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JURUNA, XAVANTE (1943-2002)
Tributo a um chefe indígena

Ulisses Capozzoli (*)

Em meados do mês passado (18/07) os jornais publicaram em cantos de página a notícia da morte do cacique xavante Mário Juruna. Clinicamente Juruna foi vítima de uma diabetes crônica. Na verdade seu algoz foi a realidade brasileira e a melhor evidência disso é a cronologia de sua história, a começar pelo nome.

Os xavante, povo do tronco lingüístico Jê, são bem conhecidos pela determinação de seus propósitos. Quando abriam caminho pelo Brasil Central, na expedição Roncador-Xingu, ao longo dos anos 40, os irmãos Villas-Boas, embora sem entrar em choque, sentiram de perto a determinação desse povo em defender suas terras da presença de estranhos.

Na maior parte dos casos de invasões de sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, estão presentes os combativos xavante, quase sempre acompanhados de seus primos os caiapó, também do tronco lingüístico Jê.

Mário, no entanto, como seu nome indica, homenageia os juruna, povo do tronco juruna, habitantes originais do sul do Pará, em território agora ocupado pelo parque indígena do Xingu. Ao contrário dos xavante, mais duros com desconhecidos, os juruna, amistosos desde o contato, foram companheiros fiéis e quase inseparáveis dos Villas-Boas.

Assim, Mário Juruna reuniu em si tanto a determinação combativa de seu povo quanto a simpatia fraterna dos juruna para tentar sensibilizar os "brancos" com suas idéias, quando foi eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro, em 1982, com 31.904 votos.

Com um gravador inseparável, Mário Juruna acabou representado como um bufão logo que a eleição do primeiro representante indígena para o cargo de deputado federal perdeu o exotismo inicial. Quatro anos depois, em 1986, com a votação de um terço dos eleitores originais (10.747), não conseguiu reeleger-se para a Câmara Federal.

Nascido em Couto de Magalhães, Mato Grosso, em 1943, Mário Juruna viveu, até os 17 anos, sem contato com a sociedade exterior – que jornais, como a Folha de S.Paulo (18/7, pág. A9) ainda chamam de "civilização", traindo a percepção de uma pretensa superioridade cultural.

Mais tarde, ainda antes de ser eleito deputado, seu povo o escolheu para cacique da aldeia xavante de Namunjá, em Barra do Garça (MT), localidade às margens do Araguaia, onde começou a conquista das terras que lhes pertenceram.

Ladrões e corruptos

Em 1977, depois de frustradas tentativas de contatar diretamente o presidente da República, o general Ernesto Geisel, Mário Juruna perambulou por Brasília atrás de auxílio para sua gente. A busca de ajuda que Juruna iniciou junto à sociedade urbana o transformou em um pedinte a mais e aí está a evidência de uma das marcas mais profundas da sociedade brasileira: uma grave insensibilidade pelas minorias, especialmente índios, ainda mais os negros. Negros podem destacar-se pelo esporte, como aconteceu com tantos. Índios nem isso.

Quando Juruna bateu às portas do poder em busca de ajuda, seu povo já havia perdido parte de sua história. Contatados no século 18, os xavante repeliram a convivência com os não índios e se refugiaram no Planalto Central até serem novamente encontrados, em meados do século 20. E o contato, como aconteceu com muitos outros povos, foi o começo do fim. Ao menos da possibilidade de continuarem livres em territórios não demarcados, atraídos apenas pelos vínculos com a natureza: a oferta de água, pesca e caça, além da identificação com território.

Confinados em uma reserva, os xavante perderam não a liberdade como parte da identidade. Sua antiga bravura não fora suficiente para lhes assegurar o direito da própria escolha. Dependeram desde então de um chefe desconhecido, um homem a quem não amavam e nem podiam recorrer em momentos de dificuldades, como demonstrou Juruna nas repetidas tentativas de se encontrar com o general-presidente. Até porque, sem que pudessem saber, o futuro que o chefe desconhecido desenhava para eles passava por uma diluição na sociedade nacional.

Integrar era a palavra de ordem do regime militar. Mas integrar, desde o início, não foi outra coisa senão diluição: apagamento de história, esquecimento da língua, perda de memória, crime só mais recentemente reconhecido como perverso, alternativa à liquidação física pura e simples.

Em 1980, um ano antes de entrar para o PDT, Mário Juruna enfrentou o veto do governo para que pudesse participar do 4º Tribunal Bertrand Russel, em Roterdã, Holanda, como representante dos índios brasileiros. Recorreu à lei dos "brancos" – o Superior Tribunal Federal – para participar dos debates, para os quais foi escolhido presidente.

Com corpos fortes de cor acobreada, o corte de cabelo típico, Juruna, como seus irmãos, impressionam fortemente um desconhecido. Mário Juruna causou impacto na Holanda. Ali estava um homem grande e forte, um orador de talento e propósitos bem determinados. Quando retornou do encontro, sua autoconfiança havia crescido e ele fez duras críticas ao regime dos generais.

