando da janela da clínica (foto em duas colunas, quarta na hierarquia da página e quarta na escolha dos leitores). Na segunda-feira, 8, publicamos nota informando sua saída da clínica.

Uma semana depois, Vera Fischer (ganhando um troféu no Rio) foi a segunda foto da primeira página. Estava abaixo da foto de Ronaldinho. Na opinião dos leitores ouvidos no Brasil, a imagem de Vera deveria estar até no alto da página - foi mais citada do que a do jogador como a melhor do dia (os leitores da Grande São Paulo preferiam a imagem de Ronaldinho).

Depois, Vera Fischer voltou à primeira quando obteve acordo para ver o filho e quando decidiu se internar novamente. Em todas as reportagens, está presente a versão da assessoria da atriz, quando ela mesma não fala.

Assim, considero que a cobertura do caso Vera Fischer na Folha teve um tom sóbrio e informativo. Sem ignorar a importância da personagem para o público e a curiosidade que o seu drama gera. Nossa pesquisa com os leitores comprova esse acerto.

Jornal do Brasil

Paulo Totti, editor executivo




Consulto o nosso fólio e - antes mesmo do enterro da princesa Diana - não encontro nas páginas do Jornal do Brasil qualquer exploração sensacionalista dos problemas pessoais da atriz Vera Fischer ou invasão de sua privacidade. Demos na primeira página a notícia da decisão da juíza sobre a guarda do filho da atriz pelo ator Felipe Camargo e, por solicitação dela, publicamos uma carta de sua própria lavra.

Em nenhum momento a internação da atriz numa clínica "foi noticiadas junto com as mais escandalosas insinuações".

Sinceramente, acho que vocês se enganaram de endereço eletrônico (ou número de fax) quando perguntaram ao Jornal do Brasil sobre "o raciocínio que levou seu jornal a recusar a postura mais discreta".

Por isso, torna-se impossível responder com objetividade às suas duas perguntas, já que elas partem de um pressuposto generalizante.

À guisa de esclarecimento, o comando da redação está permanentemente reunido e muito freqüentemente unido.

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