Juruna estreou no Congresso num 19 de abril (1982), Dia do Índio, e sua fala foi fiel à história de seu povo. Pediu a renúncia do general presidente João Baptista Figueiredo e de todo seu ministério. Defendeu que os militares retornassem aos quartéis e que a direção da Funai fosse entregue aos índios, como donos de sua própria história. Mais: em setembro desse mesmo ano chamou com todas as letras de "ladrões"e "corruptos" ministros de Estado. O impedimento de Fernando Collor de Mello, alguns anos depois, mostrou que Juruna não estava inteiramente errado. Um caldo de cultura alimentava hábitos que não combinam com valores comunitários como os da sociedade a que ele pertencia.

Nações agonizam

Em 25 de abril de 1984, Mário Juruna não traiu a expectativa popular e votou a favor das eleições diretas para presidência da República. Foi traído, como foi a maioria da população, por manobras de bastidores no melhor estilo de uma oligarquia arcaica onde a memória substitui a inteligência. Em outubro do mesmo ano, acusou o escudeiro-mor de Paulo Maluf, o empresário de supermercados Calim Eid, de tentar suborná-lo para não votar em Tancredo Neves, na escolha indireta para presidente. No dia 26 desse mês, depositou numa agência do Banco do Brasil 30 milhões de cruzeiros que deveriam, segundo disse, comprar sua palavra. Nesse dia, Juruna disse que estava "com a consciência aliviada" e que poderia votar em Tancredo Neves.

Por tudo isso, Mário Juruna não se separou mais de um gravador. Em programas populares de televisão foi satirizado como o bom selvagem, uma das muitas alternativas de diluição que uma sociedade autoritária cultivou ao longo de 500 anos de exclusão.

Mário Juruna abandonou o PDT após a derrota de 1986. Havia perdido o posto de chefe de seu povo, tivera problemas familiares, de saúde e se ressentia da falta de dinheiro, morando na periferia de Brasília. Um emprego providencial de assessor do Congresso, para onde tentou retornar em 1990 e 1994, evitaram dificuldades mais constrangedoras.

A morte de Mário Juruna, mais que um registro ameno nos jornais, deve produzir uma reflexão numa sociedade que atravessa uma ponte difícil para o futuro. Há quem diga, com forte evidência de estar correto, que as crises econômicas são antes de tudo uma crise de valores. Alan Greenspan, o poderoso dirigente do FED, banco central americano, insuspeito pelo cargo que ocupa, foi um dos que, recentemente, falou de "ganância sem limites".

Se for assim, qual o legado de Mário Juruna?

Com um gravador em punho, ele ofereceu à sociedade, representada por seus políticos, uma oportunidade de se redimir pela palavra, sonora, cristalina e compromissada com a ética e a estética. Os resultados, como se vê, não foram, ao menos até agora, os mais promissores.

Ao denunciar a falta de compromisso com a palavra e recusar ofertas de surborno por compensação pelos atos de subordinação, Mário Juruna insurgiu contra 500 anos de história de desmandos sem, ao final de seu combate, ter ao menos o reconhecimento de que foi um bravo. As histórias que acompanham lendários chefes indígenas da América do Norte (como Corvo Pequeno, dos arapahos; Nuvem Vermelha, dos oglala dakota; Cauda Pintada, dos siox-brulé; Nariz Romano, dos cheyenne do Sul; Cochise, dos chiricahua; Pássaro Saltador, dos kiowa; Dez Ursos, dos comanche; grande Touro Sentado, dos siox), que pegaram em armas para defender seus povos, podem não estender-se a um líder como Juruna, embora sua arma tenha sido pacífica: um gravador de sons.

No Brasil, das aproximadamente mil línguas que podem ter sido faladas à época da chegada de Cabral, sobrevivem 180. Pelo menos 120 delas estão na Amazônia e 60 ameaçadas de extinção no curto prazo, especialmente pelo pequeno número de falantes.

Nações inteiras agonizam, neste momento. Os torá, no Amazonas, não chegam a 30. Os awareté, do Pará, são menos de 10. Os avá-canoeiros, cantados em verso e prosa, não superam os 20. Os juna são meia dúzia, incluindo os velhos em condições de procriar.

Em seu clássico Os Índios e a Civilização, o senador e antropólogo Darcy Ribeiro mostra como nações inteiras desapareceram vítimas do espingardeamento, envenenamento de comida, escravidão e contaminação proposital por tuberculose e varíola, entre outras enfermidades, formando parte de um abjeto histórico pela posse da terras. Por tudo isso, a ameaça de aniquilação que chegou às cidades, pela violência descontrolada, não é novidade para as populações indígenas. E isso apesar de, já no século 16, o papa ter solenemente declarado que "índios também são humanos".

Mário Juruna, de alguma maneira, é a síntese de toda essa história. E o seu gravador em punho é o contraponto mais evidente ao "esqueça o que eu disse, ou escrevi". Juruna partiu para a terra de seus ancestrais, como narra a mitologia de seu povo. Mas deixou seu exemplo. Ainda que, para muitos, não passasse de um bufão.

(*) Jornalista, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil


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